Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-05-2006

SECÇÃO: A nossa gente

José Carvalho Francisco
Um animador das tertúlias locais

Imigrante vindo de Lisboa há 6 anos, José Carvalho Francisco, de 66 anos, a residir em Outeiro, é já uma figura por de mais conhecida em Cabeceiras de Basto.
Pequeno na estatura, mas grande na vivacidade e no entusiasmo que coloca nas conversas e nas ideias que expressa, nunca deixando de lado o seu benfiquismo, herdado dos muitos anos passados na capital, este beirão nascido na Covilhã é a personalidade escolhida para a Nossa Gente da presente edição.

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Ecos de Basto – Sendo natural da Covilhã e vivendo ao longo de 44 anos em Lisboa, quais as circunstancias que o levaram a radicar-se em Outeiro, Cabeceiras de Basto?

José Carvalho Francisco – Bem; eu nasci na aldeia da Coutada, Covilhã, numa família muito humilde de mais cinco irmãos. Depois de frequentar a Escola Primária fui para Lisboa, tinha 16 anos. Ali trabalhei numa drogaria e, mais tarde, em 1971, consegui um emprego de servente no Ministério da Agricultura, na Praça do Comércio, passando, algum tempo depois, a motorista. A minha deslocação para Cabeceiras de Basto deveu-se ao facto de eu ter conhecido a minha actual mulher que é de cá, após me ter divorciado do primeiro casamento. Estou contente aqui e gosto muito desta terra. Foi uma boa opção vir viver para Cabeceiras de Basto. Comprei casa e vivo da minha reforma em conjunto com a minha esposa, com toda a felicidade.

Sinto-me bem em Cabeceiras

E.B. – Qual é a sensação de viver nesta terra onde a pacatez e a calma contrasta com a agitação e o cosmopolitismo da cidade de Lisboa?
J.C.F. – Eu, por natureza, adapto-me bem a qualquer situação. Por outro lado, a minha vinda para Cabeceiras de Basto foi uma escolha consciente e pensada e disso não estou arrependido. Bem pelo contrário, e embora Lisboa e Cabeceiras sejam incomparáveis, uma e outra terra têm pontos de interesse que muito aprecio. Cabeceiras é um espaço onde se vive bem, onde as pessoas são hospitaleiras, muito simpáticas e amigas. Sinceramente já não trocaria Cabeceiras por Lisboa. Sei que aqui as pessoas respeitam-me e tratam-me bem. Convivo e partilho com eles os meus préstimos e as minhas horas de ócio sempre com educação e estima.
E.B. – O que é que mais lhe agrada nesta região?
J.C.F. – Quando era motorista do Ministério da Agricultura fiz algumas viagens com os ministros e secretários de Estado pelo país. Passei por diversas vezes nestas terras em alturas em que o atraso e o subdesenvolvimento marcavam profundamente esta zona do interior. Tudo muito diferente da situação actual que eu classifico de metamorfose extraordinária. É notória a qualidade de vida que hoje tem a região, se comparada com as condições de há 20,30 ou 40 anos atrás. O que mais me encanta nestas terras são a amabilidade das pessoas, as belezas das paisagens, o gosto da gastronomia e o ar puro que aqui se respira.

Sou benfiquista inveterado

E.B. – Sendo um apaniguado inveterado do Benfica, como sente essa paixão clubística?
J.C.F. – Ser benfiquista é mais do que uma paixão. Para mim é uma loucura de amor. O Benfica foi sempre o meu clube preferido, desde os 17 anos. Foi neste clube glorioso que pratiquei atletismo e fiz muitos amigos. Lembro-me que o treinador de atletismo, na altura, era o Prof. Rui Mingas, mais tarde embaixador de Angola no nosso país. Sempre que podia não perdia um treino da equipa de futebol e frequentava as tertúlias do Estádio da Luz com outros amigos. Gostar do Benfica não me proíbe, porém, de criticar o meu clube sempre que esteja em desacordo com as medidas e as decisões que vão sendo tomadas pelos responsáveis como, aliás, fazia nas assembleias gerais quando vivia em Lisboa.
E.B. – Como vê o estado actual do clube da águia?
J.C.F. – A situação actual deixa-me, sem dúvida um bocadinho triste principalmente porque alguns dos jogadores da primeira equipa dos encarnados não têm qualidade. Os custos e a qualidade dos atletas não tem sido uma boa política da direcção do clube. Prefiro a qualidade à quantidade e, infelizmente, o Benfica não tem tido isso em conta e os resultados (maus) estão à vista de todos. O Benfica tem obrigação de ter mais ambição e arrojo, tendo em vista vencer as provas em que participa, especialmente o campeonato da Primeira Liga Portuguesa.
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Situação actual do clube entristece-me

E.B. – De que forma tem seguido a carreira do Benfica a esta distância considerável?
J.C.F. – Eu trouxe o Benfica comigo… Na verdade, quando cheguei não conhecia ninguém o que me causou alguma frustração inicial. Mas isso não obstou a que, nas minhas conversas, tivesse em mente uma permanente preocupação em conhecer outros benfiquistas e com eles estabelecer contactos mais assíduos. A partir da altura em que conheci melhor esta terra e as pessoas, resolvi criar um quadro de honra dos benfiquistas locais. Esses quadros eram feitos em cartolina onde eram coladas as fotografias das pessoas e escrito o seu nome. Colocados em certos cafés da localidade isso constituiu uma certa curiosidade e interesse não só aos simpatizantes do Benfica, mas também nas outras pessoas do burgo. Recentemente foi criado a Casa do Benfica de Cabeceiras de Basto, da qual sou sócio, que já faz o trabalho de divulgação e de promoção do clube com outros recursos e metodologias mais modernas. Sigo, portanto, a carreira do “Glorioso” com toda a atenção, entusiasmo e envolvimento, mesmo distante de Lisboa. Ainda antes de haver Casa do Benfica nesta terra eu tentei fundar um núcleo de adeptos que se chamaria “alma benfiquista”.

Sou irrequieto por natureza

E.B. – Que actividades tem tido nestes anos em que está em Cabeceiras de Basto?
J.C.F. – Sou uma pessoa que não posso estar parada. Sinto com preocupação tudo aquilo que gira à minha volta. Dai que, logo que cheguei, procurei ligar-me às associações locais dando a minha colaboração e o meu contributo à Associação Desportiva de Outeiro. Sou um amante do associativismo e do trabalho de todas as colectividades, sejam elas culturais, desportivas ou de outro género. E ainda bem que há em Cabeceiras cada vez mais associações com projectos interessantes, factor que só beneficia a terra e as pessoas que aqui vivem.

E.B – Como tem acompanhado o desenvolvimento do concelho de Cabeceiras de Basto?
J.C.F. – Desde que cheguei de Lisboa tenho verificado com espanto o enorme desenvolvimento que se tem feito sentir em todas as terras do concelho de Cabeceiras de Basto. Eu que vim a Cabeceiras, de visita de fim de semana em 1984, fiquei completamente surpreendido pelas mudanças operadas em todos os sectores da vida local. Equipamentos diversos, novos arruamentos e estradas, urbanizações grandiosas com a oferta de muitas centenas de casas, lojas e escritórios, modernização de espaços públicos, recuperação de edifícios e monumentos pertença do nosso património, a introdução de politicas culturais e sociais que elevam o nível de vida dos cabeceirenses e o lançamento de iniciativas económicas, de qualificação e educação das pessoas têm lançado este município na senda do desenvolvimento e do progresso. È por tudo isso que eu me sinto bem em Cabeceiras de Basto e daqui faço um apelo a todos aqueles que gostam de ter uma vida agradável e feliz; venham viver para Cabeceiras.

É espantoso o progresso desta terra

E.B. – Não tem saudades dos amigos e das tertúlias que deixou em Lisboa?
J.C.F. – Claro que tenho saudades. Deixei lá alguma família e muitos amigos. Conheci certos locais de Lisboa como as minhas mãos. Quando lá vou, por vezes, tenho que fugir dos apelos desses amigos, de contrário não conseguia libertar-me e regressar a Cabeceiras. Compenso essa falta com novos amigos que conquistei cá e ainda com um “hobbi” que, desde há muito, eu pratico. Trata-se da colecção de “santinhos” religiosos que são editados nas Igrejas, nos festejos e em certas datas católicas. Já juntei 2500 “santinhos” de todo o mundo das mais variadas figuras religiosas, algumas muito antigas. Consegui obtê-los em grande número, uns na Feira da Ladra, em Lisboa, e outros através do pedido que fazia às pessoas,1 que quando se deslocavam me traziam as estampas que encontravam. Também me entretenho a tocar “realejo” (gaita de boca), instrumento antigo que gosto muito. Sou uma pessoa muito alegre e até canto o fado à minha mulher.


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