Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-04-2006

SECÇÃO: Região

Otelo Saraiva de Carvalho em Cabeceiras
Estratega da Revolução do 25 de Abril em exclusivo a Ecos de Basto

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Os melhores políticos foram Sá Carneiro, Mário Soares e Ramalho Eanes
Dos mais conhecidos capitães do 25 de Abril, elemento preponderante no Movimento das Forças Armadas, operacional destemido no dia da revolução e no PREC que se lhe seguiu, o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho é, sem dúvida, uma figura incontornável da nossa história contemporânea.
Com um percurso político-militar polémico, recheado de controvérsias e atitudes que dividiram a sociedade portuguesa, este rosto cimeiro da Revolução dos Cravos não deixa, mesmo agora, que são passados 32 anos sobre o 25 de Abril de 1974, ninguém indiferente à sua presença ou consegue iludir a auréola mítica de que está revestido atendendo ao protagonismo e à acção tão importante em que participou e que mudou Portugal.
O principal estratega da operação militar que derrubou o regime da Ditadura de Salazar e Caetano e implantou a Liberdade e a Democracia em que hoje vivemos, é natural de Moçambique onde nasceu a 31 de Agosto de 1936.
De seu nome completo, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, quis ainda jovem, ser actor vendo-se, porém, obrigado a seguir a Escola do Exército. Foi Capitão em Angola de 1961 a 1963 e na Guiné, entre 1970 e 1973, aderindo, na altura, ao MFA e integrando, a partir daí, a sua Comissão Coordenadora e assumindo o posto de comando no 25 de Abril instalado no Quartel da Pontinha em Lisboa.
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Convidado especial para as comemorações do 25 de Abril promovidas pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, Otelo Saraiva de Carvalho, solicitado por Ecos de Basto, aceitou responder a algumas questões que deixamos à apreciação dos leitores.

É Honroso visitar Cabeceiras de Basto

Porquê a escolha de Cabeceiras de Basto para assinalar as comemorações do 25 de Abril?

- Estou sempre disponível para participar em qualquer comemoração desta data seja ela onde for. Este ano deixei de participar nas cerimónias levadas a cabo na Assembleia da República para as quais estava convidado pelo seu presidente, bem como não pude também participar nas comemorações da Associação 25 de Abril, que tiveram lugar no Algarve. O honroso convite do presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto cativou-me de tal modo, que dei a preferência a esta linda terra.

O 25 de Abril é para si passado ou presente?

- É um passado de nostalgia daquilo que foi feito com um grande pundonor e honra há 32 anos atrás e é também um presente porque, felizmente, a nossa democracia sobreviveu apesar dos obstáculos que se lhes opuseram ao longo dos anos, na certeza de que hoje vivemos uma democracia parlamentarista em Portugal com o regime instalado e solidificado. Temos a descolonização feita e também um processo de desenvolvimento em curso que nos coloca no grupo de países ocidentais civilizados e modernizados.
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O 25 de Abril valeu a pena

Considerando a situação actual de crise que o país atravessa, o 25 de Abril valeu a pena?

- Apesar da crise muito grande que o país atravessa, e não se esqueça que o país já viveu períodos gravíssimos nos seus quase 900 anos de existência, estou convicto e esperançado que Portugal consiga superar esta situação conjuntural para poder conseguir um rumo do progresso. O nosso povo bem o merece.

Qual foi o episódio do 25 de Abril que mais o marcou?

- Foi, talvez, o telefonema que recebi no Porto do Comando do General Spínola, que estava por nós eleito como um dos generais que iria integrar a Junta de Salvação Nacional a informar-me de que o presidente do Concelho de Ministros de então, Prof. Marcelo Caetano, lhe tinha ligado a pedir-lhe que se deslocasse ao Largo do Carmo, na capital, para se render e entregar-lhe o poder. Marcelo Caetano responde-lhe que não tem nada a ver com o que se estava a passar avisando-o, no entanto, que para isso só pedindo autorização ao Posto de Comando das Forças Armadas. Eu pensei um pouco e decidi que sim senhor, o General Spínola estava autorizado a deslocar-se ao Largo do Carmo para receber o poder do Prof. Marcelo Caetano e a consequente rendição do Governo fascista.

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Spínola e Cunhal foram importantes


Qual a figura da Revolução do 25 de Abril que mais o impressionou?

- As figuras que mais me impressionaram foram o General Spínola, que já conhecia antes, com os defeitos e as qualidades que se lhe reconheciam e colhi também impressões favoráveis de Álvaro Cunhal que se manteve sempre na luta por ideais progressistas. De Mário Soares, que conheci numa primeira viajem que fizemos juntos a Lusaka para contacto com a FRELIMO e Samora Machel guardo igualmente recordações positivas, apesar de lhe reconhecer alguns defeitos. Nas figuras estrangeiras a minha admiração vai para Olloff Palme, que foi primeiro-ministro sueco e líder social-democrata e que viria a ser assassinado mais tarde.

Qual a ideologia política que defende actualmente?

- A minha ideologia política não se insere em nenhum partido político do espectro político português. Desde o processo revolucionário eu assumi como linha ideológica a perspectiva da instauração de um estado de democracia directa em que os partidos políticos desempenham um papel de meras associações políticas, sem a possibilidade de entrarem na luta pelo poder. Aqui o poder é exercido pela representatividade directa a partir de eleições para as Assembleias de Freguesia que escolhem representantes para as Assembleias dos Municípios, dos Distritos até a uma Assembleia Nacional Popular que seja constituída exactamente da base para o topo. Isto implica a construção de um Estado do poder popular que se tornou impossível de implantar dadas as divergências e as diferenças de opções geradas no MFA. Sei que é uma solução considerada por muitos utópica mas que eu continuo a considerar muito positiva.

Defendo o poder Popular

Quem são ou foram, os melhores políticos portugueses?

- Isto é muito difícil de definir. Todos eles têm ou tiveram características muito diferentes. Não tenho, por isso, nenhuma figura de referência. Tal não invalida que eu nutra um grande respeito pelo Dr. Sá Carneiro, que considero um homem com estofo de estadista, assim como pelo Dr. Mário Soares, com enorme carisma político. O meu amigo General Ramalho Eanes, como Presidente da República, muito agarrado à Constituição, revelou também algumas qualidades para responder à situação que se vivia em Portugal. Neste momento não vejo mais nenhuma emergência política que seja de realçar.

Conto escrever um novo livro

Alguma vez foi seduzido pelo poder?

- Um dos meus defeitos, talvez, é eu nunca ter tido nenhuma ambição pelo poder. Eu vi-me empurrado pela situação do exercício do poder pelas circunstâncias do 25 de Abril. Mas estava ansioso por me libertar. Ainda concorri a duas eleições presidenciais porque senti que tinha obrigação de o fazer em representação de uma linha ideológica do poder popular que podia dizer alguma coisa a uma larga massa de portugueses. E foi apenas numa perspectiva político – ideológica que concorri sem apetência alguma pelo poder.

O que faz actualmente?

- Presentemente estou a gozar a minha reforma. Continuo, porém, a acompanhar a vida política, participo com frequência em palestras, colóquios e conferências, essencialmente sobre as questões e as problemáticas dos antecedentes da Revolução e no seu processo posterior. Dadas as minha responsabilidades históricas, estou a pensar em escrever um novo livro, depois da “Alvorada de Abril”, sobre o processo revolucionário que se viveu em Portugal em 1974 e 1975. Até agora ainda não tive a paciência necessária para iniciar a obra. Para além disso, passo o tempo na gestão de uma pequena empresa que criei com um grupo de amigos que se lançou em Angola.

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