Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2006

SECÇÃO: Crónica

A Minha Terra - XXIV

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Retorcedendo nos limbos do passado até onde a minha memória é como a lanterna dum mineiro perdido no fundo duma galeria, que vejo?
As borboletas voltejavam em torno do candeeiro. O calor, mesmo à noite, era de abrasar. Por isso, janelas e portas estavam escancaradas. O cão arrebitou as orelhas, levantou-se num grande espreguiçar-se, e foi até à porta de entrada.
Debrucei-me para o largo, meio escuro. A noite estava estrelada e uma lua fininha parecia suspensa e imóvel sobre uma sombra recortada que era o canto quase pontiagudo da Mata de Santo Antonino, com um eucalipto gigante, cujo caule só abraçado por três homens.
Os últimos carros de bois, com os meninos das lanternas atrás e à frente passavam chiando, na ternura da noite e aquilo era bucólico e repousante. Cigarras e grilos cantavam.
A Paulinha era bonita, e distinguira-se para mim, das amigas dela, com quem a gente, pela manhã, no banho da poça larga, com verdidão no fundo, brincava de empurrá-las para a água que esparrinhava nas faces e nos cabelos soltos. A minha primeira amada chegava no ar dos pinhais, cingida de resina vária como o cedro, tinha brilho nos olhos de veado como se buscara a grande fonte das águas, verde salgueiro à beira dos dias íntimos e trémulos. No meu amor por ela não havia uma rua que começasse, nem árvores nem casas que existissem, só as suas palavras e os seus afectos enchiam a minha alma e os nossos corpos renasciam.
Lá do fundo, da beira-rio, as carquejeiras iam subindo na sua faina acostumada. Caminhavam em bicha, em ziguezague. Passo cadenciado, lento, resfolegando a custo, os seus corpos vergavam-se envoltos na ramagem da carqueija.
Estava sentado nas escaleiras do Pelourinho, numa numa noite de calmaria, e vi na abóboda celeste um ponto brilhante e com uma espécie de cabeleira e um rastro luminoso que me deixou deslumbrado, e pensei vagamente em Deus. Entrei em casa e perguntei ao meu avozinho e ao meu pai o que era aquilo que eu tinha observado. O meu pai disse-me que não sabia, talvez fosse o rabo duma estrela, que já lhe tinha acontecido o mesmo há uma porrada de anos. Soube mais tarde que fora um cometa. Estudei muitas coisas sem nenhuma utilidade para a vida. Até aprendi que na prisão -exílio da Ilha de Santa Helena, a maior recordação do cabo-de-guerra Napoleão, de toda a sua intensa e emocionante vida, tinha sido a Profissão de Fé, então aos doze anos. Napoleão não tinha saudades nenhumas, ou poucas, pelos vistos, das belas e deliciosas amantes, em primeiríssima mão, que possuíra em toda a Europa, da sua cadeira de Imperador, das duras batalhas vencidas. Para os grandes Homens, as coisas que parecem pequenas, às vezes, é que são verdadeiramente importantes. O professor de História, Dr. Adriano, também nos contou o prodígio de encadeamento memorial do Bonaparte, a tal ponto que conseguia ditar, quase simultaneamente, numa mnemónica prodigiosa, cinco epístolas aos seus secretários.
Só depois que cursei o magistério primário é que comecei a cimentar aquilo que eu entendia, talvez mal, por verdadeira cultura. Cultura de raiz popular ajuntada à erudita. Dizia um pensador antigo que a cultura dum homem é o substratum daquilo que lhe fica depois de ele ter esquecido um monte de coisas. Esqueci as matemáticas, as físicas, as químicas, o desenho-à-vista, o desenho geométrico. Eu não tinha vocação nenhuma para ser designer, pintor ou engenheiro. Fui, e talvez ainda hoje seja, um cabeça-de-bogalho que ainda não descobriu bem o norte da vida, esta vida sensaborona e cheia de ramerrãos, um vaso quebrado do mais frágil barro com que Deus fabricou o primeiro homem e lhe tirou, à faca, uma costela e com ela criou a mulher mais bela e enfeitiçadora de todas as eras e também a mais safadinha que nos arranjou um sarilho do caraças.
Nas diferentes rádios espanholas, para todos os gostos, entendia-se que a situação era gravíssima, com os levantes militares alastrando de Marrocos a todas as províncias. A revolução de “los curas” estava na rua contra “la liberacion de Espanha”. E acrescentava-se muito irónicamente: “la dos curas y de los generales, la de los banqueros y de la aristocracia”. Em “las derechas” havia os carlistas, os monárquicos liberais, os católicos que eram republicanos, os que não eram, e a Falange. Da outra banda havia os anarquistas, os comunistas, os socialistas e os republicanos, até que arribou, num estado lastimável, à Casa do Regedouro, ao fundo da Orada, um galego fugido, e com a cabeça a prémio, e ali recolhido e escondido meses.
- “Os curas têm direito a viver…”
- “Mas com jeito” – ouviu-se uma voz de trombone do outro lado. “Eu vi os padres na semana passada, na igreja, a ingrolarem o latim do responsório e à saída montarem nas éguas rabonas e despedirem a trote e eu coso-me todo que ando a pé e rompo as botas, que são caras. Sabe aquela, amigo: “ – réu – réu! senhor padre Mascaréu, a senhora que morreu já está no céu”.
- “Dizem os jornais que espetam as cabeças tonsuradas dos padres nas forquilhas e passeiam-nas em procissão, salvo seja”.
- “Pois é. Frederico Garcia Lorca, o estóico Poeta que cantou a Espanha, foi fuzilada nos primeiros dias da Guerra Civil, no verão de 1936, em Granada, por ser vermelho, e parece que não era, cobardemente denunciado pelos curas e companhia limitada. São todos iguais… Concerteza, nem esses curas, nem Lorca, eram santos… E a senhora, que é lida e entendida, sabe por acaso os versos com que o também grande poeta António Machado, reconstruiu a trágica morte de Lorca?

“Se le vió caminar entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frio,
aún com estrellas, de la madrugada”

- “ Ninguém deve tomar partido nesta Guerra Civil. Os cónhos são todos sanguinários. Até se vê pelas touradas de morte, cheias de olés… são todos iguais, - uns bisbórrias”.
O cidadão espanhol de Verin, que casara com a menina de Cernadela, é que ia explicando aos menos astutos o que os locutores e locutoras lançavam nas ondas hertezianas. “Aqui, Rádio Andorra”, era a mais imparcial. Outra emissora abria o noticiário com o slogan “Viva o General Sanjurjo, arriba Espãna”.
Acontecera que, numa daquelas noites, a Emissora Nacional, mais tarde conhecida pela “maçadora nacional”, transmitiu uma notícia de arromba. – Já sabes o que aconteceu?, perguntou o “comunista” das Pereiras (as Pereiras só tinha um comunista assumido) – Não. – De manhã, o General Sanjurjo morreu, em Cascais, num desastre de avião muito esquisito; e, quando ia precisamente para Espanha para assumir a chefia da revolução, o avião caiu e ardeu. O avião era espanhol e vinha buscá-lo, mas ao levantar voo do campo da Marinha, perto de Cascais, fizera-se em pedaços contra as árvores da mata próxima.
O sítio habitual do aparelho de telefonia era uma sala do século dezanove com frescos de grinalda de flores no tecto e numa credencia D. João V pousava a grafonola com a respectiva caixa de discos.
Agora estavam ali, os senhores e as senhoras na sala de jantar ainda faustosa, da Casa do Brasileiro, onde outrora tinham soado, pelas noites dentro, ruído de cristais, de talheres e taças frescas de champanhe tiradas, à última hora, do fundo do poço de sarilho, antigas bebidas fortes e amargas, duas garrafas “Duque” de 1815, de pratos de porcelana sobre a toalha de renda muito branca, no meio de flores, velas vermelhas e sedas que deslizavam suaves nos gestos demorados. Velhas fidalguias…
Alheio aquela fratricida guerra civil assentava-me nos cômoros da quinta, ao sol débil de inverno, ao pé da alcárcova remorosa e lavada ou por cima das belas malvas veludinas alinhadas ao longo do comprido muro.
A mata de eucaliptos era um silêncio de mar ao meio do dia e os solitários sítios pareciam embalsamados ao peso do passado.
Afinal as missas negras de que ouvia falar na venda do senhor Zézinho, que eu julgava feitas só por pretos, eram possessões do porco sujo, e não queria sequer imaginá-las.
A coitada da Guilhermina, a lembrar-se da promessa, ainda não cumprida, à santanossassenhora por a ter livrado de finar, estando desinfeliz, penando as dores do parto, com a vizinha parteira a atar as mãos à cabeça, uma aflição medonha, o crianço afinal veio morto, vil e cinzento, de pescoço torcido.
O senhor Lourenço Tapulho com tão más lembranças da Grande Guerra, sobretudo do meio milhão de portugueses que combateram na Flandres, aproveitou para desabafar:
- No fim desta borrasca toda da Espanha, é que se vai ver… Se for como em Portugal vai ser bonito. Pensões de invalidez a “inválidos” de pulmonias e hemorróidas, alguns sem sequer terem posto os pés nas trincheiras. Eu não sou inválido, mas sofri o cabo das tormentas. Sabem quanto eu recebo? Um chavo… um chavelho… enquanto os senhores generais se passeiam de automóvel à custa do Estado. Se não fossem as leirotas que o meu pai me deixou morria à fome. Mas trabuco que nem um moiro. Portugal e a Espanha deviam ser uma federação socialista ibérica.
- Fale baixo, que até as árvores escutam. Você é doido. E a nossa independência que nos custou tanto a ganhar, desde Zamora. O Mestre de Aviz, o Nuno Álvares Pereira e os conjurados de 1640? – retrucou um dos do magote, que tinha feito a quarta classe antiguíssima, sim, e sabia a História de Portugal de ponta-a-ponta.
- Já passaram muitos séculos… a vida agora é outra, é muito puta. Ou cantamos outro fado ou estamos quilhados, quilhadinhos, com este Salazar salazarento.
Naquela noite, à volta da Casa do Brasileiro, estava um sudário de calor abafado e o boémio da viola tinha umas olheiras enormes e um ar extenuado, como de quem andara a noite anterior a violar.
Uma vez ouviu-se no meio do surdo burburinho.
- “Viva Francisco Franco! Vivam os militares e os civis portugueses em Espanha!”
Deixá-lo, era tolo, coitado, desabafava-se.
Estavam no canto do terreiro dois velhotes, a recordar o tempo velho, tocando, um, acordeão e o outro gaita de beiço, alheios àquela confusão de ouvidos. Pelo meio, o acordeonista, largou a canção italiana O sol mio, uma canção cheia de força e de vida, bela, límpida, mas ele próprio só compreendia as palavras “o sole mio” e não compreendia mais nada. Depois gargarejaram uma cantiga franquista, muito em voga.
O doutor, que era o sábio daquela guerra e doutras histórias universais, foi interpelado de repente.
- O senhor interessa-se pela morte?
O doutor Monteiro, em voz alta.
- A mim interessa-me a vida, farto da morte estou eu, há dois anos morreu a minha santa mãe, morreu de um dia para o outro, com um aneurisma cerebral, uma palavra complicada para dizer que lhe rebentou na cabeça uma veia, o ano passado morreu o meu pai, deixou-me alguma coisa pouca, e ainda trago aqui no coração uma cicatriz muito grande pela perda da minha filha. Não acha que já chega de morte? Vamos pensar na vida, e que morra a burra.
Estes ajuntos ocorriam, à tardinha, nos dias grandes; e, à noite, nos pequenos, no terreiro fechado da Casa do Brasileiro, cercado por um muro alto, com dois leões encimados nas laterais do portão; e, na sacada baixa, a senhora punha o rádio em cima dum banco.
Como fazia luar, o Benjamim, num canto do cercado, mestre de viola e violão, muito rogado, soltou a trova:

“Maria tu vais casar,
E eu vou dar-te os parabéns,
Vou dar-te uma prenda, ai, ai,
Saia de renda, ai, ai,
De dois vinténs.”


“Se Deus me perguntasse
Que queres te seja dado
Quero viver na barra
De teu vestido encarnado.”

Grave e quente a voz de Tião ressoava até longe.

“É de manhã
É de madrugada
Vamos tirar leite
Oh, maninha
Da vaca malhada.”

Extasiada, a Margarida, garantia que, se fosse dia claro, os pássaros silenciavam para ouvir a canção.

Por: Alexandre Vaz

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