Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2006

SECÇÃO: Crónica

A MINHA TERRA -XXIII

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Quando estou muito tempo dentro das quatro paredes da minha modesta casa, o meu espírito entra num desassossego, tangido pela peregrina suposição de que o mundo possa estar à minha espera. O que sobremaneira me custa é a conveniência social de ser educado para com os ignorantes e exercer a tolerância junto dos sectários. E recordo-me, com alguma saudade, do cumprimento afectuoso e respeitoso a meu pai.
- Meu pai, sua bença!
- T’abençoo, meu filho!
E às vezes mais nada ou pouco mais. Os tempos eram muito difíceis. Os meus pais tinham quatro filhos para criar e, se possível, fazer deles e delas homens e mulheres. Como te consumistes, como te esgotastes, mãe! Quantas lágrimas doridas, golfadas como bolhas das pestanas! Quanto te arreliastes, quanto cerrastes os punhos, pai! A vida era mísera para muitos, gorda, muito gorda para outros. “Em casa de meu Pai há muitas moradas”. Para quem? O mistério mantém-se. Mas para os que levaram vida de pânria e rodeados de tudo, tudinho, como que caído ao calha do céu, alto lá.
E depois o padre, co’as suas duas irmãs linguarudas, alcoviteiras que lhe enchiam e emprenhavam os ouvidos, o povo já sabia a bisca que tinha, voltou a pensar, sem nunca lho dizer, que aquele representante de Cristo fora enviado como cordeiro, mas uivava como um lobo. A clerocracia, nuns casos descarada, noutros mal disfarçada, era uma dura realidade e ainda deixou em muitos uma nostalgia que perdura. As mulheres não deixavam de parir, parir como recomendava a Santa Madre Igreja, embora os meninos e as meninas morressem aos cachos – anjinhos para o Céu – e as que iam escapando cresciam raquíticas, com o monco ao dependuro, e a agarrar o estômago vazio. O filhinho estava doente a ferver em febre, isso passaria. Tosse? Isso foi migalhinha que ficou atupida na garganta. O porco ou a vaca tombavam e não comiam ia-se logo ao entendido chamá-lo numa pressa e à botica buscar o frasco da veniaga. Meu Deus, porque foi assim?
- Sabes ler ou não?
- Nem a letra do tamanho dum carro… Aos sete anos tive de ir guardar cabras. Saber ler é para os doutores, não faz minga, disse o meu pai. Para trabalhar na lavoira não é preciso cansar a tola com os estudos.
Aos dezanove anos iam todos p’rá tropa fandanga – para um dia defender a Pátria. A tropa era uma escravidão; e, juizinho, senão ia-se parar ao presídio militar.
Já ia longa a Ditadura e um Veiga de Macedo, ao acabar de tomar posse do Ministério da Educação, chegou-se ao ouvido do Salazar e disse-lhe de mansinho que o País estava mergulhado no analfabetismo. O Antoninho, com as suas catalepsias da alma, que só cuidava das elites disciplinadas e obedientes, franziu o olho. E vai daí o Veiga de Macedo arregaçou as mangas e pôs os trabalhadores do Estado, e mais outros, e os que queriam tirar a carta de condução a bufar e a suar as estopinhas. Foi um ver-se-te-avias e muitas poucas vergonhas houve. Até se pedinchavam diplomas falsos e os analfabetos fizeram-os que fizeram-o exame de brincadeira da 4ª classe e a maioria continuou praticamente na escuridão.
Não passou de mais um vómito do salazarismo. De vómito em vómito, o salazarismo ainda sobreviveu ao Estado Novo (?) e ao seu fundador, com um arremedo de primavera marcelista. A ruína era tão grande, o descalabro tão evidente, que os capitães de Abril, não os generais, vassoiraram a lixeira toda.
A Censura trabalhava a triplo vapor, as tesouras nunca tinham funcionado tanto como durante a guerra colonial. Os jornais enchiam-se de discursos patrioteiros, Portugal é uno e individisível, declarações de apoio ao regime, de que sobressaltava o ultra-salazarista “O Jornal de Cabeceiras”, mas muito pouco de concreto sobre os acontecimentos.
A situação era séria. Muita repressão, a PIDE andava mais doida que um carrossel. Que a anexação de Goa pela União Indiana, não fora um roubo; os guerrilheiros angolanos de 4 de Fevereiro de 1961 não eram nada os “bandidos”, nem os “terroristas”, nem os “bandoleiros” das crónicas enviesadas e nebulosas do senhor Ferreira da Costa, que se ouvia na rádio oficial, há hora do almoço, as charlas apopléticas dos servidores de Salazar ácerca do assalto ao navio “Santa Maria”, o ninho de víboras que era a Sociedade Portuguesa de Escritores, as reuniões “reviralhistas” de católicos na capela do Rato, essas crónicas não passavam de uma treta; como também não pude suportar o fanatismo suplicante do pregador, que pedia aos fiéis que orassem pela salvação dos inimigos de Deus, os traidores dos desígnios patrióticos dos nossos abnegados governantes, traidores esses que estavam excluídos do número dos eleitos do Senhor.
Com esperança gorada fiquei à espera de ouvir a Igreja do meu país denunciar os crimes da Ditadura, a violação dos Direitos Humanos na pessoa dos presos políticos e dos exilados à força, o genocídio da Guerra Colonial e a exploração dos trabalhadores, sobretudo dos rurais, que eram espezinhados. Nada!
Os bispos continuavam a benzer as naus, o Cerejeira viria a morrer só disso, da fadiga de tanto abençoar os peregrinos de Fátima, enquanto o sangue escorria pelo capim de Africa. Conheci quase todos os becos do país acanhado do salazarismo de uma dor sem nome. Como diria o escritor José Cardoso Pires, o anjo ateu: “ Da minha terra natal tenho uma definição aprendida e remota: deserto de pedras, padres, polícias e pedintes”.
Com a crise da Democracia há por aí uns saudosistas do passado, que têm fraca ou nenhuma memória, e outros mais que nunca se esclareceram, ou não foram esclarecidos, sobre o terror do fascismo.
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Chamei a mim as forças da paz. Respirei o aroma das maçãs verdes, deitado de ventre para cima, como o meu irmão – pássaro fazia.
O doutor Ferreira Leite, conhecido pelo seu bom-humor, à mistura com algumas caralhadas, aplicava-se porém à escuta do estetoscópio e assobiava, imperturbável, a ultima modinha faceira de Lisboa. Bateu com os dedos no peito e nas costas do meu avô, palpando-lhe a barriga e espiando-lhe o branco do olho, meneando a cabeça. O médico excelia na habilidade do diagnóstico. Depois, rabiscou, com pouca convicção, uma receita ilegível, arrumou os estojos na maleta das visitas domiciliárias e discorreu pausadamente:
- Vocês vão-se preparando para o pior, que ele está por pouco. Entre hoje e amanhã, diz-vos boa noite e apaga a luz. Caldinhos de galinha e água de bálsamo a ferver numa chaleira, bem rente ao nariz dele. E não voltem a incomodar-me: tenho um poderio de gente à espera de consulta.
O Dr. Ferreira Leite, apesar de bom clínico e inteligente, era um homem muito dado com todos, sobretudo com os mais humildes, aliás ele provinha duma família pobre de Fafe. Usava, às vezes, uma linguagem popular rasteira, mas que tocava os mais sensíveis e as senhoras púdicas. Chamava, por exemplo, de embirra, a um cartola muito conhecido da Praça “ o piça santa”. – Eu é que sou o bêbado, mas eles, incluindo o tal, é que vão todos os anos curar o fígado às termas. E etecetera para não tornar esta crónica macabra.
Pela certidão de óbito soubemos mais tarde que o vovô falecera dum duplo enfisema pulmonar, já velhinho.
O meu pai, a minha mãe, as minhas tias, muito sérias e vestidas de luto, mandaram-nos beijá-lo na face, antes de ir ao caixão. Os meus lábios ficaram hirtos do contacto com a pele do avô, e é desse frio tumular a minha última memória do seu rosto.
Tia Arminda, “a brasileira”, com o seu rosto de porcelana, com olhos dum azul incandescente e cabelos cor de palha, era um modelo de mulher. Por calha, estava em Portugal a passar umas férias.
Foi todavia o som dos primeiros torrões, que meu pai me mandou atirar para cima do caixão, a parte que mais me custou naquela morte, até porque ainda não me tinha assucedido outra. Mas o avô não morreu de todo. Ficou gravado na memória dos filhos e netos…
Talvez nunca homem nenhum, ainda por cima um místico da noite, tenha sofrido mais do que eu. Porque, quando se é ainda criança e já não há justiça à nossa volta, mas uma caridadezinha podre, um veneno mortal parece envolver o mundo. Bebi o veneno mortal e passei a viver para sempre dos seus males, além disso eu ainda acreditava em Deus. Havia-lhe confiado a inocência, a dor de alma da minha idade, os pobres sonhos de então. Eu só queria, mais adiante, que Deus me desse de volta a minha anterior inocência. Queria o meu tempo, só o meu tempo, aquele que morreu nos logros e segredos; o Ditador, às blasfémias, a mandar gente, que não tinha idade nem vocação para morrer em África, tudo, tudo, no país do medo, todo o mal coberto por um manto de desamor e hipocrisia.

Por: Alexandre Vaz

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