Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2006

SECÇÃO: Opinião

LEITURA RESUMIDA

Ao acabar de ler “Cavez da Terra de Basto”, fiquei com uma sensação agradável, pois trata-se de um bom livro, ou não seja a história da nossa terra.
Pena foi não ter ficado nele inserido o desastre de Arosa, aquela terrível noite de 27 de Dezembro de 1981, em que morreram 15 pessoas, só comparável ao mês de Outubro de 1918, quando da Pneumómica, em que morreram 42 pessoas, das quais 7 no dia 31 e 89 durante o ano.
Ao longo do livro, foram repetidas muitas vezes os números da estrada nacional, as necessárias, claro. Mas ela teve mais um.
Vejamos então.
Acabada de construir nos anos oitenta do século XIX, obra do Fontismo, pois Fontes Pereira de Melo foi o homem dos caminhos de ferros e das estradas. A que atravessa Cavez, primeiro chamou-se estrada real nº 32, com a implantação da República passou a ser a estrada nacional 10 – 2ª classe. Diga-se de passagem que a estrada nº 10- 1ª classe era do Porto a Lisboa, pelas Caldas da Rainha. A partir de 1945, passou a ser a estrada nacional nº 206.
No dia 2 de Janeiro de 1724, o Dr. Francisco Xavier da Serra Crasbeeck visitou a Igreja de Cavez e não encontrou campas nem letreiros com elas, nem nada que lhe merecesse notícia, quando procurava o património existente na sua Corregedoria, a de Guimarães.
No concelho de Cabeceiras de Basto só encontrou duas igrejas com campas, a de Santo André de Riodouro, com 13 campas e os nomes das pessoas lá enterradas, e a de São Martinho do Arco de Baúlhe, com 12 campas e os respectivos nomes.
Voltando à Igreja de Cavez, e pelo que atrás fica dito, a Igreja nessa altura ainda era de estilo românico e possivelmente ladrilhada. A sua remodelação só se deu por meados do século XVIII e é quando fizeram as campas que estão por baixo do soalho a céu aberto.
Repetimos, desde meados do século XVIII até fins de Setembro de 1885, vão mais ou menos 140 anos. Foi o período em que se enterrou dentro da Igreja, antes era no adro. Como ficamos também a saber que a Junta de Freguesia tinha todo o interesse em que os muros do Cemitério ficassem prontos até ao fim de Setembro do citado ano de 1885, sinal evidente de que as campas na Igreja estavam cheias de cadáveres, com o Cemitério a fazer falta. Pronto este, soalharam a Igreja e o soalho durou 70 anos, sendo soalhado de novo em Outubro de 1955.
Eu fui um dos artistas que lá trabalharam.
O trabalho foi entregue a dois mestres: ao Sr. Azuil do Ribeiro do Arco e ao Sr. Manuel Boticas. Com o Sr. Azuil trabalhava eu e o Zé do Gonçalo, da Carrapata; com o Sr. Manuel Boticas, o seu filho Francisco, o António Chaves, de Arosa e o Sr. Guilhermino do Carril. Ainda somos três vivos, com o António do Chaves e o Francisco Boticas.
Logo no princípio do mês de Outubro de 1955, os carpinteiros começaram a trabalhar na Igreja. Eu andei por fora dois ou três dias, sendo portanto o último a chegar à obra, e fico espantado com o que vi.
O soalho velho arrancado, eram só campas destampadas, e destampadas ficaram.
Em vez de pegar a trabalhar, arranjei um pau e toquei-as a todas até ao fundo, até que, em frente do altar do Sagrado Coração de Jesus, o pau bateu em coisa dura. Era um caixão de chumbo.
Escusado será dizer que os carpinteiros pararam o trabalho para admirar o achado. O Sr. Azuil, que era o meu mestre, disse que só se tirava para fora quando o Sr. Abade viesse. E não é preciso fazer contas, era o Sr. Padre Barroso que, quando viu, ficou todo contente e mandou chamar o Sr. Alves Pereira, que era o Presidente da Junta.
Já com toda a gente junta, abriu-se o sarcófago e, para admiração de todos, estava intacto um pedacito de trança de cabelo com 10 centímetros de comprido, a demonstrar que aquele caixão era de uma mulher.
O Sr. Alves Pereira disse que devia ser senhora da Casa do Souto, porque era naquele sítio que essa casa enterrava.
A aceitar o que o Presidente da Junta disse, é de crer que o cabelo era de uma das três últimas senhoras falecidas nessa casa: Maria da Conceição Teixeira de Carvalho Magro, falecida a 19 de Março de 1881; Maria da Purificação Pinto Coelho e Castro, falecida em 22 de Setembro de 1882; ou Maria dos Prazeres Pinto Coelho de Carvalho e Castro, falecida a 1 de Fevereiro de 1884.
Como já se disse, foi também no dia 2 de Janeiro de 1724 que o Corregedor de Guimarães visitou a Ponte de Cavez e achou num calhau nativo, à entrada da pequena ponte do rio do mesmo nome, esta inscrição, que apurou em 17 de Junho do mesmo ano e diz o seguinte: “Deste letreiro (figura à esquerda) se colhe que na era de 1255, que são 1217 na era de Cristo, fez aquela pequena ponte Mendo Ordonio, presbítero, e depois deu princípio à grande ponte sobre o Tâmega o Beato Frei Lourenço Mendes, para cuja a ajuda Ermigio Esteves deixou dez morabitinos em seu testamento, feito na era de 1298, ano de Cristo 1260, o que encomendou a seu irmão que fez o testamento, chamado Martim Esteves que é o mesmo Martim Marra que fez ou assistiu à obra da dita ponte, que não tem ameias, como a de Amarante e Canaveses. É muito mais larga e espaçosa e no meio dela estava um grande marco com o seu letreiro (figura à direita), que no ano de 1599 se pôs, quando se tombaram as terras deste concelho”.
É de admitir que pelos princípios do século XVIII ainda a Ponte das Tábuas era de madeira, porque senão também o Dr. Francisco da Serra Crasbeeck nos falava nela, e não falou, pois é certo e sabido que os senhores da Casa da Ponte não deixariam de orientar tão ilustre visitante até esse local.

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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