Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2006

SECÇÃO: Crónica

A Minha Terra - XXII

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O aquém é tão importante como o além: constitui provavelmente a sua chave. Desde os meus anos de iniciação no Colégio de S. Miguel de Refojos com uma miséria de professores e pouco mais que um velho casarão conventual, uma disciplina de Catão, o aparte bafiento e total de rapazes e de raparigas, nunca deixou de haver hieróglifos traçados no meu caminho ou um murmúrio confuso nos meus ouvidos, embora uma alegria tonificante que sabia fazer brotar do cinzento da vida, exercendo uma influência benéfica no meu carácter.
Sonhava contigo e via-te a valsar de branco a valsa vienense de Johann Strauss, elegantemente embebida num vestido branco, que bebia na luz ofuscante, a garça do teu pescoço alto e fino e depois acordava e eu era um estranho para ti.
Sonhei-te e trouxe-te no coração meses e tu nunca soubeste, nunca te apercebeste desse amor; e, no entanto, eu sabia que me amavas. Desencontros, vidas alheias, ambos distraídos de que a verdadeira vida estava em nós dois. Separados por dois mundos, separados por milhões de anos, que angústia. Nas ladeiras da vida subimos lado a lado, mas nunca nos juntámos, tão perto os nossos corações, e tão longe, duma lonjura oceânica.
Depois seguiste o teu caminho, eu o meu, resgatámos a existência sozinhos, isolados, e Deus ou a vida não nos entendeu. Deixámo-nos abater, derrotar, a caminho da terra da promissão.
Admirávamos os mesmos campos, os mesmos montes, as mesmas flores, os mesmos livros, as mesmas melodias, os mesmos cânticos das aves, o mesmo céu, as mesmas viagens, o mesmo rio, os mesmos poemas, gostávamos de ouvir as horas do relógio da matriz, rezávamos as mesmas orações, que nos faltava para sermos felizes?
Quando já pelos prados o orvalho aspergira as inúmeras pétalas das primeiras flores e corriam lágrimas ao longo da já longa idade de homens onde o rio da alegria já secara há muito, quando entre a noite e nós se estabelecia um parentesco cúmplice, quando todos os lugares eram extremamente ermos, tu na tua casa e eu na minha, sentíamos o mesmo fragor das coisas, o nosso amor distante alongava-se por entre os arvoredos e escoava-se em nós dois.
Almas gémeas, porque nunca nos confundimos, e nos separámos?
Eras uma mulher, mais mar do que mulher.
Para tudo isto que se foi só mesmo o requiem de Mozart…
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- Se sou virgem ou não vai-se ver na examina. Mas ela também tem de ir, para tirarmos as dúvidas com documentos científicos.
Já não estávamos bem nesse tempo, fora outrora costume, sim.
Até se publicavam os atestados nas folhas locais. ..
Os três médicos consultados disseram-lhes simpaticamente que não gostavam de se prestar a esse serviço e a esse papelão.
As mães ficaram fulas.
A fama, a honra das respectivas filhas, agora, depois destas andanças, é que entraram nas bocas do mundo e nas ruas das amarguras. Tempos!
Ora toma lá. Desavenças dessas deram no que deram. Depois de muitas discussões, e afrontas mútuas de permeio, até ao ponto de se esguedelharem os cabelos, ficaram umas rodilhas.
E nenhuma casou.
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Saíam dos moinhos atrás de duas jumentas rabonas, ajoujados, os dois filhos mais velhos andarilhavam caminhos e caminhos; era seu tráfego por cinco aldeias em redor, e a sua sombra lenta, paciente, parecia, à força da vista, fundir-se na extática imobilidade da terra. Largavam pela alba e recolhiam com as estrelas.
Sobre a encosta toda relúcida de vinha, milharal e seara, erguia-se o nobre solar. A deslado, branquejava uma capelinha, caiada de fresco e na sineira a sineta, que bem podia ser de prata.
- Que deseja?
- Meu senhor, eu sou o moleiro das Pondres. Como sabe vai uma seca medonha e os meus moinhos pararam de todo. Só rodados à mão. Vossoria tem ouvido alumiar, os moinhos, onde dizem que se afogou um frade. Tenho dez filhos, meu senhor, uns criados, outros que ainda gatinham, e está outra vez a peça carregada.
- Se fosse a atender a tanta pobreza, não fazia outra coisa. – Amigo, os aleijados são mais bastos que as moscas; você tem bom corpo para trabalhar no duro, trabalho é a sina dos pobres.
- Vim pedir um serviço a casa de cristãos, saem-me judeus.
E foi-se, desenganado daquele solar de alta fidalguia, mais além. Obra de uma milha andada, fosse fraqueira, fosse febre, veio-lhe tal cansaço que ao abrigo do primeiro bosque atirou consigo ao chão e adormeceu.
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Os sinos tocaram a rebate. Primeiro os de Refojos, cavos, plangentes, e as badaladas, que se foram amiudando, cada vez mais ligeiras e nervosas, deram senha a outros campanários pelos proviléus. Respondeu-lhe, logo após, a sineta de Santo Amaro, de Chacim, a dois passos dali. A sua toada argêntea, sobre o falsete, lembrava o berrar duma cabra que estão a esfolar viva. Em seguida tangeu a de Rio Douro no meio das casas e, subitamente, em Outeiro, Fojos, Ervedeiro Alvite, Painzela, N.S. dos Remédios, as torres romperam em desabalado despique.
Tinham chegado as tropas francesas do Napoleão a Cabeceiras de Basto. Todo o povo fugiu a sete pés para riba das serras, espalhou-se e escondeu-se nas fragas, nos buracões e nos fojos. De pouco adiantou. A fome e a sede cercou o povo e o povo foi descendo lentamente aos valados.
Foi uma romaria de maldade, um tufão de ladroagem, um saque, mas passou. Apesar da desgraceira toda podia ter sido pior. Os franceses estavam apenas em trânsito, vindos de Trás-os-Montes, rumo a Guimarães e Braga. Uf!
Ficou por gerações na memória viva dos bisavós. Não sei o que aconteceu aos meus tetravós, e aos tetravós dos meus amigos, acantonados, a sete chaves, nas sagradas capelas dos espinhaços - Orada, Livração, Livramento, Celeirô do Monte, Santo António… E dói-me não saber, embora não fosse descobrir grande achado.
Um guerrilheiro, dos bastantes, que desejavam afrontar os franceses, armar-lhes ciladas, entretanto anunciava em fogosa torneira de palavras, talvez exageradas:
- Já chegaram a Abadim. Levam tudo a ferro e fogo. Os grandes excomungados passam e trespassam, e os lugarejos ficam a arder como archotes.
Uma velha beata papa-hóstias, na Capela da Livração, suplicava em tom melodramático:
- Paizinho do Céu, salvai-nos dos franceses! Pelas vossas cinco chagas, pelos nove meses que andastes no sagrado ventre de Maria, pelo leite bendito que mamastes, Jesus Salvador, conjurai o flagelo de nossas portas e cerros!
E em meio do arreganho contra Junot, ladainhavam.
- Senhor, tende piedade de nós!
- Senhor, tende piedade de nós! – responderam em altissonante coro centenas de vozes atridas.
O Senhor não teve piedade. Devia andar zangado com este povo pecador.
E iam, no turbilhão, desabafando, contra o Junot:
“Ó compadre, conheces o Jinó?
Fácil é de tirar pelo sinal:
É um francês general,
Ladrão, usurário
Maligno adversário
Da Santíssima Cruz”

- Os franceses, se calhar, meteram-se dentro das casas e dormem à perna estendida. Dizem que violam as raparigas e as mulheres casadas, ainda novinhas, metem balas nos tonéis para espichá-los e carrejam os nossos ouros, os nossos tesouros.
Era Dezembro, perto do Natal, concerteza esse foi um Natal de fome estrema.
Veio uma neve esfarolada, densa, e os napoleónicos, gastada a caruma e a lenha sobrante, a tiritarem de frio gelado; e, depois de forte toque a reunir, no Alto de Vinha de Mouros, alancaram pela serra do Carvalho, a tomar conta do Paço do Arcebispo de Braga, que era quem tudo lo mandava, dos conventos e dos sítios estratégicos. Foi um ver-se-te-avias. A cidade, devota e beata, ficou em silêncio mortuário. Mas o Junot queria era arribar ao Porto, cidade das cidades - chave da Invasão.
Chegaram a Lisboa como uma horda de andrajossos e depois deu-se a abençoada retirada.
A rainha D. Maria I, louca, teve de embarcar à força para o Brasil. O general francês Loison, que o nosso povo alcunhava de “maneta” amandou-se, antes cercado em Mesão Fio, depois de ter praticado violências bárbaras, debandou sobre Almeida. O duque de Wellingotn desembarcou no estuário do Mondego e, com ingleses e portugueses, derrotou Delaborde, na Roliça, em 17 de Julho de 1808, e Junot no Vimeiro, três dias depois foi obrigado a assinar a chamada convenção de Sintra, que, aliás, se chancelou em Lisboa, em 31 de Agosto de 1808.
Entre as preciosidades portuguesas que levaram contava-se a Bíblia dos Jerónimos. Embarcaram no Cais do Sodré em 15 de Setembro de 1808.
Em Portugal instalou-se a regência, da qual fazia parte o Bispo do Porto, claro.
Tinha acabado o martírio e o pesadelo da 1ª Invasão Francesa, até ver.

Por: Alexandre Vaz

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