Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2006

SECÇÃO: Crónica

A MINHA TERRA - XXI

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A estalagem da Joaninha, em Guimarães, que pensionara em hospedagem permanente o pobre do filho mentecapto do Conde de Basto, da Casa da Breia, estava cheia como um ovo, requisitada pelo capitão-mor de Cabeceiras para a sua gente, e tão-pouco havia na estrebaria manjedoura para as bestas, e Dom Inácio e Dona Justa, da Casa da Taipa, vinham em peregrinação aflitiva a S. Torcato, milagreiro famoso até mais não. Meteram a caleça para o Rafael, almocreve de muita nomeada, que trastejava por Cabeceiras, e lhes resolveu o transtorno como pôde e foram gasalhados do estômago e descansados do corpinho, numa cama com pouquíssimos percevejos, valha Deus, que percevejos aos molhos, áquele tempo, conviviam paredes-meias com o bicho-homem. É certo e sabido que os perçubelhos, e demais espécimes congéneres, eram tão infalíveis e decorativos já no tempo de D. Tareja, mãe pútrida de D. Afonso Henriques. D. Nuno Álvares Pereira e D. Leonor de Alvim quando chegaram ao solar dos Barrosos, em Pedraça, vindos em amorosíssimas núpcias, de Vila Nova de Rainha, no Alentejo, onde então estanciava a Corte, coçaram-se toda a noite pois, além da percevejaria, eram muitos os mosquitos pernelongos que assobiavam e mordiam diabolicamente; e na, noite seguinte, como fazia verão, dormiram enrolados num lençol, na eira, até passarem uma barrela gigantesca à Casa.
Frei Pantaleão de Aveiro, na sua obra “Itinerário”, escreve:
“E se vos há-de tomar a noite nas estalagens, pela manhã vos achais comidos das chinches, e cobertos de pulgas e piolhos”.
D. Nuno, aliás, pouco se gozara da ricalhaça, porque enviuvou da mesma aos vinte e seis anos de idade, embora tivesse do matrimónio a filha Beatriz Pereira, em Pedraça, a qual casou com D. Afonso, filho ilegítimo de D. João I, o da Boa Memória, que obteve, pudera, o título de Conde de Barcelos e mais o ducado de Bragança, naqueles tempos era tudo um regabofe. D. Nuno ficou-se muitíssimo aquém de seu pai que se amandou, à conta, com 14 filhos, sendo rebento bastardo do Prior do Hospital, Álvaro do Carvalhal, e de Iria Gonçalves, de quem houve nove crianças ilegítimas, e neto, ele o Beato e o Condestável, dum Arcebispo de Braga, que grande borga era aquela.
Os fidalgos da Casa da Taipa, em Outeiro, chegaram ao outro dia ao S. Torcatle e beijaram as mãos descarnadas do velho santo.
A senhora da Taipa era uma mulher bem feita, enxutinha de carnes, mas sem as saliências dos ossos à vista, um anel seria a síntese da sua cinta, para o equilíbrio justo e harmonioso da qual tudo se conjugava, desde os braços aos músculos do peróneo. Levava um diadema de pérolas feitiças, tão bem acabadas, que iam de par com duas pérolas naturais, que lhe ornavam as orelhas.
Dona Justa quando baixou o peito, os seus olhos de âmbar brilharam-lhe de esperança, enquanto o marido lhe acariciava a face. A senhora da Taipa, salvo raras excepções, era a cortesia personificada. Era a pura exalação de uma cútis acetinada, esse hálito de saúde que perspirava através da fina e macia tez, como através das pétalas de uma rosa.
Veio o casal taipanense ao S. Torcato no desejo de ter o tal herdeiro, negado pela Senhora da Livração.
O fidalgo entrou encartuchado na goleira de peles, a manhã estava fria. Pigarreando em seco, conforme o seu jeito, informou-se: onde fica a vasilha do corpo do São Torcato?
Não viera ao arraial a muito requisitada filarmónica de Leomil, mas rogaram a de Salzedas, onde um clarinete famoso lançava sobre o poviléu entusiasmado as pérolas a porcos de suas colcheias vibrantíssimas.
O S.Torcato tem uma história hagiológica curiosíssima, mas nunca se descobriu a sua identidade. Um documento de 1059 já cita o “monastério sancti torquati”. Em 1637 procedeu-se à abertura dum túmulo atribuído a este santo e encontrou-se nele um corpo incorrupto, vestido de alva de linho e por cima uma samarra cor de telha, tendo ao lado esquerdo um pau ou cajado tosco. Alva e cajado foram interpretadas como vestes prelatícias e báculo (de bispo). Em 1805, sendo arcebispo de Braga D. Frei Caetano Brandão, realizou-se novo exame ao túmulo. O corpo foi então paramentado de pontificial vermelho e celebrou-se a solenidade da sua elevação, cujo aniversário se festeja todos os anos no primeiro domingo de Julho. Em 1852 fez-se com grande pompa e esplendor a trasladação do mesmo corpo para o novo templo, onde hoje se encontra. São Torcato é muito acreditado numa larga região e todos os anos desabam ali fortunas de promessas, o que tem sido uma boa fonte de receita para a Irmandade e para a Igreja.
Nas nossas aldeias não diziam S. Torcato, mas Torcatle. A ignorância linguística e religiosa era muito grande e o S. Torcato deve estar a borrifar-se para as festanças que ali se fizeram, e ainda fazem, embora para grande gaúdio dos fastos da Igreja e arrecadação de dinheirama.
Foi, no passado, um dos maiores santos milagreiros de toda a Cristandade, apesar dos grandes progressos da Ciência e da Medicina o terem desfalcado um bocado. Quando o povo for culto e civilizado, o S. Torcato vai-se ver aliviado e confortado.
O casal da Taipa entrou, enfim, na Pensão da Joaninha.
Na alcova, Cupido agitou as asas de mármore e soprou as labaredas petrificadas do facho. D. Justa abriu as suas pétalas cor-de-rosa ao calor dos beijos do esposo, como a flor que desabrocha ao fecundo sopro das brisas. Ela, depois, encarou-o trémula e, ambos mudos, olhando-se, ficaram um momento extasiados.
Quando os fidalgos chegaram à Taipa medronheiros, urgueiras, estevais, os piornos, as urzes brancas, os carvalhos, toda a fortíssima e pujante flora selvagem, estoirava, consumindo-se nas colinas grandiosas. Um pé de roseira, sobre o qual batia as asas, abria o bico, pipiava um passarinho, e a senhora da Taipa achou-lhe graça.
A entrada para a Casa da Taipa compunha-se duma empena cónica com um longo tanque à frente e a água cantarolava dia e noite, no verão ao desafio com os grilos e os ralos. Além, acolá, medas elevadíssimas de palha de milho, pela forma da sua colocação e cor pardacenta pareciam, é um modo de dizer, pirâmides do Egipto. Os ciprestes, sentinelas melancólicas da solidão, levantavam a folhagem piramidal acima dos mirtos. O galo, enorme, todo colorido, que lhe morava em frente da janela, acabou de bater as asas e cantou pela terceira vez.
Uma rapariga, de voz fresca, lançou nos ares a sua cantiga de oiro:

Manjericão rajadinho,
rajadinho pelo pé,
o meu coração é teu,
O teu não sei de quem é.

Em outros passados ia-se buscar água às nascentes, não em pipas, ou mesmo em barris, mas em bilhas de folha, à cabeça de raparigas e também de rapazes, pois era.
O senhor da Taipa, enricado e poderoso, não arrotava fidalguias, não olhava de cima da burra, com desprezo para os trabalhadores.
Enfim, D. Justa no seu doce lar, à espera do empenho de S. Torcatle.
A criada de dentro, com ar alegre, começou a servir os patrões, que vinham cansados da rude caminhada, à mesa oblonga, e entremetia-se na conversa quando achava ocasião de dizer alguma gracinha das suas.
As mãos nodosas do fidalgo tamborilavam na velha cadeira de pinho, enquanto esperavam a sobremesa. Usava-se, então, muito a pinhoada, um doce composto de mel e pinhões inteiros e deliciaram-se com ela.
Cerrava-se completamente a noite, viam-se já os pirilampos da quinta palpitando na sombra; e, na serra, o clima místico e pétreo era denso.
Entretanto pelos caminhos, pelos campos e pelas cercas calou-se tudo, apenas se ouviam os pios chorosos das aves nocturnas.

Por: Alexandre Vaz

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