Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Domingos Ramos Antunes

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“Bem cedo defini como objectivo ser empresário”

Fomos ao encontro de um nosso conterrâneo que, segundo nos confessou, bem cedo definiu um objectivo de vida: ser empresário. Era então um jovem cheio de vida que dividia o seu tempo entre as tarefas agrícolas nas terras da família, e, nas horas livres, a farra com os amigos – contou-nos que quem não achava muita piada a este gosto pela borga era o pai.

Num tempo em que tanto se fala de investimento, de economia, de finanças, de desemprego, de encerramento e deslocalização de empresas, o que necessitamos é de iniciativa que possa criar riqueza na nossa terra.
O exemplo de perseverança e empreendorismo de um homem que não pôde ir mais além que a quarta classe, mas que nem por isso deixou de ter um sonho – um dia serei empresário – é o que hoje trazemos ao nosso leitor. Através da leitura desta entrevista ficamos certamente a conhecer melhor a nossa gente.

E. B. – Para quem não conhece o senhor Domingos Antunes podemos começar por revelar quem é o nosso entrevistado de hoje?
D. A. – Nasci há 46 anos em Gondiães. Tenho quatro filhos. Sou da Casa dos Antunes e por lá vivi até aos meus 19 anos. Frequentei a escola primária da aldeia até à quarta classe. Com o surto de emigração dos anos sessenta para a Europa, especialmente para França, e mais tarde com o 25 de Abril, os caseiros foram-se todos embora e meu pai teve que tomar conta das terras. Como o trabalho era muito – meu pai era um dos maiores agricultores da aldeia – foi necessário o meu contributo e o dos meus irmãos na actividade agrícola.
E. B. – E a agricultura não o seduziu?
D. A. – Não. Não percebia nada daquilo. Não gostava. Mas, apesar disso, quando tocava a trabalhar eu lá estava. Que remédio!
E. B. – Presumo então que sonhasse sair de Gondiães?
D. A. – É verdade. Depressa percebi que o meu futuro passava por sair dali.
E. B. – E a oportunidade surgiu…
D. A. – Sim, surgiu com a tropa. Enquanto outros jovens se queriam ver livres dela, eu queria ir para a tropa. Era a melhor oportunidade de abandonar o trabalho agrícola. Fui então voluntário para os pára-quedistas. Só que não gostei nada e ao fim de três dias pedi para sair.
E. B. – Não gostava daqueles saltos?
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D. A. – Não! Não era aquela a tropa que eu tinha imaginado. Fui depois para Tomar e aí sim, gostei. Fui quarteleiro. Era o responsável pela arrecadação. Estive lá 14 meses mas, muitas vezes, eram quinze dias lá e quinze dias cá.
E. B. – Mas esse tempo passou depressa…
D. A. – Verdade. Mas, um dia quando vinha de Tomar – e eu vinha sempre à boleia – foram uns espanhóis que me apanharam na berma da estrada. Mantivemos uma conversa tão agradável que me levaram a casa. Até ficaram em casa dos meus pais. Eles procuravam portugueses para irem trabalhar para Espanha. E nessa altura levaram duas pessoas de Gondiães. Continuei em Tomar mas aqueles amigos sempre me foram dizendo que queriam que eu fosse para Espanha quando acabasse a tropa.
E. B. – E foi?
D. A. – Sim. Quando acabei a tropa fui para Espanha. Só que aquilo não valia nada.
E: B. – Porquê?
D. A. – Fui trabalhar para um talho. Quando lá cheguei fui recebido praticamente como um convidado. Todos gostavam de mim. Eram pessoas muito boas. Só que depressa gastei o dinheiro que levei e o que ia ganhar que entretanto me adiantaram. Afinal, pensei, se lá não era muito bom, aqui não é melhor. Ao fim de 27 dias vieram-me trazer de volta a casa.
E. B. – E depois…
D. A. – Os meus amigos espanhóis ainda me contactaram várias vezes. Queriam que voltasse. Prometeram-me até a carta de condução de camiões que me permitiria ganhar mais dinheiro. Mas eu fui logo para França.
E. B. – E aí a experiência foi diferente?
D. A. – Fui para Lyon. A minha namorada já estava lá e de certa forma isso ajudou à minha permanência. Durante vários anos não consegui os documentos de legalização. Fui um emigrante clandestino. Como não tinha uma profissão certa agarrei-me ao trabalho que aparecia. Trabalhei nas vindimas, fui pintor, entre outras. Ganhava agora muito bem. Felizmente todos gostavam do meu trabalho. Por onde passei arranjei sempre amigos. Todas as portas ficaram abertas quando me fui embora. Depois casei, consegui os documentos e a minha vida deu então uma volta.
E. B. – Depois de uma experiência menos boa em Pontevedra, depois da clandestinidade, o sonho começou a tornar-se realidade?
D. A. – Pois foi. Logo a seguir ao meu casamento instalei-me por conta própria. A minha empresa dedicava-se à instalação de tectos falsos e divisórias. Durante mais ou menos dois anos trabalhei praticamente sozinho, depois fui metendo pessoal e a certa altura fiquei com a gestão e a parte comercial da empresa.
E. B. – Entretanto houve mais empresas…
D. A. – Fui empresário em nome individual, tive sociedades por quotas…
E. B. – E quantos anos esteve em França?
D. A. – 19 anos. Mas ao longo desse tempo fui investindo também em Portugal. Comprei lojas e apartamentos em Lisboa. Comprei propriedades em Cabeceiras de Basto. Vinha a Portugal uma dúzia de vezes por ano. Mas, a dada altura por razões pessoais e familiares e, com tantos negócios lá e cá, percebi que tinha que tomar uma opção. Ou ficava lá ou vinha para cá. E decidi-me por Portugal. Vendi o que tinha lá e vim.
E. B. – E veio estabelecer-se em Cabeceiras…
D. A. – Quando vim há quatro anos já tinha criado esta empresa, a Ramos & Ferreira, uma Estação de Lavagem de automóveis. Depois investi no imobiliário constituindo uma empresa com outro sócio que tinha como objecto social a aquisição, construção e venda de imóveis. Entretanto criei uma outra imobiliária, unipessoal, com sede aqui em Basto. Neste momento sou proprietário de duas empresas e sócio de outras duas.
E. B. – Sente-se um homem com sorte?
D. A. – A sorte também se procura. Na vida é essencial termos um objectivo. Quando estava no serviço militar tinha uma ideia. Já que não tinha formação académica seria empresário. E ao longo da vida quase tudo o que tenho planeado tenho conseguido realizar. Sinto-me por isso bem. Sou daqueles que acredito no meu país. A minha experiência de vida no estrangeiro faz-me a sentir-me bem português. Não faço parte daquele grupo de portugueses que estão sempre revoltados com o seu próprio país.
E. B. – Como vê o desenvolvimento de Cabeceiras de Basto?
D. A. – Só nos últimos anos Cabeceiras de Basto deu um salto. Atrasamo-nos muito, mas agora nota-se um desenvolvimento muito significativo e com a chegada da auto-estrada as coisas vão melhorar ainda mais. A auto-estrada e a ligação do nó à vila de Cabeceiras serão uma mais valia para a nossa terra. Com os novos acessos estou convencido que Cabeceiras vai ser procurada por outras pessoas. Penso que agora o que está a faltar é uma indústria mais forte e diversificada, para aumentar o poder de compra.
E. B. – Senhor Domingos, e o futuro?
D. A. – A curto prazo tenho dois projectos bons para a vila. Se se concretizarem vão criar postos de trabalho, vão criar riqueza.
E. B. – Em que áreas?
D. A. – A seu tempo…


Por: Luis Filipe Silva

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