Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2006

SECÇÃO: Crónica

A Minha Terra - XX

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No tempo dos reis e das senhoras rainhas quando algum vulgar cidadão, com muita pouca cidadania, aliás, dizia a um alfacinha que ia viajar para o Minho ou Trás-os-Montes, ouvia, invariavelmente a mesma resposta, em remoque:
- Ó amigo, tenha cuidado, porque depois de atravessar o Porto já há lobos.
Era uma época barroca, em que Deus e Rei não funcionavam, altura em que os calígrafos pacientes punham esmero em arredondar a pança garrafal das letras e lhes projectavam as hastes para o zénite, em suma uma caligrafia ora direita como lanças, ora cheia e empolada como cabaços, copiadores de coisas e loisas, numa escritura igual, toda a ressumar uma filosofia de algibeira, muito indolente e de traços farfalhudos como as caneiras de milho da frumentosa terra minhota. Os antigos, os pouquíssimos alfabetizados, tinham fôlego de baleia e ignoravam o valor monetário do tempo, bem como o valor higiénico da vírgula e do ponto e vírgula, à Saramago, não nos escandalizemos.
Naquelas eras ruins, aqui, nos montes, a vida era aziaga, e escutava-se a miúdo, o desabafo:
- Meu senhor, vamos ganhar o caminho e fugir, ligeiros como um tira-olhos.
Lebres caçadas nas ratoeiras, as armadilhas às raposas, raposões, porcos monteses, lobinhos agarrados à traição nos covis, ainda à mama das mães lobas, que depois ficavam amansados nos casais, eram o pão-nosso de cada dia. Em corridinhas ligeiras, para aqui para acolá, olho atento, cabeça leviana voltada aos quatro ventos, avançavam as perdizes, gordas e roliças de tão bem comidas que andavam nesse tempo. E tudo tinha ninho - pombas que voavam e perdiza sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras…
Um caçador abastado, dos antigos, pernudo, confundido com um matiço alto e grosso, lobrigou um serrano, de manta às costas, e puxou-o ao taramelo: - Bom dia, amigo. Por aqui há lobos? - Há, e às alcateias. – Você donde é? - Sou de Fojos, da Senhora da Livração, uma imagem gótica, dizem os entendidos, com a sua capinha azul, vestidinho escarlate, na sua capelinha minúscula, mas bem caiadinha. – Sim, e o resto? - Sou caseiro dum lavrador, basto de tantas terras e lavranças onde não se chega a pôr o sol.
Um corvo crocitou por cima da serra de Penouta e as rolas calaram-se nas corutas dos pinheiros.
Por aqueles lugarejos lúgubres havia muita lazeira, tacanhez e imundície, ao mesmo passo que se jurava pela hóstia consagrada a torto e a direito, mais a torto do que a direito, e muitos coitados a pedinchar trabalho com que aliviar o estômago (eles diziam estâmego), pois ainda por cima a filharada era como os bacorinhos a chupar em porca alentada.
No dia da festa de Nossa Senhora da Livração, de manhã ao sol-pôr, era ali uma alfândega de gente, mulheres a escoucear os joelhos à roda e homens a cumprir também promessas de cabras, ovelhas e até bois à Senhora por os ter livrado de grandes aflições e apertos, que moedinhas tilintadas eram escassas àqueles tempos magros a apoucados.
Os abades, muito sapenciais e circunspectos, os mordomos de arregalar o olho, com farta criadagem levavam aquele tornadoiro de oferendas para as feiras das Pereiras e Olela e fazaim o que queriam ao oiro adquirido, mandando as sobras para o Arcerbispo Primaz de Braga e das Espanhas, que vivia num Paço de luxo, rodeado de prebendas e mimos, com físico-cirurgião privativo, não fosse o ilustre homem da Igreja acometido de algum colapso fatal ou necessitar de uma sangria urgente. Para certa classe de gente, a consciência é uma gaveta fechada de que se perdeu a chave.
Em 1788 chegou o Visitador de Braga, Bento de Almeida, Mestre Deão da Sé, para realizar aquilo a que na altura distante se chamava “Visitação”.
O Visitador esteve uns dias em Fojos, a encher a búzera e a bocejar, com o fartum da carne de porco, incluindo a saborosíssima orelheira e o salpicão e mastigou muitas couves e broa centeia que lhe rascanhava a língua apurada, e já enjoado espreguiçava-se de mau humor, e também com as narinas prenhes do cheiro das caganatas das cabras.
Os senhores bispos de outrora, bem instalados, escusavam-se a estes serviços corriqueiros, evitavam os sacolões das viagens incómodas por estes fora-de-mundo que não possuíam caminhos de jeito e os quelhos e carreiros da montanha eram quase intransitáveis. Só o pobre Arcebispo Frei Bartolomeu dos Mártires, com a sua comitiva, é que se aventurou a ir ao planalto de Barroso. Pouco lhe adiantou. Em Barroso, esse bocado de Portugal longínquo e fartamente esquecido, não havia religião nenhuma e os padres estavam coalhados de mancebas e filhos e as bastardias nos casais eram aos montes – aquilo a que pitorescamente acoimavam “de filhos de mouta”.
Nessa Visitação a Fojos, o cónego Bento de Almeida, encontrou muitas vozes de queixas, testemunhadas, de desvios e ladroagem à Senhora da Livração, coisa que não se devia fazer de modo algum à Mãe de Deus. Ouviu, ouviu e inquiriu e achou muitas tranquibérnias. Uma moça atilada, cabelos de oiro ao vento, pulos e gorgeios através dos quintalejos, é que lhe deu um bom conselho de arvéola fina.
- O sinhor cónigo mande mas é trancar a Capela. É uma mina de oiro, mas não fica nenhum para a santinha.
- A rapariga é atoleimada, disseram, a uma só voz, umas velhas santanárias, às cócoras.
Com a ajuda do povo nomeou uma nova mordomia, da confiança de lavradeiras e cabaneiros e composta de homens honestos, pareceu-lhe, pois nada havia até ao presente a apontar-lhes em menoscabo. Daí a tempos a roubalheira continuou e os três mordomos engordavam as suas casas e os seus cabedais e os negócios da Capela continuaram neste vaganau anos sobre anos.
Voltando atrás no tempo histórico.
Em 1725 foi demolida a velha Capela, que pouco mais era que um tosco humilladero e prantaram uma Capela nova, bonita, airosa, decente, à luz efusiva dos céus.
Os ramos densos dos carvalhidos, lá para as encostas que descem para Várzea Cova, tornavam a ser coreto das aves, rola, cuco, poupa, a que às vezes vinha ajuntar-se o melro ou o tentilhão. Cantavam e recantavam solfas sem fim, ao mesmo tempo que do espesso das ramalheiras faziam coro com elas aqueles passarinhos de todo o ano dos carvalhos cerquinhos que, à semelhança das roseiras persistentes, têm sempre um cântico a dar ao mundo - e era uma sinfonia pegada que esbatia e se esvaía no largo da Capela.
Por uma bela tarde de sol subiram à Livração, lestas, um bando de rapraigas. Leva que leva, na tepidez amena, as moçoilas deixavam voar o lenço para os ombros e saltavam ao som dos adufes. E quando se aproximaram da ermida, pelos caminhos de carro e pé-posto, que dos montes ali vinham desaguar, tortuosos e estreitos como barbantes, desciam mais grupos, todos animados de fôlego bailão, tangendo gaitas e batendo o saricoté. Por Outeiro todo galopavam, trupe que trupe, nos garranos de franjas nas cabeçadas, os pimpões das aldeias em derredor, lodão entalado debaixo da coxa, chapéu de aba ancha, soberbos que nem rajás.
Os fidalgos da Casa da Taipa meteram para o templozinho a depor aos pés da Virgem o casal de frangos brancos que uma serva trazia no açafate. A fidalga de rosto afável e ameninado, prostrou-se diante da imagem de N. S. da Livração, enquanto um bêbado saía aos reculões. E, fervidamente, lhe rogou que se dignasse ser medianeira junto a Deus para que houvesse um filho, pois que há cinco anos ansiava por alcançar.
A milagrosa Senhora da Livração, além do mais, era advogada das mulheres maninhas, mas a Senhora das Neves, na Lagoa, estava a passar-lhe a perna.
Baixara de todo a noite, mas ao clarão das estrelas e do quarto crescente lobrigavam-se, a cada passo, casais tomados de delírio amoroso.
Dobaram os dias, os meses, a japoneira da fonte da Casa da Taipa tornou-se mais bonita que um firmamento constelado, e a penugem dos pêssegos nos pessegueiros já era farta, mas o morgadinho, na qualidade de infante de maravilha, não lho trouxeram as cegonhas. A fidalga taipanense, que vinha de gente de velha cepa sueva, tinha sua pontinha de inveja da prima, mais embaixo, da Casa da Quinta, que emprenhou logo à primeira noite do tálamo conjugal e soltara com a maior facilidade mais três rebentos temporãos. O abade bem dizia à da Taipa: per angusta ad augusta, ou seja pelo doloroso se consegue percalçar. Aos fidalgos de Rio Trutas acontecera-lhes o mesmíssimo e, por via disso, meteram-se ao isolamento e os populares apenas aos domingos lhes viam o nariz à missa da Casa, mas apenas o nariz, pois que se dirigiam ao corozinho da capelinha de Nossa Senhora da Guia pelo passadiço superior que liga com o solar. A fidalga parecia triste, pequena, pálida, olhos pisados ou ainda com vestígios de lágrimas, o seu coração esmigalhado, se bem que sempre bonita; o marido, avelhentado, ar macambúzio e rebarbativo.
O honrado cirieiro da Raposeira não pôde ir mais longe na conversa efusiva com o amigo, distraído por uma freguesa que vinha medir o filho para pagar uma promessa que fizera à Senhora da Livração de lhe levar um círio da altura do cachopo, se escapasse às bexigas, com um febrão que podia cozinhar os miolos. Naquele tempo ainda não havia vacinas e por isto e por outras é que hoje Nossa Senhora da Livração, nos acasos que correm, está sozinha, às moscas.
O cirieiro voltou-se de novo para o amigo freguês:
- Vossoria quer então velas para se alumiar em casa, não é verdade? Sua Reverendíssima o senhor Arcebispo Primaz, que é homem aprumado, mas exigente, prefere dumas que eu lhe vou mostrar. Não fazem raça de fumo e nunca mais se gastam, é um modo de dizer, que o pavio está muito bem orçado…
O cirieiro da Raposeira era um aldrabão de todo o tamanho a sopesar as velas e mais produtos, quer a temperar a verdadeira cera, a cera das abelhas, que apenas essa era digna de alumiar a Deus e aos santos,com sebo de carneiro e de cabras que ele comprava por tuta-e-meia.
Um que foi cravado passou à portinhola, rabujou e ameaçou o cirieiro.
- Guarde lá o seu tesão que para mim vem de carrinho. Já vendi arrobas e arrobas de cera e só você, que não entende nada, nadinha do assunto tem o topete de me vir aborrecer. Vá à sua vida…
Os caçadores furtivos, que eram mais que as mães, vinham armar nas luras e nas covas os ferros aos coelhos, desde as ribanceiras de Várzea Cova até aos Picos de Celeirô e à luz do dia feito os rebanhos, pasta-pastando, emolduravam os montes.
Os cavalos, as éguas e os burricos agora subiam as encostas com dificuldade e desesperadora lassitude. O vale à esquerda distendia-se em amplitude, recoberto de lés a lés da lençaria amarela das maias, cada vez mais luxuriosa.
Toda a falda, coberta de flores, era um deslumbramento, uma epifania. O mais era paz, a paz espacial dos ermos, a paz imensa, inconsútil desde o princípio do mundo.
Arribado à parede da Capela, outrora imensamente votiva, pus-me a matutar e lembrei-me, a propósito do que via ao redor, a rememorar isto tudo, que é muito, do belíssimo poeta parnasiano Diogo Bernardes.
“Quantos montes tu vês, tantos corri,
De vale em vale andei, de mato em mato,
Em busca de um bezerro que perdi.”

“Junto do Lima, claro e fresco rio,
Que Letes se chamou antigamente.”

Por: Alexandre Vaz

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