Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2006

SECÇÃO: Crónica

A MINHA TERRA - XIX

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Passavam no Largo do Pelourinho e paravam, ó fouveiro escarcéu, mulheres ubérrimas, como semíramis, derramando o beijoim no seio redondo.
O Padre Justino de Pedraça vinha quase todas as semanas, a butes, às Pereiras, visitar os prisioneiros e as prisioneiras. O meu pai confiava tanto nele, sobretudo admirava o seu desprendimento e a sua bondade extrema, que lhe passava o molho das chaves para a mão; e, depois, o sacerdote aproveitava um pouco para descansar e beber água com limão na loja do Zé das Pereiras. Numa sexta-feira santa, que ele santificou a ouvir os desabafos e a enxugar as lágrimas dos presos e das raparigas e mulheres encarceradas e as queixas dos doentes da sua pequena paróquia, deparou com uns patuscos a comer uns bons rojões e advertiu-os mansamente. Eles riram-se e pagodearam.
O padre pediu um tassalho de carne. Os pândegos olharam espantados. Que queria dizer aquilo? No canto, um cão abanava as orelhas. O padre disse “busca, busca, toma, toma”, e meteu-lhe o tassalho à boca.
- Come, meu inocente cachorrinho… que tu não pecas.
Os figurões baixaram a cabeça, envergonhados. E o padre saiu, imperturbável.
Ao outro dia, acordei cedo, com o sol a entrar-me pela fresta da janela. A princípio, não me lembrei de nada, apenas antegozando a subida à Orada com o meu avô por um trilho inédito, mas difícil, que só ele conhecia, e com belos recortes de paisagem lúdica, muita luz, a luz feliz dos meus dias passados, a conspiração das inúmeras aldeias, com outeiros e arvoredo frondoso, as belas oliveiras de Petimão, no floreamento parecendo andores festivos. Corria uma lufada de ar quente e ouvia-se o murmúrio da cachoeira do Ribeiral.
A minha mãe pegou na cafeteira, encheu as chávenas, e saiu da cozinha.
O meu avô:
- E o cão onde foi? Precisamos do faro dele.
Meu avô ficou estático, o fósforo queimou-lhe os dedos, ele soltou um palavrão, e repetiu, com insistência: - O cão?!
E lá fomos montanha acima cortando as inúmeras “sortes”. O costume, velho, de partir os montes, onde as “sortes” correspondiam noutras terras portuguesas a “quinhões” ou a “formais” traduziam uma atitude metódica perante o comunitário, como nos vales as “tapadas”, que nuns anos eram agricultadas por determinadas famílias, e noutros por outras, até tocarem a todos. Lindo! Que louco não se encanta pela sua serra? Pelos seus ninhos de amor? Pelos seus regaços maternais? Pelos seus labirintos enfeitiçadores ao tresdobrar dos cumes? Um palácio de verduras e penedias! O céu azul-turquesa, nuvens baixas esparsas e enroladas como algodão, picos a desenhar contornos.
Quando arribámos ao marquinho geodésico, meu avô sorveu o ar fundamente e aliviou-se.
- Vês? Aqui pode-se sonhar alto.
A larguíssima vista ia até aos contrafortes glabros da Cabreira, vale do Tâmega, horizontes de Espanha envoltos em poalha, Terras de Monte Longo, a nossa vila, à noite, a rebalsar-se no jardim florido das luzes eléctricas tão sugestiva e lactescentemente sideradas.
Obra de meio dia com o Sol a pique e um ventinho manso a arejar, na fluidez do silêncio, o avô abriu a saqueta da merenda frugal, sentámo-nos num penedo meio raso, e muquimos lentamente o nosso bocado estomacal, enquanto os rebanhos vagueavam à sirga pelos montados, colorindo de branco e castanho o verde pintalgado das nalgas das encostas.
Os judeus que também por aqui calcorrearam, a fugir às lumieiras do Santo Ofício, talvez tenham igualmente derivado por estas aldeias ermas. Enfim, coisas e coisas do passado triste… O avô ficou pensativo por um longo momento, olhou de novo para as outras serras que o sol recobria de seu oiro líquido, os altos píncaros de luzidíssimo cristal. Depois meteu-me entre as pernas e com um alento esforçado disse:
- Queira Deus venhas a viver em melhores dias…
Neste interlúdio, agora que vou na ladeira descendente da vida, a pouco aspiro. Não a ter flores no meu túmulo, uma lápide simpática, mas a poder ficar na memória do sangue que deixo a correr nas veias dos meus netos. Sangue da minha vida, sangue da minha alma. Não vou morrer, não, meu Criador. Não vim de cascos de rolha, nasci aqui, e aqui te entregarei o meu espírito.
Toda a gente daquelas cordas serranas, desde pequeninha, trazia a Orada no coração e as larguíssimas vistas nos olhos, e deles saíam rios que foram desaguar ao grande mar do princípio quando as tardes se arredondavam na primavera.
Levarei tudo isto para a Eternidade, para me distrair de algumas monotonias do Céu.
Na face do Avô havia risos vivos que lhe escorriam da alma para a boca. Tinha o nome de nascimento no Registo Paroquial, agora habita nas planícies ilimitadas de Deus, teve um nome que andou de boca em boca, agora é Deus que para sempre o tem na voz, e eu no cantinho mais puro do meu coração.
Todos nós tivemos pai e mãe, nenhum de nós, que eu saiba, veio de salém…
Na Orada ouvia-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde, chegar à boca da noite e responder com o gralhar das perdizes aos ninheiros e eu ia colhendo a unção dos dias.
Não é possível, na liturgia das palavras, hoje vasto mercado de vulgaridades, palavras não aladas, a caírem na água morta, ocas, descrever a emoção do sonho e do encantamento. Senhor, porque nos destes a meninice e a infância que foram dar ao rio deslizante e fugidio?
Eu fui um dia um nome escrito numa pedra onde as mulheres da minha aldeia batiam a roupa que nos cobriam no tempo invernoso.
Éramos todos ali, plantados, arreigados entre folhas de Outono e frases de abandono, não éramos ilha do silêncio de Deus, mas o povo andante que ia e vinha, ao contrário do povo bíblico em permanente busca da terra prometida. Aquela minha terra, aquele chão sagrado, tinha-nos sido oferecida pelo Criador, as abelhas e os zangãos zanzando nos giestais e nela devíamos deixar embranquecer os cabelos e crestar os rostos.
Sou tal como o camponês que ao norte ia por entre o milho e sou filho das estevas e do vento, mas pelo meio das minhas coisas está Deus passeando e perdoando, sou de longe e tenho de voltar.
O há pouco falecido Eugénio de Andrade tem este verso bonito.
“Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios”.
Citando Marcel Proust, “a verdadeira viagem de descoberta não é partir para lugares diferentes, mas inventar um novo olhar”.
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora.
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai, todo eu fui calçado como o feno e esqueci-me mesmo de comer o pão-nosso de cada dia. Oh! como é triste envelhecer à porta, entretecer nas mãos um coração tardio. Mas mais triste é termos de nascer e morrer, quando há árvores viçosas no nosso quintal, que se renovam ano a ano. A primeira infância passou, mas agora ou logo, Deus renovará todas as coisas, e um dia haverá barcos e seremos livres o mesmo Deus inventará mãos que deixem soltar pássaros na rua.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos: ouve-se o mar lá ao longe; ou: há na vida ou no quintal a nosso lado crianças a brincar.
Agora nenhum gesto nesse alguém, começam ou morrem brilhos tristes, mortos de mornos males, já não há caminhos ou ruas para os vários e pequenos sofrimentos, gestos, rostos meigos ao nosso lado, a apanhar o sangue que escorre da alma. Nas ramadas onde agora a geada com as mãos esgarças do nevoeiro ia pendurando pingentes de gelo, alastrava lá nos cimos a alvura da neve. Um luar frio lapidava a neve endurecida pela geada e a noite tinha a pureza de um diamante que cristalizavam numa dor mineral do queixume incessante das carpideiras.
As mulheres das Pereiras! Vejo-as chegar como funestas aves, enroscando na casa a serpente dos seus uivos devorantes. Vieram com os xailes negros pela cabeça ao cheiro de uma morte natural de velhice, acocoradas nos degraus de pedra, prenunciam o desenlace fatal com os seus gemidos agoirentos. Era o requiem bárbaro das mulheres emantuchadas em xailes negros.
- Calem-se! Calem-se! Deixem morrer o meu avô em paz.
A morte limpa tudo!
A Cruça benzeu-se como a esconjurar uma aparição diabólica.
Fui dar com ela aspergindo em cruz os cantos da casa com uns ramos de oliveira que mergulhava em água benta, enquanto recitava surdamente o ensalmo:
- Orga…. Orga… Orga…
Três vezes Orga
Chave na boca
Nariz na porta
Demónios e espíritos
Desta casa para fora.
A Cruça sabia mais práticas quando as casas grandes estavam assombradas.
- Esconjuro os espíritos malignos que fizeram feitiçaria a esta casa e aos que estão dentro dela. Esconjuro-vos, demónios excomungados ou mais espíritos baptizados se com laços maus, feitiços, encantamentos do diabo, da inveja em ouro, prata ou chumbo, ou em árvores solitárias, seja tudo destruído e desapegado e não prenda coisa ao corpo da menina Bárbara ou desta casa pois daqui em diante se o feitiço ou encantamento está em algum ídolo celeste ou terrestre, seja tudo destruído por Deus. Eu vos ligo e torno a ligar, prendo e amarro às ondas do mar coalhado onde não canta galinha ou galo.
Da adega aberta sob o pátio saía um cheiro a balsa espremida que perfumava a noite, quando tinha ainda nos ouvidos a dissonância do chiar dos carros de bois que traziam as bagas para o lagar.
Vieram pessoas durante todo o dia tornando aos poucos conta da casa, como se fosse delas, vasculhando tudo, com aquele prestimoso descaro com que as visitas de pêsames abusavam do alheamento dos donos enlutados. E o cangalheiro, o velho e típico Ferruge, amigo do peito do meu avô, não chorou. Além de estar acostumado a estes transes ficou fixado no corpo do meu avô, e estático.
- Menino, não é todos os dias que morre um avô assim.
O meu avô paterno morreu ao fim de uma tarde comprida. O seu coração, que batalhara uma vida inteira, parou como o seu relógio de bolso, ao qual se esqueceu de dar corda. O apartamento de meu avô e o neto caprichoso que eu era dava pasto a duas crónicas de lágrimas. Fui eu, de negro retinto vestido, que levei a chavinha do caixão, atada numa fita também negra. Vejam só. Já lá vão sessenta anos e guardo-a com o carinho e conforto, como guardo a sua inconfundível figura.
Ao outro dia, mal dormido, acordei esporrado. A terra charruada tinha um tom escuro e escalvado, atirei o cacheporro ao chão e abracei-me a minha mãe bem abraçado nos seus grandes braços. Na noite seguinte, o sono veio a custo, mas os monstros ancestrais não dormiam. As géneses do dia, as paredes duma brancura alva cegavam-me como os sois tropicais, e eu andava triste, duma tristura indefinida.
Quando um dia eu também morrer hei-de ver e ouvir o que dizem de mim. Porque se disserem mal, se calhar não faço caso.

Por: Alexandre Vaz

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