Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2006

SECÇÃO: Recordar é viver

RECORDAR É VIVER

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Queridos leitores do Ecos de Basto. Já vai para um ano que não vos escrevo uma história, mais propriamente a partir do jornal de 30 de Novembro de 2005. Como já estamos em 2006 …
Espero que todos tenham passado um Natal muito tranquilo, feliz e com muita saúde, o que para mim é das coisas principais. Espero que a entrada do Ano de 2006 tenha corrido de igual modo.
Eu desejo para vós, para todo o mundo e também para mim, muita paz, menos desgraças da natureza e sobretudo menos fome.
O que desejo, sinceramente, ao começar este ano, é que se veja uma luz ao fundo do túnel, que a crise que varre Portugal e também alguns países europeus se comece a esbater, que o desemprego diminua, que a Educação e a Saúde no nosso País também se modifique para melhor. Estes são os meus sinceros anseios. A confirmar-se as estatísticas, o panorama vai ser negro e duro.
Amigos, agora que já desejamos a todos um Bom Ano e esperando ver concretizados os nossos sonhos, vou escrever algumas palavras, na continuação das minhas crónicas anteriores, sobre personagens que viveram na Raposeira e arredores. Pessoas essas que eu conheci enquanto menina até quase aos dias de hoje. Pessoas essas que me merecem o meu respeito e a minha homenagem e, porque não, também a minha saudade.
Augusto Basto na sua juventude. Comparo-o a Gregory Pecky , um grande actor de cinema em hollywood
Augusto Basto na sua juventude. Comparo-o a Gregory Pecky , um grande actor de cinema em hollywood
Tinham umas profissões que nos dias de hoje vão rareando. Podemos dizer com toda a justiça que eles eram uns verdadeiros artistas na sua arte.
Falo-vos da senhora Micas Nicolaia, julgo que era o nome que ela tinha, mãe do Florêncio sapateiro, falo do Bertinho sapateiro, irmão do senhor Luziário, do senhor Augusto Basto, alfaiate, mais conhecido por “Marrancho”.
A família não me irá levar a mal pelo apelido que não fui eu que lho pus. Eu também tenho o apelido do meu avô, que era o “Zé Colatré” e tenho orgulho nele. Devemos pensar sempre que há uma história interessante em cada apelido. Os reis também eram conhecidos pelos apelidos como o Conquistador, o Formoso, o Lavrador, o Casto, o justiceiro, o Martirizado, o Belo que, segundo julgo, era Luís XIX de França conhecido pela sua vaidade extrema, etc.
A senhora Micas Nicolaia já a conheci, tinha ela bastante idade. Era uma mulher baixinha, miúda, de rosto esguio e de expressão espevitada. Passava quase todos os dias pela rua abaixo até ao Mosteiro com o seu alguidar de tremoços debaixo do braço para vender. Eu achava muita piada às histórias que ela contava. Ainda hoje me pergunto se uma que eu lhe ouvi muitas vezes, seria verdade.
Era assim: Ela jurava a pés juntos que era irmã do Frei Bernardo Vasconcelos, que está sepultado em S. Romão do Corgo, em Celorico de Basto. Dizia ela que nasceu de uma relação de sua mãe com o pai do Frei Bernardo, quando ali esteve a servir. Dizia-se assim irmã do Frei Bernardo, por via ilegítima. Não sei se seria verdade ou apenas invenção da cabeça dela. O certo é que o dizia com tanta emoção e convencimento, que até chorava quando falava nisso. Esta história foi mil vezes repetida para quem a quisesse ouvir. Verdade ou invenção, sabe-se lá! A ser verdade, também o Frei Bernardo, a caminho dos altares da santidade, não a terá desamparado na hora da sua chegada à eternidade.
Sem querer mexer muito em histórias antigas, era comum nascerem crianças bastardas filhos do patrão ou dos chamados morgados. Mas, isso são vidas que dariam para outras histórias…
O falecido com a sua viúva D. Maria
O falecido com a sua viúva D. Maria
Quando conheci o senhor Florêncio sapateiro, filho da senhora Micas Nicolaia dos “tremoços” era ainda muito criança. Ao tempo, morava eu por cima da pequena oficina onde ele trabalhava. Essa oficina ficava numa casa junto à antiga loja do senhor Carneiro, meu falecido sogro, na Raposeira, onde por coincidência o meu marido já lá tinha nascido. Dela, nos dias de hoje, só já existem os escombros. Percorrendo o tempo, lembro-me que muitas vezes para nos entretermos, íamos para perto dele para ouvirmos a suas histórias. Infelizmente as crianças e os adolescentes de hoje já não se entretêm a ouvir as lengalengas dos mais velhos. O aparecimento da televisão, a tecnologia avançada e o progresso do final do século XX e principio do século XXI além de coisas boas também trouxe maus hábitos aos jovens como por exemplo a televisão, as máquinas de jogos, as consolas, os computadores, os DVDs, etc. Estas novas tecnologias contribuem para o sedentarismo e para todas as suas más consequências, vivendo-se num mundo isolado, apenas ligado ao mesmo pela INTERNET. Por outro lado, também estas tecnologias nos permitem estar em ligação com o mundo quase em simultâneo.
Mas, divagações à parte, o senhor Florêncio não era dado a grandes falas, pelo menos com a criançada. Contudo, quando se sentisse um bocadito mais animado, falava connosco e até nem dispensava uma cantiguinha. Se o dia não lhe tivesse corrido bem no trabalho, se os clientes lhe tivessem ficado a dever alguns tostões, ou até tivesse tido alguma chatice com a família, levávamos todos uma reprimenda , que era de espantar.
- “Ai, ai, ai, a minha vida! Que é que quereis? Eu hoje não estou para vos aturar, andorinha, andorinha, que se faz tarde!
Como já o conhecíamos, abeirávamo-nos dele, mais precavidos, sem responder. Mas ele ripostava: - “Saíde-me da frente que me estais a tirar a luz. Quem vos fez, que vos ature!”.
Nesses dias de má disposição era vê-lo carregar no martelo com força a pregar as tachas nas botas de sola de borracha tirada dos pneus velhos.
Era um bom homem. Casado com a senhora Emília, boa mulher e de muita paciência, tinha dois filhos, a Fernanda e o Bernardino, a que eu há muitos anos não ponho vista em cima.
O Bertinho também sapateiro, trabalhava nos fundos de uma casa na Ribeira que ficavam debaixo da moradia do conhecido Ricardo do táxi.
Solteiro, homem de poucas palavras, correcto, sempre com o seu cigarrito na ponta da língua. Que me lembre nunca o ouvi falar sem largar o cigarrito. Era muito habilidoso na sua arte mas, tínhamos que lhe encontrar da boa disposição para lhe pedir para consertar o calçado com mais pressa. Morreu bastante novo e que sabe se não foi talvez devido ao cigarro.
O senhor Augusto Basto, alfaiate, tinha a sua oficina mesmo ao lado, na mesma casa, junto à do Florêncio. Era casado com a senhora Maria, filha da senhora Leonor e do José “Escalheiro”, muito boa gente, que moravam na Ribeira.
O senhor Augusto foi músico da Banda Cabeceirense, sob a batuta do maestro António Mendes e tocava a "requinta", mas, sobretudo, era bom alfaiate. Era engraçado vê-lo costurar à máquina, a alinhavar, a enxuliar, a riscar com o giz branco, a marcar a altura certa das calças. Tinha uma almofadinha para abrir as costuras e um pincel feito de farrapos para as borrifar e passar o ferro, que era de carvão. Ainda há bem poucos anos ele o usava. Ficava tudo muito vincadinho. Esses pormenores não me passavam despercebidos. Até reparei algumas vezes que ele tinha os dedos compridos, que é sinal de habilidoso e usava sempre um dedal aberto na ponta, próprio dos alfaiates. Às vezes, enquanto esperava que ele subisse a bainha a alguma calça, gostava de o ouvir falar de temas da actualidade, do dia a dia da sua terra, do desporto e da política. Era pai de cinco filhos, todos vivos graças a Deus. O António José, o Agostinho, que foi grande jogador do Atlético Cabeceirense no tempo em Cabeceiras de Basto vibrava com o futebol, o Manuel Fernando, a Graça e a professora Eduarda.
Muito mais haveria para contar sobre estes homens e grandes artesãos. Tiveram uma vida recheada de alegrias e também de contratempos próprios das famílias honradas que têm de lutar pela vida no seu dia a dia. A vida era muito dura e criar tantos filhos, com a agulha a cozer solas de sapatos ou bainhas das calças de cotim ou fazenda, não era para qualquer um. Eu que o diga, que os meus pais tiveram nove filhos e, se não fosse a emigração, não sei o que seria.
Não podemos esquecer estes personagens que contribuíram para o enriquecimento e para as tradições da nossa querida terra.

Fotos cedidas pela família

Por: Fernanda Carneiro

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