Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2005

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (60)

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SESSENTÕES

Em devido tempo escreverei o meu manifesto anti-idadenário. Por agora limitar-me-ei a expressar o mais profundo sentimento de desagrado pelo facto de, quando se faz referência à idade de um qualquer sujeito, se ele tem cinquenta anos dizer-se que é um cinquentão, enquanto que, desde que esse mesmo sujeito faça ou tenha sessenta anos, passa a designar-se por sexagenário.
A questão fundamental parece estar na terminação da palavra, mas na realidade não está. A terminação “ão” de cinquentão é conotada com força, virilidade, potência, estar ali para as curvas. A terminação “ário” é conotada com o oposto de todo o conjunto de factores de robustez e virilidade que o cinquentão exibe.
Não é verdade. Apesar de ser evidente que os anos não perdoam, e que um sujeito de sessenta ou setenta anos, não pode comparar-se, em termos de força e vitalidade, com o seu filho, ou o seu neto, de vinte ou de trinta, também não é menos verdade que, dos cinquenta para os sessenta, não se verifica uma tão grande transformação que justifique toda uma mudança de termos e de conceitos.
Eu tenho uma certa falta de simpatia pelos vocábulos terminados em “ário”, em particular quando se referem à idade seja ele de quem for. A este propósito, e apenas como mero exercício linguístico, fiz uma pesquisa num dicionário, uma simples amostragem, verificando algumas das palavras que, começadas pela letra “a”, têm como terminação “ário”. Registei as seguintes: abecedário, adversário, agenciário, alienatário, alveário, ambulacrário, angiospermário, aniversário, antifonário, apocrisiário, argentário, arrendatário, asinário, atrabiliário, automatário, aviculário.
Alguns dos nomes acabados de mencionar têm significados bem interessantes. Aconselho que façam a respectiva verificação nos vossos dicionários, o que não deixará de ser um bom exercício de português. E, já que falo destes assuntos, sugiro também que extraiam a raiz quadrada, de um qualquer número, com pelo menos cinco dígitos, sem recorrerem à máquina de calcular.
Não posso deixar de fazer aqui uma referência, mesmo que muito singela, à triste figura que fazem os grupos de idosos que viajam em excursões. Se me permitem uma opinião, proponho que, em futuros passeios, sejam quais forem as entidades que os financiem e organizem, deverão preparar as coisas de maneira que cada idoso, com mais de sessenta anos, leve a sua neta, ou uma sucedânea, com menos de vinte, e que cada idosa, com mais de sessenta anos, leve o seu neto, ou um sucedâneo, com menos de vinte.
Verificarão que o clima da viagem será muito melhor. Haverá mais ambiente, mais perfume. Proponho também um exercício matemático, para cada um dos guias, ou animadores, que acompanham os viajantes no interior das viaturas, que consiste em tomar nota das idades de cada par avô/neto, somá-las todas, e estabelecer uma média. Sou de opinião que a média óptima deverá situar-se entre os quarenta e os quarenta e cinco anos.
O raciocínio acabado de explanar tem, a meu ver, um duplo benefício: por um lado torna as viagens mais agradáveis. Então não é verdade que os jovens gostam de acompanhar os mais velhos para usufruir e tirar partido da sua sabedoria? E os mais velhos não gostam de acompanhar os jovens para usufruir e tirar partido da sua rebeldia, frescura e juventude?
Por outro lado, há o factor económico e financeiro. Então não estamos nós em período de crise, em que todos os esforços de poupança são poucos? Seguindo a minha teoria, junta-se o passeio dos jovens com o dos menos jovens, realiza-se uma festa mais animada e mais solidária, e, não tenham qualquer dúvida, de que beneficiarão de razoáveis, para não dizer excelentes, economias de escala.
Há uns meses atrás, um cidadão festejava o seu aniversário num café, do centro da nossa vila, pagando a despesa da bica a todos os presentes. Interrogado pela jovem empregada sobre quantos anos fazia, ele respondeu que fazia três vintes, e para o ano que faria três vintes e um, e assim sucessivamente, como em França, os franceses também dizem quatro vintes em vez de dizerem oitenta.
Antigamente os velhinhos, quando deixavam de poder trabalhar, eram levados ao monte, para ali morrerem e serem devorados pelos lobos. Nos dias que correm, são levados para lares, por atacado. Eu, quando for velhinho, e já não puder trabalhar, não quero ser levado para qualquer lar. Com algum agasalho, no interior de uma gruta e uma caçadeira, prefiro que me levem ao monte.
Este texto correu-me francamente mal. Vou ler, pela terceira vez, o Princípio de Peter. Aliás, aconselho a todos que leiam aquele livro. Nos tempos que correm, penso que há um elevado número de pessoas que deviam ler o Princípio de Peter, sem demora.

PS: Por sugestão de alguns dos meus leitores, publicarei, num dos próximos números, em repetição, um texto que aqui publiquei já lá vão mais de sete anos, “A Sebenta”. Na verdade, poucos se lembrarão, e como já tem bastante pó, fazer-lhe-á bem um ligeiro desempoeiramento.

Por: José Costa Oliveira

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