Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2005

SECÇÃO: A nossa gente

Irmã Alda Miranda
UMA CABECEIRENSE AO SERVIÇO DE DEUS

Professora de profissão, a Irmã Alda Miranda é natural de Cabeceiras de Basto. Nascida no seio de uma família católica, religião que sempre professou com grande fervor, foi em Fátima que sentiu o toque de Deus para a vida religiosa. O seu caminho vocacional ao serviço da congregação de Nossa Senhora das Vitórias, tem sido trilhado com muita fé, quer em Portugal, quer no estrangeiro, onde se encontra presentemente, em missão, no recém constituído país de Timor Leste.

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Ecos de Basto [E.B] - Uma vida dedicada ao ensino e à religião. Como define o seu percurso profissional e vocacional?
Irmã Alda [I.A]- Sou natural da freguesia de Refojos, terra onde nasci e cresci. Aqui frequentei a escola e o Colégio de S. Miguel de Refojos, onde conclui o 9º ano de escolaridade, seguindo depois para Braga onde completei o 12º ano do liceu. No entanto, foi em Chaves que frequentei o Magistério Primário e me formei em professora do ensino básico.
O meu percurso profissional iniciou-se em Setúbal, onde leccionei durante um ano, um período cuja experiência alcançada registo com grande satisfação. Isto porque, além da realização profissional, encontrei naquela gente grande conforto. No entanto, os apelos familiares que insistentemente reivindicavam a minha vinda para o Norte, levaram-me a leccionar nos distritos de Braga, Porto e Aveiro, foi onde desenvolvi a minha actividade como docente durante quase nove anos.
No entanto, ao longo da minha vida profissional e pessoal fui descobrindo que o matrimónio não era o caminho que queria seguir. Com o passar do tempo notava em mim um vazio que não conseguia preencher, mesmo quando frequentava as discotecas, com o meu grupo de amigas, coniderava que aquele ambiente, apesar de bom, não era o ideal.
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E.B. _ Pode-se então dizer, que a sua escolha vocacional, não foi imediata, não resultou de “um amor à primeira vista”?
I.A. _ Não. Não foi de facto um “amor à primeira vista”, mas sim o culminar de vários anos de vazio que eu não percebia, que não conseguia preencher, mas que interiormente algo me dizia que o caminho a seguir tinha que ser diferente. Assim, foi numa deslocação a Fátima, com colegas de Felgueiras, onde me encontrava a trabalhar na altura, para participar num Congresso de Professores destinado a reflectir a questão das aulas de religião e moral nas escolas, que senti pela primeira vez o toque de Deus. Entrei na livraria Paulista, acompanhada por três ou quatro colegas e no meio de tantos livros, apenas vi um que de imediato me despertou a atenção. Chamava-se “Vocação explicada pelo Papa” [Papa João Paulo II]. Na ocasião perguntei a mim mesma, quem sabe eu não vou aqui perceber o que é a vocação. Comprei o livro, gesto que fiz de forma subtil, uma vez que estas coisas nem sempre são bem entendidas socialmente.
Em casa, comecei a lê-lo e o primeiro parágrafo nunca mais o esqueci. Dizia assim, “Jovens e menos jovens, se ainda estais solteiros, segui Cristo de perto, não tenhais medo”. Esta afirmação do Papa João Paulo II, tocou tão fundo dentro de mim que pensei, se calhar é isto mesmo que Deus quer. Naquele momento, eu não sei explicar o que se passou, mas senti-me tão bem, mas ainda não foi naquela altura que percebi.
Entretando, estava em Felgueiras, quando fui convidada para dar catequese aqui em Cabeceiras. As pessoas gostavam do meu método e eu até nem me esforçava muito para preparar as aulas, mas conseguia cativar cerca de noventa crianças.

E.B._ A Irmã Alda já lia, na ocasião, obras espirituais?
I.A._ Lia pouco. Também não tinha acesso a livros espirituais. Lembro-me que, demonstrando eu algum jeito, as irmãs que estão cá no concelho (e com quem eu não tinha até muito contacto), emprestaram-se um livro sobre a vida da irmã Wilson. Uma mulher que se converteu com 32 anos de idade ao catolicismo, religião que a partir de então abraçou com grande fervor, desenvolvendo um trabalho notável em prol da comunidade. Ora eu, que já era católica, já não precisava de me converter, talvez pudesse fazer alguma coisa como irmã, pensei. Percebi então que tinha um caminho a seguir e decidi. Não foi fácil. Nem para mim, nem para a família, nem para os colegas e amigos.
Mas eu já tinha aquela vocação. Acreditro que já nascemos com vocação, apesar de muitas vezes só a descobrir-mos em adultos.
Como sabe, fui educada numa família católica, que rezava o terço, que ia à missa, práticas que eu sempre gostei de fazer, mesmo não tendo qualquer compromisso como catequista ou outros. Sempre gostei. Sentia-me bem. Foi a partir de então que decidi dar esse passo e fazer a minha formação religiosa.

E.B._ Como desenvolveu o processo? Foi encaminhada por alguèm?
I.A._ A primeira pessoa a quem me dirigi, foi ao padre Fernando, pároco da minha freguesia, a quem contei o que se estava a passar comigo e que de imediato me disse ter notado em mim um comportamento, uma maneira de estar diferente. Na ocasião não me disse qual a via que tinha a seguir, apenas me disse que se era essa a minha vontade, havia duas congregações que eu podia escolher. Como tinha lido o livro da irmã Wilson e tinha gostado, decidi-me pela Congregação de Nossa Senhora das Vitorias, sendo que o meu objectivo era apenas e só, dar resposta àquele toque de Deus. E assim foi.
A partir de então tive que tratar de todo o processo. desloquei-me à extinta direcção escolar do Porto, uma vez que me encontrava ali a leccionar e procurei saber o que tinha que fazer para interromper provisoriamente a minha profissão, isto porque, não sabia se ia gostar. Podia ser apenas mais uma experiência. Ao longo do “caminho”, tive dúvidas. Perguntava a mim mesma se era aquilo que eu queria. No entanto, tinha a certeza que se não prossegui-se nunca mais veria preenchido o vazio que sentia.

E.B_ Foi uma decisão difícil. A irmã tinha uma já vida estabelizada, não é verdade?
I.A._ Sim. Tinha uma certa independência, uma vida estável e agora ... Mas por outro lado sentia que se abandonasse este caminho teria sempre um vazio. Durante a minha formação religiosa, tive altos e baixos, mas percebi que Deus me chamava. Não podia voltar para trás. Tinha que seguir em frente.

E.B._ Uma vez tomada a decisão, quais os passos que percorreu?
I.A._ Fiz a minha formação religiosa em Coimbra. Passei também por Fátima onde fiz o caminho da descoberta da vontade de Deus. Regressei a Coimbra para fazer o postulante, o noviciado e a minha primeira profissão de fé. Estive em todas as etapas estipuladas pela Igreja (6 meses). Fiz o noviciado (2 anos), o ano canónico (que é obrigatório) e no segundo ano tive algumas experiências de vida comunitária passando por algumas comunidades onde contactei com diferentes formas de vida, para ter a certeza de que era mesmo isto que queria. Deus ajudou-me. Não foi fácil.
Fiz então, tal como referi, a primeira profissão de fé e fiquei ligada à Congregação de Nossa Senhora das Vitórias, já vivendo os votos. Sabe, a vida religiosa caracteriza-se pela vida comunitária vivendo os votos de pobreza, obediência e castidade.
Posteriormente, entrei na etapa do jonorato, que é o período que a Igreja dá à formanda para consolidar a sua formação. Isto porque, a seguir vêm os votos perpétuos que são decisivos na vida de uma religiosa.
Estive ainda, em algumas comunidades, a desempenhar a minha formação de professora, que interrompi quando fui para Roma [Itália] durante dois anos.
Entretanto a minha Congregação, que também é missionária foi contactada pelo Bispo D. Basílio do Nascimento, de Baucau, em Timor, para ali desenvolver uma missão. Trata-se de um país que atravessou um processo de independência, devastado pela guerra e que era necessário ajudar a crescer e a desenvolver, apostando na educação e na formação. A minha congregação aceitou. Convidou-me, assim como a mais um grupo de irmãs para formar uma comunidade em Timor.

E.B._É a primeira vez que faz missão?
I.A._ Deste tipo, é. Já estive em Londres (Inglaterra) a trabalhar com as comunidades de emigrantes. Mas gosto de estar em Timor. Sinto-me bem. Já estou lá há dois anos e estarei o tempo que Deus pedir. Mas a qualquer momento, caso seja necessário, deixo aquele país e vou para outro local, sempre com a mesma fé, porque Deus vai-nos orientando.

E.B. _ A irmã está com outras religiosas?
I.A._ Sim. Estamos três nesne momento.

E.B._ Em que zona está?
I.A._Estou em Baucau. É a segunda cidade de Timor e como tal um centro com muitas carências. Dili é mais desenvolvido. A nível dos recursos está melhor. Tudo se concentra em Dili, mas pessoalmente gosto mais de estar em Baucau. O clima é mais temperado, sinto-me bem.

E.B._ Quais as actividades que desenvolve?
I.A._Ensino Português. Neste momento gostaria de dar mais respostas á satisfação das solicitações, mas não é possível. Ainda há poucos professores e aqueles que vão, não trabalham directamente com a comunidade, mas sim, dão formação a outros professores que depois se encarregam de o fazer.
A língua oficial é o Tetum, o Português e o Inglês, esta última usada sobretudo a nível profissional. Já conheço alguma coisa de Tetum, pois para ensinar o Português tenho que conhecer a língua nativa. É diferente trabalhar em Timor ou em Portugal. Aqui aprendemos por intuição, lá temos que ir ao pormenor. É muito exigente. Os pedidos são muitos. Há dias recebi carta de uma aluna onde dizia ”ainda estamos à sua espera, porque não temos aulas de Português”.

E.B._ Sendo o ensino a sua acção e ensinando naturais, tem sentido alguma evolução na forma de estar do povo timorense?
I.A._Claro. Eu digo que o povo Timorense é um povo inteligente, com capacidades alarmantes intelectualmente falando. Nós comunicamos e eles apreendem com facilidade. É também um povo com grande destreza manual. Estão habituados a trabalhar. Fazem coisas muito bonitas. Para mim, o trabalho que desenvolvo com eles é muito enriquecedor. Mas para além de dar aulas, tenho outros trabalhos. Estou na formação de jovens e na pastoral vocacional com outras irmãs. É um povo católico, fruto da tradição e da ocupação ao longo dos anos.

E.B._ Há alguma manifestação de outras Igrejas?
I.A._ Também há. No entanto, agora tem-nos sido pedido para irmos mais ao encontro das pessoas. Vamos a localidades onde já lá não vai o padre há mais de quatro anos. E nós vamos. É uma festa quando lá chegamos, porque levamos a celebração da palavra e damos a sagrada comunhão. O povo é muito acolhedor e no final da celebração, há sempre um pequeno banquete, que oferecem com muito agrado. É um povo de coração aberto. Sabe sorrir. Sabe estar. Já passei por muitas localidades, mas Timor toca-me especialmente.

E.B. _ O desenvolvimento ainda é muito frágil?
I.A._ Sim. A actividade económica inside na agricultura e na pesca. O comércio é pobre, muito rudimentar. A indústria, praticamente não existe. No entanto, é um pais com potencialidades de crescer, mas que tem que ser ajudado.

E.B._ Que tipo de alimentação fazem os timorenses?
I.A._Com base no arroz. Há famílias onde se come três vezes arroz ao dia. Muitas delas comem arroz com arroz, só no caso daquelas que têm mais posses, que têm terras, é que se cozinha o arroz com legumes, que cultivam e a que chamam de conduto. Lá o conduto, não é a carne, o peixe ou os ovos. Também os há, mas os animais são reservados ou para venda ou para momentos especiais, como festas, casamentos, batizados ou funerais. Os funerais são vistos de forma diferente daqui. Lá quando alguém morre é um momento de fraternidade muito grande. As familias daquela localidade oferecem à família enlutada um animal, que é confeccionado e servido a todos os presentes. É um momento de silêncio, respeito e recolhimento, já estive em alguns.

E.B._ A irmã Alda vive numa casa normal?
I.A._Vivo numa casa que pode considerar-se normal. É bonita. É feita de talata (troço da palmeira que encaixada faz as paredes), pintada de branco, com tijoleiras brancas, coberta de zinco e com uma varanda virada para o mar.
Apesar de haver outro tipo de construção (tal como na Europa), a maioria das casas são palhotas. Há lugares e lugares apenas com palhotas. No entanto, são locais limpos, onde se entra e se sente bem estar. Na varanda há sempre uma mesa e uma cadeira para quem chegar.

E.B_ E em termos de saúde?
I.A._ A saúde é pobre. Há um hospital, que vai dando alguma resposta, mas funciona com poucos recursos. Há falta de medicamentos para toda a gente. Inicialmente até a higiene era pouca. Mas tem-se registado progresso com a entrada de uma irmã, que aos poucos, sem impor, mas sensibilizando e ensinando com muito cuidado os timorenses, tem ajudado a mudar a sua imagem.

E.B._ Desse ponto de vista, há conflitos entre timorenses? As pessoas dão-se bem?
I.A._ Eu sinto que há paz. Não é uma paz celestial, mas anda-se à vontade em Timor. Não tenho medo. Eles respeitam muitos os religiosos.

E.B._ E os Portugueses?
I.A._ Os portugueses também são muito respeitados e estimados. Temos conhecimento que de vez em quando, há conflitos nos sucos (lugares), mas são casos isolados.

E.B._ E o Governo, trata-vos bem?
I.A._ O Governo trata-nos bem. Mesmo antes de nos virmos embora, o embaixador foi-se despedir. É certo que trazia comigo um grupo de jovens que ele também conhecia e também queria enviar correspondência para Portugal. Mas apreciei este gesto, esta postura social que teve.

E.B._ E ao nível dos serviços centrais?
I.A. _ Ao nível dos serviços centrais também nos dão todo o apoio. Quando estava para vir (e vim por motivos de saúde) tive que tratar de alguns documentos apressadamente e fui muito bem atendida. Foram fantásticos. Confiaram-me inclusive, documentos que aqui não mos confiariam. Ajudam-nos.

E.B._ E Xanana Gusmão? Vai visitar todas as comunidade?
I.A._ Sim, ele sai algumas vezes. Já estive com ele pessoalmente. É muito acessível. É considerado como um guerreiro, um homem lutador. Em suma, um símbolo vivo, estimado pelo povo.

E.B._ Quanto aos meios de comunicação? Existem?
I.A. _ Há rádios, que são ouvidas pela maioria das famílias. Nós temos uma televisão, mas não funciona, pois falta a antena parabólica para ter acesso à informação. Vou sabendo notícias através do telemóvel, sempre que a minha família me liga.

E.B._ Então têm telemóveis. Há rede?
I.A._ Temos. Mas o mesmo não acontece em todos os locais de Timor. Há uma congregação que sempre que quer comunicar com alguém tem que percorrer uma hora a pé. Já vai havendo alguns telemóveis, sobretudo nos serviços, mas o comum do povo não tem acesso a esta tecnologia.

E.B._ O Governo Português ajuda nas actividades que desenvolvem?
I.A. _ O Governo não está a subsidiar nada. Eu não estou ao serviço do Ministério da Educação, e como tal, a nossa actividade é assumida pela Congregação, que conta com muitas ajudas, de Portugal, através de iniciativas que desenvolvemos e também de Timor. Ajudam-nos com o fornecimento de alguns bens, tais como comida, reflexo da sua gratidão.
Temos também apoios ao nível da formação de jovens, como bolsas de estudo que permitem prosseguir os estudos a alguns timorenses. As pessoas têm colaborado muito para o crescimento e desenvolvimento da nossa missão em Timor.

E.B._ E a Congregação, paga-vos algum vencimento?
I.A._ Não. Nós se precisarmos de alguma coisa pedimos e a nossa pretensão é satisfeita.

E.B._ A Irmã Alda já está em Timor há algum tempo e já nos disse que estará enquanto for preciso. Há algum projecto novo em vista?
I.A._ O meu desejo é fazer aquilo que Deus pede, seja onde for. Assumi um compromisso de fé e como tal vou, estou onde for necessário. Sinto-me bem assim.

E.B._ Acha que o caminho da fé, pode fazer um mundo melhor?
I.A._ Depende da vida de cada um. Hoje o homem vive afastado de Deus. Poucos recorrem a Deus. Por isso se realizou recentemente em Lisboa o Congresso para a Reevangilização da Europa, tendo em vista reactivar a presença de Deus na nossa vida. Hoje vive-se muito o materialismo, o individualismo. Por isso temos um mundo mais pobre de valores, o que muitas vezes se reflecte no aumento dos suicídios, da agressividade, entre outros. É minha convicção de que não podemos viver sem Deus. Quem vive com Deus tem sempre ali uma mão que o ajuda a caminhar.

E.B._ Veio a Cabeceiras de Basto, após quase dois anos de ausência. Sente alguma diferença, não só em termos religiosos, mas também físicos?
I.A._ Sinto que no campo religioso, Cabeceiras de Basto continua a ser uma terra com tradição.. As Igrejas estão cheias. As pessoas têm fé. A Eucaristia é uma festa, sobretudo, quando nela participam grupos de jovens.
Fora do campo espiritual, Cabeceiras de Basto tem crescido bastante. Tem desenvolvido. Gosto daquilo que vejo, da forma como está construido. A apresentação de Cabeceiras é outra.
Sabe, quando estava a estudar e visitava a Praça da República e o seu jardim, dizia para comigo, que mal tratada aquela que é a nossa sala de visitas. Agora, chegamos e gostamos de estar no jardim tão bem cuidado, assim como nos arredores. Estou muito satisfeita com o trabalho desenvolvido na nossa terra.
Bem haja quem trabalha.


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