Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2005

SECÇÃO: Crónica

A Minha Terra - XVII

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O pai e a mãe, aos quais sobrava sobejidão das fartas rendas, tinham a filha quase encarcerada, como se fora uma castelã, com cinto de castidade. Estava destinada a um homem de quem não gostava, odiava, mas a família toda insistia, e ela recusava terminantemente, batendo com os pés descalços e macios no tapete de pele de urso.
- Só se me levassem arrastada até ao altar.
Se houvesse conventos como os de antigamente teria sido prisioneira de um deles, seria freira à força talante, e minguar do corpo e da alma até morrer, com os jejuns e os cilícios, como ia acontecendo à chorosa Teresa do “Amor de Perdição”, com o hímen seco que nem um figo de outono ou como à desgraçadinha da “freira num subterrâneo” do mesmo Camilo, ou como à bela, pobre e infortunada Madame Butterfly.
Com clara e tez delicada; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma cor, composta e ligeiramente rodeados; boca pequena, rosada e bem feita; dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado, cintura delgada, talhe esbelto e estatura regular, uma orquídea de ouro no pescoço, parecia uma némisis, frágil borboleta.
Conheci-a vai para sessenta anos a passear no jardim, colhendo flores, das quais hauria o perfume, formosa e vaso de eleição. Tive pena dela, palavra que tive.
O palacete abrasileirado onde morava era um edifício de harmoniosas proporções, situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas colinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lenhador, orlado de fêveras de oiro, a infinita criação rusticana.
- E o Coutinho não te serve?
- Não, pai, é troquilhas, perigoso como um lacrau.
- O dinheiro faz o conde e o seu brasão. Vê só o caso do Barão de Basto? De resto, por esta terra além, há de tudo como na botica. O Coutinho da Câmara não te servia? Olha que os Coutinhos da Câmara são da melhor nobreza do reino. Gastão José da Câmara Coutinho, senhor da Casa da Taipa, pelo matrimónio com uma Assumar deixou filharada basta com tortulhos.
- Não me serve, e de quem eu gosto com paixão profunda, que me estremece o coração todo, o pai não me deixa casar, já sei, escuso de lhe dizer quem é, para não começar a falar prái à bruta e pôr-me o juízo a arder. Não vale a pena pensar em casamento, seja o que Deus quiser. Não sei bem se Deus se mete nestas coisas de amor… Talvez não, senão não havia tamanhas desgraças.
As aves, dando repouso às asas fatigadas de contínuo voejar pelos pomares, prados e balsedos vizinhos, começavam a preludiar seus cantos vespertinos.
E Alonsa, desditosa, no seu cálice de amargura ia dedilhando a viola e soltando os seus trilhos desolados.

“Os meus braços estão presos,
A ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios nem meus olhos
Não podem de amor falar;
Deu-me Deus um coração
Somente para penar.”

“Ao ar livre dos campinos
Seu perfume exala a flor,
Canta e aura em liberdade
Do bosque ao alado cantor
Só para a pobre cativa
Não há canções nem amor.”

Cala-te, pobre cativa,
Teus queixumes crimes são,
É uma afronta esse canto,
Que exprime tua aflição.
A vida não me pertence,
Não é teu teu coração.”

“Voltarei com as rosas na estação
Serena e abençoada
Em que o pintarroxo faz o seu ninho.”

O seu fervoroso apaixonado tardio era um homem já quarentão, cheio de nobreza e de vícios, sobressaltando o de ser um fodilhão incorrigível.
- Não há dinheiro que a pague; há-de ser minha, toda minha, inteira da cabeça aos pés.
A água, uma ave-maria puríssima, labirintava por cerros e vales, banhava os pés da menina cortejada e ela com a mão salpicava de gotas refrescantes e suavíssimas o rosto.
Regressavam de longe as aves migradoras, transmarinas, que consideravam a Mata de Santo Antonino mata natal, a sua cidade santa.
Dobou Abril, dobou Maio, um Maio frescal e serôdio, a custo desembaraçado das envoltas do Inverno.
Como Alonsa tinha inveja das moças que laboravam na quinta, com muitos e bonitos canastros, eiras e pátios, alegres, cantantes, derriçando, namorando com os seus queridos, alguns já mestres artífices que só ganhavam de jorna, naquele tempo magro, dez escudos e os obreiros oito e os dias contavam de sol a sol. Também não era bem assim. Havia muitos marotos, cheios de maroteiras, enfim. Um deles, que também conheci e fixei na retina, parece que estou a vê-lo, bardino de todo, a ceniscar frequentemente os olhos, malandrão duma figa e falaz que nem um abade dos velhos tempos aldeãos, que piscava às raparigas e as tornavam como servas e as filhavam, a terra, disputada ao metro quadrado nos tribunais ou à sacholada, deixou manchas de sangue imorredoiro. Os velhos e as velhas de Barroso, que já morreram, do planalto pitoresco, inédito e garrula é que sabiam disso, era um regalo ouvi-las, oh, se sabiam e contavam de espasmar os mais ignorantes citadinos, que nem foram onde Camilo chegou – Cerigo – desgraiçadinho e num mísero estado, em cima duma burra derreada, ou que a espaços ali abordavam a saber como era o vivenciar de antanho, daquelas terras esquecidas longos séculos dos reis, das repúblicas e de Salazar, um povo inteiro a vegetar nos cardenhos de colmo ou de telha-vã. Dizem-me à boca pequena que o povo tinha fome, mas rezava e bailava. O povo rezava e bailava por força do hábito ancestral. Sim, rezava mas já não acreditava em coisa nenhuma. Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia, e ele o que tinha era larota. O quid do problema ditatorial estava em não conceder tempo ao homem para pensar, discernir a sua condição, meter a mão na consciência, numa palavra, de não lhe deixar pôr o pé em ramo verde quanto à questão política e social, acrescentada por um analfabetismo assustador, que colocava o bicho-homem de mãos postas junto dos altares dos santos e na audiência sagrada a Deus e aos padres.
- Ai era assim?!...
- Pois era, meu senhor. Não apresente essa cara de admiração nem duvide um segundo sequer. Era o tramontana, meu Deus, se é que havia Deus ou coisa assim juro-lhe pela hóstia consagrada. Não colhíamos vinho nem azeite, nem milho, nem frutos, só castanheiros machios, e carvalhos e landes, enquanto lá para os de Cabeceiras as tulhas ficavam pletóricas no são-miguel e nas adegas não havia pipa nem tonel que tocasse a vazio. Isso do volfrâmio foi um vento que lhe deu.
O volfrâmio!
O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o maná foi para os Israelitas, através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do dejejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria a melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira.
Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotara das terrinhas sáfaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até há pouco, alguns aureolaram-se na gambérria do volfrâmio. Chegaram a chamar a essa época a “época do minério”. Entre nós, tal furuncolose com o dramático que comportou, representou antes uma das manifestações eruptivas da crise social e política que Portugal e de certo modo o orbe atravessava. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a segunda guerra, afinal a saga do volfrâmio foi de uma grandeza e efémera aventura, dessas que de séculos a séculos avassalam os povos, no jeito da conquista das especiarias do ouro brasileiro e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas Gerais e dos seringadores da Amazónia. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo.
Volfrâmio e maná significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não vê o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja antes de joio que de frumento panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. O protoplasma é ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Na noite um perfume de flores evocou o hálito embriagador, Alonsa cantou baixinho, de olhos fechados, mas ao abri-los a luz vagabunda do luar iluminou apenas os vergéis brilhantes, do amado nada.
“Sinto que estás junto a mim,
Mas é mentira, é ilusão”,
voltou a cantar cheia de desespero e amargura e desmaiou junto à varanda. As mãos cresceram mais depressa do que o resto do braço, aparecendo primeiro com os dedos como carapucinhos; a falange final dos dedos saiu das palmas das mãos, como a querer abraçar uma coisa invisível, aquela ferralha toda amontoada no depósito, assim lhe parecia a sua alma desarrumada.
Uma noite alta, tudo combinado, a sua criada de confiança, pôs a escada entre o varandim e Alonsa, com uma farta saca de libras esterlinas que subtraíra do segredo descoberto do cofre, fugiu com o amado e nunca mais se soube nada dos dois, nem trilho, nem poiso, nem aventura do destino. O pai enlouqueceu e a mãe ficou podre de desgosto e de vergonha arriscando-se a compartilhar tudo até o terrível mito, até o doloroso passado, a transcender no perigoso amor a estupidez social da reputação, das aparentes convenções, porque se um par se ama deveras, isso é o mais revolucionário do mundo, porque só o amor dá a salvação e o triunfo. Dependemos da visão do outro para complementar a nossa própria visão: somos só meio olho, meia boca, meio cérebro, meio rosto; o outro sou eu porque me completa. Saber isto é perceber ao mesmo tempo a nossa grandeza e a nossa servidão, a nossa liberdade e a nossa dependência e, sabendo-as, é-nos possível atingir o que o nosso conhecimento dos limites parecia vedar-nos; precisamente porque um só sabe a sua posição, mas o outro sabe perfeitamente o seu movimento, ao unirem-se os dois souberam o que o outro ignorava e podem complementar, ser o que nenhum era à parte.
Parece que Alonsa e Francisco foram para África, porque anos mais tarde a mãe, muito envelhecida e esqueixilhada recebeu um postal, carimbado em Mocâmedes.
“Estou feliz e a vida sorri-nos. Temos três filhos. Beijos” Só isto. Grossas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto e o marido não entendeu coisa alguma do que se passava. Olhou o postal com a boca revirada de taumaturgo, a tremer, a tremelicar rasgou-o e sentou-se no espaldar com os olhos oliverdes pregados no tecto de masseira onde estava talhado o brasão de sua família.

Por: Alexandre Vaz

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