Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2005

SECÇÃO: A nossa gente

Gabriel José da Costa Ribeiro
Uma vida ao serviço do Futebol Regional

É, seguramente, a personalidade viva do concelho de Cabeceiras de Basto com mais anos ligada ao futebol regional. Foi jogador fogoso, treinador, adjunto, secretário técnico e director.
Com 66 anos desempenha ainda o cargo de responsável pelo departamento de futebol do Desportivo do Arco de Baúlhe.

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Figura popular em todas as terras da região, o sentido de humor e uma boa memória que lhe são peculiares dão-lhe, também, aquela faceta de homem folgazão e divertido que o caracteriza.
Gabriel José da Costa Ribeiro, mais conhecido no Arco de Baúlhe onde vive por Zeca, é um verdadeiro desportista já com descendentes a seguirem-lhe as pisadas. São três filhos dos seis que tem, dois deles do sexo feminino, a ocuparem lugares de dirigentes e atletas no clube local.

Uma paixão pelo futebol

“Comecei a jogar futebol muito novo, com 16 anos, no antigo e já extinto “Leões da Faia”, um clube de freguesia, onde se jogava apenas por brincadeira e para entretimento.
Passado pouco tempo fui “pescado” para integrar a equipa do D. Arco de Baúlhe pelo senhor Norberto da Silva, um dos maiores entusiastas deste clube. Aqui estive até ser chamado para cumprir o serviço militar, que se prolongou ao longo de perto de três anos na Índia.”
E prosseguindo com o relato.
“Na Índia, mais propriamente em Goa e Damão, também joguei futebol com outros atletas militares, alguns pertencentes a clubes primo-divisionários da Metrópole. Com a invasão pela União Indiana, fiquei prisioneiro durante seis meses até que regressei a Portugal sempre com o “bichinho” do futebol no corpo.”
Numa época em que poucos clubes das Terras de Basto possuíam o estatuto federado, Gabriel Ribeiro foi convidado a ingressar no Celoricense a militar nos Campeonatos Regionais da A.F. Braga.
“Sim. Como não existiam muitos clubes federados na região, escolhi o Celoricense para onde fui jogar, juntamente com o Dias, o Mário Coutinho e o Toninho de Cabeceiras. Ali estive durante 8 épocas voltando, mais tarde, para o D. Arco de Baúlhe onde joguei até aos 35 anos”.
Ligado umbilicalmente ao clube da terra, acabou por ser seu treinador, sucedendo a Agostinho Oliveira (actual seleccionador-treinador da selecção nacional dos sub-21), obtendo nessas funções algum sucesso.

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Exemplo de dedicação

“Saindo para treinar o Atlético Cabeceirense, fui escolhido para substituir o Agostinho Oliveira. Com muito trabalho e uma enorme dedicação consegui promover o D. Arco de Baúlhe à 1ª Divisão Distrital, na temporada de 1985/86, escalão em que se manteve durante anos a fio”.
Tendo participado em praticamente todos os bons e os maus momentos da carreira desportiva do D. Arco de Baúlhe, Gabriel Ribeiro acumula uma experiência rica dos problemas e das virtualidades do futebol ao nível regional.
“O futebol regional mudou muito nos últimos 10-15 anos. O nível de qualidade é agora superior. Já se vêem equipas a praticar bom futebol e servidas por jogadores evoluídos técnica e fisicamente. Relativamente às infra estruturas, há, igualmente, um progresso enorme. Muitos dos campos de jogos já são relvados e os balneários, estruturas médicas e de apoio à recuperação dos atletas constituem também mais valias que antes não existiam ou eram obsoletos.”
E sem interrupção.
“Antigamente os jogadores apenas recebiam prémios de jogos muito baixos e sem significado especial. Nos dias de hoje as coisas são muito diferentes. Há atletas que recebem vencimentos e prémios, para além de lhes ser garantido todo o apoio em material desportivo do mais sofisticado. Desde sapatilhas para treino, equipamentos para todas as condições climatéricas e chuteiras das melhores marcas. O nível alcançado no futebol regional deve-se ainda à qualidade dos treinadores, à organização dos clubes e à crescente competência dos dirigentes.”

As rivalidades na expressão mais civilizada

As rivalidades entre localidades próximas e da mesma região, tiveram, outrora, no futebol manifestações de bairrismo apaixonado e, por vezes, exacerbado. Das terras vizinhas onde esse fenómeno mais se evidenciou foi, sem dúvida, no Arco de Baúlhe e na sede do concelho, Cabeceiras de Basto.
“Assisti, na verdade, a muitas peripécias bem reveladoras da grande rivalidade existente entre Cabeceiras e o Arco de Baúlhe. E muitas delas eram pacíficas e constituíam uma oportunidade para atitudes de boa amizade e de respeito mútuo. Não se passava era sem umas “bocas” bem-humoradas e uns ditos que faziam gáudio entre os adeptos mais refinados. Numa dessas ocasiões em que o A. Cabeceirense venceu o Arco de Baúlhe por 2-0, apareceram quadras escritas alusivas ao jogo cheias de significado e de sarcasmo, de que me lembro de algumas que vou citar:
“Foi no segundo mês do ano,
Mesmo ao terceiro dia,
Se não fosse o guarda-redes,
Que tacada não seria!”

“Os dos Arco tiveram medo,
Não quiseram ir à Praça,
Ficaram em Carrazedo
Já adivinhavam a desgraça.”

E uma outra quadra a gozar com a equipa arcoense que, na altura, era composta por jogadores de várias localidades, dizia assim:
“ Venha Cerva, venha Murça,
Mondim e Pedras Salgadas,
Não valeis dez por cento
Das equipas encarnadas.”

Ainda a propósito das rivalidades futebolísticas entre estas duas terras do mesmo concelho, lembro-me de outro verso em rima, que retratava o sentimento da equipa derrotada, desta vez com vantagem para o Arco de Baúlhe e que rezava assim:
“Ficou tudo como dantes,
Os fatos por estrear,
A vitela por comer,
E os foguetes por estourar!”

As recordações do nosso entrevistado de hoje não ficam por aqui.

Recordações são saudades

“ Já lá não perto de cinquenta anos e o Arco de Baúlhe, mais uma vez, defrontou o A. Cabeceirense num ambiente de grande tensão e entusiasmo. As populações movimentavam-se à volta destes jogos com uma grande emoção e enorme expectativa. O “derby” enchia os campos de gente como nunca. Os nervos ficavam à flor da pele no rectângulo de jogo e nas bancadas. Que grandes espectáculos! Mas como ia dizendo o Arco de Baúlhe voltou a perder, desta feita por 9-0, o que até se aceita porque a constituição da sua equipa foi feita com base só na “prata da casa”, não havia, pois, atletas do exterior. E lá vieram os de Cabeceiras com mais uma brincadeira. Dependuraram num arame, no centro da vila, uma candeia de iluminação antiga a petróleo com os seguintes dizeres: “Eia, eia o Arco na candeia”.
As brincadeiras com caixões colocados ou no Arco ou em Cabeceiras foram também muito usadas ao longo desses períodos que já lá vão”.
Para além desta actividade desportiva, Gabriel Ribeiro participou também no movimento do teatro amador, a partir da Casa do Povo do Arco de Baúlhe, com tradições positivas.
“É verdade. Fiz teatro, na companhia de outros jovens arcoenses durante alguns anos. Foi uma experiência interessante e muito educativa. Nesse tempo havia um empenho e um gosto extraordinários. Não existiam as solicitações e as diversões que, actualmente, absorvem quase por completo os tempos livres dos jovens com vícios perversos à mistura. Levávamos à cena comédias muito bem ensaiadas, muitas vezes acompanhadas com entradas musicais de que se encarregava o velho mestre, António Mendes, da Banda. Também criávamos rábulas e encenações tipo revista para brincarmos com a comunidade. Das canções que cantávamos nessas partes dos espectáculos sei ainda muito bem as letras dos refrões que faziam delirar a assistência. Recordo alguns:

A crítica e o bom humor sempre presentes

“O gigante da Quintã,
É doido pelo futebol,
Quando o Desportivo ganha,
Passa as tardes no tintol.”

“O coração e o homem,
São dois amigos leais,
Também o Pitães e a Burra
Já não se separam mais.”

“O Manolo do Ferreiro,
Trabalha na Serralharia,
Se o Padeiro fechasse,
Dele não sei o que seria.”

“O arqueiro cá da terra,
Já parece um reizinho,
Leva dinheiro quanto quer,
Só por se encontrar sozinho.”

“O Silveirinha da Farmácia,
Parece um professor de ginástica,
Passa as tardes no café,
Faz uma cera fantástica.”

“O carteiro cá da terra,
Com os seus galões bem postos,
Com a pastinha na mão,
Parece um cobrador de impostos.”

Gabriel Ribeiro poderia ter sido padre ou ainda um bom alfaiate. Recusou ir para o Seminário como era a vontade de seu pai, já que os vizinhos o desmotivaram com o argumento de que isso seria impossível por ele ser muito “maroto”. Conseguiu aprender a profissão de alfaiate e até superou as qualidades dos seus mestres mas não gostava dessa actividade e abandonou-a cedo.
“O meu pai queria, de facto que eu fosse estudar para o Seminário com o objectivo de vir a ser padre. E tudo estava preparado para tal. Já tinha a camisa branca e a gravata que então era exigida para o enxoval. Mas desisti da ideia. Ora, não aceitando ingressar no Seminário, a escolha foi a de aprendiz de alfaiate e lá fui eu, primeiro no Sebastião “Mocas” e, a seguir, no Joaquim “Manias”, do Arco de Baúlhe. Estive, mais tarde, três anos no Avelino “Careca”, da Gandarela e acabei no António “Músico” no Arco. Desisti, porém, da profissão por não gostar e porque naqueles tempos de há 30-40 anos se ganhar pouco com a profissão. Resolvi tirar a carta e depois da tropa trabalhei no negócio dos meus falecidos pais. Passando, alguns anos mais tarde, a prestar serviços de condutor.

O desporto faz parte do desenvolvimento

E para finalizar deixou-nos algumas impressões ácerca da sua visão futura do fenómeno desportivo do concelho e do progresso registado nos últimos anos.
“Direi aquilo que todos observamos e sentimos enquanto realidade condicionada e impulsionada por dinâmicas que nós muitas vezes não controlamos. Ou seja, a evolução do futebol regional exige cada vez mais respostas e capacidades humanas e de recursos e meios técnicos e financeiros. As competições federadas requerem já um apetrechamento apreciável dos clubes e uma preparação adequada. É por isso que os nossos clubes regionais têm que, forçosamente, criar a sua autonomia, organizarem-se e autosustentarem-se à sua medida e dimensão. É, para tanto, importante mobilizarem-se os adetos e as populações para se envolverem na instituição que melhor representa a sua terra. Uma outra aposta fulcral é a da formação de jovens futebolistas das nossas terras como investimento de grande rentabilidade desportiva e até financeira para a sustentação económica dos nossos clubes. Esse é, sem dúvida também um desafio para reforçarmos e ampliarmos uma das vertentes do desenvolvimento do concelho de Cabeceiras de Basto que, em termos de equipamentos e infra-estruturas desportivas, é dos melhores da região e, se calhar de todo o distrito de Braga. Três pavilhões gimnodesportivos em Refojos, Arco de Baúlhe e Cavez, vários polivalentes nas freguesias, campos de futebol em locais diversos do município, um Estádio Municipal e duas piscinas são, com efeito, a melhor resposta para a criação de um afectivo progresso sustentado no âmbito do desporto e ocupação dos tempos livres das pessoas. Aproveito para fazer sinceros votos no sentido de que não demore mais tempo a construção do novo campo de jogos do D. Arco de Baúlhe.”

E assim fica registada mais uma conversa, de resto, agradável e muito interessante, com mais um rosto da nossa gente.

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