Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2005

SECÇÃO: Crónica

A MINHA TERRA - XVI

“A Igreja Católica pode ser criticada pelas suas falhas”. – Papa Bento XVI, Homilia em Colónia.
“Eu só conheço duas espécies de padres: os que acreditam naquilo que dizem e naquilo que fazem; e os outros”. – D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal, RTP, Programa “Parabéns”.
Mercê de uma posição geográfica, climática e morfológica, entre os contrafortes de Trás-os-Montes e as planuras e vales minhotos, Cabeceiras de Basto manteve-se ao longo dos tempos, devido também ao isolamento praticamente total, por via da falta de meios de comunicação e de transportes, sendo os principais os carros de cavalo e de bois, a mula ou o pedis calcantibus, num gregarismo comunitário de vizinhança de fogos ou de povoados dispersos, de um gregarismo de auto-suficiência económica e material. Aldeias próximas dos vales isoladas nas montanhas propiciaram tradições e costumes ancestrais, como a vezeira, o especifismo dos mortórios (funerais), e um manancial de lendas, contos populares, contarelos, racontos e lenga-lengas, desgarradas (cantares ao desafio), jogos tradicionais, em que avultava o chinquilho, a malha, o do galo e o jogo-do-pau. Os casamentos realizavam-se em função da junção de casas de lavoura e aumento da propriedade agrícola. As lavradeiras, como eram chamadas, tinham de se sujeitar mais aos ditames das famílias interessadas, do que aos da empatia e aos do amor. Os lavradores desejavam nos seus lares muitos filhos e netos que, naquele tempo, eram a grande mão-de-obra das terras, matos e cerros, pois quase não havia migração e emigração. O analfabetismo atingia índices assustadores. A escola era apenas para os grandes morgados ou filhos-família das casas solarengas.
Dos costumes, e só para dar um exemplo, ressalta o da Semana Santa, em que as igrejas se cobriam de crepes e de luto. O povo fazia os jejuns e sacrifícios recomendados pela religião, mas iam muito mais além. Diziam que no dia da Morte do Senhor nem os passarinhos mexiam com as pedrinhas dos ninhos. Havia mulheres, sobretudo as mulheres mais devotas, que na hora do trespasse do Senhor (três horas da tarde de Quinta-Feira), mascavam folhas verdes das oliveiras, amargas, amarguíssimas, como se sabe.
Casos de “homem morto” assinalados por uma cruz negra no sítio onde fora assassinado, pespontavam as quelhas e carreiros dos montes, sítios isolados.
As festas e romarias abundavam durante todo o Verão, alegres, vivas, estrídulas e culminavam com a Grande Feira Franca de S. Miguel. Havia rixas, barulhos, zaragatas, pauladas, sangue a escorrer e até mortes.
A Festa das Papas, ora em Gondiães, ora no Samão, é a única que se vai mantendo no seu vigor, pois decorre, crê-se, de uma promessa feita pelos respectivos povoados da serra, na Idade Média, quando uma grande peste assolou estes povos da montanha. Então esses avoengos recorreram a S. Sebastião para os livrar da doença que atingira os humanos e os próprios animais.
Lagares, azenhas, moinhos, casas agrícolas, grandes espigueiros, solares recheados de boas mobílias da Índia e do Brasil pespontam toda esta larga e farta região.
O vestuário, desde os trajares de linho, aos capotes e croças, se recolhido, daria um belíssimo museu rural.
Socos, tamancos, chinelas, capuchas, meotes de lá merina, meias escuras acima do tornozelo, a cobrir a barriga das pernas, no verão, para proteger a pele (pele branca nas mulheres era sinal de beleza e de pureza) e, no inverno, para as proteger do frio e das “murras” provocadas pelo calor intenso das lareiras.
Aliás, a cozinha era o espaço por excelência da casa de lavoura, pois era nesta quadra larga e ampla da casa que se passava a maior parte do tempo de cada família, sendo as alcovas apertadas, apenas para dormir.
Na cozinha se preparava, além das refeições em potes grandes de ferro ao lume, os chouriços, os presuntos, os salpicões, as chouriças farinhentas e as chouriças de sangue. Parte das ferramentas agrícolas de mais préstimo e necessidade eram penduradas nas paredes, como os cutelos, os serrotes, os machados, as cordas, os martelos e as tesouras da poda.
Esta terra recebeu também os efeitos dos brasileiros de torna-viagem e aqui e ali ainda ressaltam os chalés.
As canções genuínas das nossas fainas agro-pastoris ecoavam pelos campos e pelas encostas dos montes. Havia-as para a apanha da azeitona, para as ceifas, malhadas, lagaradas, espadeladas e tantas outras.
As levadas de rega, comunitárias, o usufruto dos baldios, o ciclo da lã, o ciclo do linho, de uma técnica e beleza artesanal, encantavam e ainda despertam saudades nos mais velhos.
O artesanato era vincado. A latoaria, a tanoaria, a tamancaria, a cestaria, e as indústrias caseiras tipicamente rurais eram o entretém do nosso povo.
Os moleiros de porta em porta, de aldeia em aldeia, bifurcados nos seus machinhos, iam e vinham de trazer farinha e levar o grão.
Os homens do campo guiavam-se pelo “Seringador” e pelo “Borda d’Água” que compravam nas banquetas das feiras também, e sobretudo, pelas “têmporas” e pela “lua”, e direcção dos ventos e das nuvens, razão porque muitas casas ainda mantêm os cata-ventos.
O culto dos mortos, o amor à terra dos seus antepassados, o apego às heranças em oiro, arcas e arcas atulhadas de linho, o sentido sacrificial da vida, a ideia sentida da Eternidade, o respeito pelo valor do dinheiro, o conceito do trabalho – “ganharás o pão com o suor do teu rosto” – a honestidade, a palavra dada que tinha de ser cumprida, o carinho para com os “velhos”, o sentido de vizinhança, o apego à qualidade e defesa do meio ambiente, sem serem ambientalistas oficializados, a resistência às modas e às maneiras citadinas, o aborto, o divórcio, o adultério e a mancebia ainda constituíam um escândalo.
Este povo que passou pelo deserto da carência e da fome, esquecido por todas as entidades políticas e para-políticas e administrativas conseguiu começar a libertar-se pelo surto da emigração clandestina e também pela atracção de melhor vida nos grandes centros, especialmente Porto e Lisboa.
Os filhos e os netos vivem espalhados pelas sete quintas do mundo, “a grande diáspora”, mas muitos dos pais, quando podem, regressam à sua ribeira, como o passarinho fiel que voou por outras paragens.

Por: Alexandre Vaz

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