Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2005

SECÇÃO: Crónica

As últimas resistentes da Raposeira

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Adelina "Jóia" e Miquinhas "Revolta"

Queridos leitores, penso que já perceberam através das minhas singelas crónicas, que tenho uma predisposição para a nostalgia e as saudades.
E estes estados de espírito acentuam-se principalmente quando estou mais sensível, angustiada e sou atingida por alguma tristeza recente, quer a nível pessoal ou até mesmo por desgraças que atingem a Humanidade como por exemplo os”tsunamis”, furacões, ciclones e as cheias, deixando de luto vários países.
Hoje estou num desses momentos! Aproxima-se o Inverno, a paisagem começa a modificar, as folhas das árvores tingem-se de tons amarelos e acobreados carregados, os dias tornam-se mais escuros e mais pequenos. Ao sentar-me na minha secretária observo através da janela que continua a chover (o que já não acontecia há muito tempo) e o meu pensamento vai todos os dias, como não podia deixar de ser até à Raposeira, cada vez com mais tristeza, infelizmente. Mas mais alguém falta lá! Uma falta inesperada, a minha mãe Isaura. Também foi surpresa a morte repentina do senhor Carlos Marques, mais conhecido como “Carlos Padeiro”, que habitava na mesma rua.
Mas ao mesmo tempo que estas tristes lembranças me passam pela memória, penso também em duas resistentes (felizmente ainda vivas) com as quais convivia na minha juventude e que ainda hoje continuamos a ver-nos de vez em quando.
São elas a Miquinhas “Revolta”, viúva do conhecidíssimo e estimado António “Revolta”, cobrador de profissão, e também colaborador durante muito tempo da nossa paróquia de Refojos, em especial com o Arcipreste Francisco Barreto.
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A senhora Adelina Marques (Jóia), viúva do também conhecido David Machado, que era um artista nos trabalhos de cantaria, o qual fez muitas obras importantes em pedra em Cabeceiras de Basto, no concelho de Vieira do Minho e outros.
Mas continuando a escrever sobre estas duas senhoras vou contar-vos um segredo do qual não se deve falar. Aqui só para nós que ninguém nos está a ouvir. Elas fizeram 89 anos há poucos dias e com pouca diferença uma da outra. E digo-vos uma coisa: tomaram muitas mulheres mais jovens, e eu incluída, ter a pele da cara tão bonita como a delas! E sabem outra coisa? A Miquinhas tem 10 filhos e a Adelina tem 12. Todos vivos, graças a Deus.
Digo-vos de verdade, nas vezes que escrevi sobre a Raposeira em que dizia que os rapazes e as raparigas eram os mais bonitos da freguesia de Refojos não estava a exagerar. Eram mesmo umas estampas! Ouvi algumas vezes a senhora Adelina referindo-se aos seus filhos como:
- “Os meus filhos são umas flores” comentava ela orgulhosamente. Eu a brincar respondi-lhe algumas vezes:
-”Também pudera, com uma mãe que é uma “Jóia”!
Duas mulheres mexidas, trabalhadeiras que possuíam artes que poucas mulheres daquele tempo tinham. A Miquinhas era muito briosa na sua casa e principalmente do brilho do chão. Exigia a roupa bem passada, a cozinha bem arrumada e as escadas de madeira bem esfregadas com uma escova de “piassaba” e sabão amarelo. Se não fosse assim, era sermão na certa. Todos os seus dez filhos tinham tarefas destinadas. Mas além da casa, a Miquinhas sabia fazer flores em papel, costurar, por vezes ajudava a sua filha Aida na costura, também bordava muito bem e fazia umas bainhas tecidas nas almofadas com linhas de carrinho branco grosso, muito usado naquela época para cozer as calças de “cotim” dos homens. Além destes e doutros predicados tinha uma aptidão para a leitura. Adorava ouvir folhetins, ler fotonovelas e romances. Ainda me lembro de ela me descrever os tão famosos romances “Amor de Perdição” e “Rosa do Adro”.
A senhora Adelina também ela muito boa dona de casa, sabia de costura, gostava e ainda gosta imenso da vida do campo e dos quintais e, principalmente, tinha umas mãos para a cozinha que nem vos conto! Cozinhou para muitos casamentos e baptizados. Era e ainda é uma pessoa sem “papas na língua”, continua “dando ordens” e possui uma memória incrível da qual se orgulha.
Apesar da dificuldade em andar a pé, esforça-se em descer as suas escadas e vir tirar “duas de letra” na varanda da minha irmã Conceição.
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Esteve muitos anos em Lisboa mas, Cabeceiras de Basto e, principalmente, o seu cantinho no largo da Raposeira, é o sítio no qual ela sempre quis viver. Como ainda hoje vive.
Como eu gostava de as ouvir contar histórias... Para isso acontecer também tinham que estar bem dispostas e que a “filharada” não lhes pussesse os "cabelos em pé". Quando a coisa corria para o torto até eu levava por tabela no responso, pois gostava de conviver com as filhas mais novas que têm a minha idade, por conseguinte estorvava-as de fazerem as actividades marcadas pelas duas mães.
Elas as duas, como outras daquele tempo, tiveram uma vida dura para educar tantos filhos. Mas tinham uma mão férrea para ter mão em tantos filhos. Quando qualquer uma delas chamasse pelos filhos e a sua cara não estivesse bem disposta já se sabia que havia história.
Mas esses tempos passaram e é bom recordar mesmo que a vida nem sempre tenha sido um mar de rosas. Eu, apesar do desaparecimento de quase todos os “antigos” da Raposeira, incluindo os meus entes queridos que tão cedo partiram, é com alegria que escrevo sobre alguém que ainda está vivo. E estará por muito tempo se Deus assim o permitir.

Por: Fernanda Carneiro

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