Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2005

SECÇÃO: A nossa gente

Ana Isabel Gonçalves Pereira Carvalho
A arte de bem cavalgar toda a sela

Nascida em Refojos há 17 anos, aluna distinta no Externato de S. Miguel de Refojos onde frequenta o 12º Ano de Ciências, Ana Isabel Gonçalves Pereira Carvalho é já uma apreciada cavaleira que integra a Escola do Centro Hípico e Turístico do Vale do Sousa, localizada em Lousada.
Participando numa equipa daquela escola equestre, a sua figura deu nas vistas no espectáculo nocturno recente, promovido no âmbito das Festas de S. Miguel de Cabeceiras de Basto ao qual o público acorreu em grande número.
Monta um cavalo de raça lusitana desde os 11 anos, altura em que se iniciou na chamada Alta Escola ou Equitação Académica, por influência de seu pai, um conhecido Magistrado da nossa terra, que tem uma paixão invulgar por cavalos desde menino.
Ao princípio viu-se confrontada com algum receio natural e também com o medo de cair da montada, mas aos poucos lá se foi adaptando a tal ponto de ter hoje um grande prazer e um gosto enorme em andar de cavalo.
“O gosto pelos cavalos nasce de facto, pela mão do meu pai que aos 8 anos já me levava com ele para os cavalos. Mas foi aos 11 anos que me iniciou neste desporto.
Comecei a fazer equitação no Centro Hípico de Lousada ao longo dos meses com treinos semanais sem nunca ter parado até agora. Esta modalidade requer muita dedicação, paciência e gosto.”

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A Alta Escola é ciência e arte

Pouco expansiva, mas visivelmente compenetrada das suas responsabilidades de estudante aplicada, que sabe distinguir do seu “hoby” preferido, assinala para o nosso jornal.
“Uma vez por semana desloco-me à escola de equitação onde geralmente tenho uma hora de preparação. No princípio quando me iniciei na actividade o cavalo era conduzido por uma guia, mas com o tempo e o treino fui-me adaptando a montar e a exercitar sozinha no Picadeiro.”
Questionada sobre as dificuldades e as exigências do treino, a Ana Isabel explica.
“O treino é progressivo e umas vezes corre bem e outras nem por isso. O cavalo que monto pertence à escola e nem sempre é o mesmo. Nos exercícios que pratico no período das aulas, juntamente com os outros colegas, dedico especial atenção aos três passos mais conhecidos, o trote, o passo travado e o galope. Convém não esquecer que a Alta Escola comporta não só o aspecto artístico, mas também o científico. É, deste modo, que na equitação da escola seja necessário estudar os problemas de locomoção e a intervenção dos diversos músculos e articulações que o cavalo põe em jogo nos seus andamentos naturais.”

O talento de saber montar

Os manuais de especialidade afirmam que o cavaleiro adquire um valor artístico, não só pela aprendizagem que faz mas, igualmente, através de um talento próprio o que, por vezes, não se explica.
“Eu considero a equitação da Alta Escola como um desporto qualquer, relaxante sem perigos e que descontrai, mas que é, simultaneamente, de inteligência. E isto porque do cavalo e do cavaleiro têm que resultar um conjunto coordenado, sincronizado e de quase intimidade entre ambos.”
A expressão “rassembler” ou reunir significa na gíria da Alta Escola a forma correcta e mais tradicional de cavaleiro e cavalo mostrarem o seu equilíbrio científico-artístico, possibilitando, por isso, os ares, os lances e os movimentos espectaculares desta modalidade equestre.
“Este desporto tem, na verdade, uma componente artística excepcional, de beleza estética relevante. Eu considero apaixonante estarmos em cima do cavalo e fazer com que ele obedeça às nossas ordens e indicações por forma a que se movimente e produza os exercícios para que foi treinado. È praticamente inexplicável como isso se consegue e até dá a impressão que os cavalos têm “personalidade” ao articularem com os cavaleiros os movimentos que pretendem fazer.”

Cavalo e cavaleiro reunidos numa só entidade

O “passo espanhol”, o “piaffé”, a “passage”, a “cabriola”ou a “pirueta” são algumas das habilidades que os cavalos são capazes de fazer num espectáculo da Alta Escola. Só que todos esses movimentos requintados têm no cavaleiro o comando e a coordenação dessa espécie de reportório.
“Conseguimos, com muito treino, tirar partido dos recursos do cavalo, através de uma série de toques com as pernas, com as esporas ou com as rédeas. É preciso alcançar uma coordenação quase psicológica entre aquilo que pretendemos que o cavalo faça e aquilo para que está preparado. Só assim é possível obter boas “performances” com lances e movimentos do agrado das pessoas.”
Vestida com os “trajes de luces” a Ana Isabel tem uma vaidade especial quando desfila com a sua escola sempre que sai para os espectáculos.
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“Não sou muito vaidosa. Mas que gosto de me ver vestida com o traje antigo de cavaleiro lá isso gosto. Também aprecio os aplausos do público quando os espectáculos correm bem. Já estive em Espanha, próximo de Santiago de Compostela, em Barcelos, Vila Real e na Golegã. Espero ainda deslocar-me a muitas outras localidades para mostrar e divulgar a Alta Escola equestre.”

Centro Hípico de Cabeceiras vai atrair praticantes

Jovem estudante a caminho da Universidade, talvez tentando um curso de Saúde, não pensa, por causa disso, desistir dos cavalos e da Alta Escola.
“Sim. Penso que vou conseguir conciliar os estudos com a prática desta modalidade interessante e que me fascina. Aliás, a minha única irmã, que só tem 10 anos, também já se iniciou na prática equestre pelo que esse é mais um motivo para que eu continue. É curioso que há muita gente jovem a entrar para as escolas de equitação espalhadas pelo país o que quer dizer que se trata de desporto em expansão.”
O Centro Hípico de Cabeceiras de Basto, em fase de conclusão, em Vinha de Mouros, poderá potenciar, certamente, muitos adeptos e muitos praticantes da “arte de bem cavalar toda a sela” de toda a região. A nossa entrevistada corrobora essa opinião.
“Não tenho dúvidas que quando estiver pronto o nosso Centro Hípico, haverá muitos mais praticantes de equitação em Cabeceiras de Basto e até nos concelhos vizinhos. Temos uma grande tradição cavalar e há muita gente que gosta de cavalos. Com o tempo poderemos ter aqui em Cabeceiras várias modalidades de equitação como sejam a equitação de tiro, de corrida, de obstáculos e de pólo, para além da equitação académica que é a que eu faço.”

Juventude desperta para o futuro

Consciente de que o futuro vai exigir muito dos jovens, mostra-se, contudo, optimista e cheia de esperança na conquista de um mundo novo.
“Julgo que a juventude tem sofrido nos últimos anos uma evolução positiva, quer nos comportamentos quer na atitude perante a vida. Os jovens de hoje estão muito melhor preparados para enfrentar as adversidades, os riscos e os desafios que se lhes colocam pela frente. Mesmo no nosso meio eu sinto isso. Para além de não conhecer nenhum amigo ou amiga com comportamentos desviantes, vejo em todos um grande empenho e entusiasmo na defesa dos princípios essenciais da vida, da integração sócio-profissional e da participação cívica.”

Aqui fica mais um retrato e uma mensagem, desta vez de uma figura jovem da “nossa gente” que, um pouco por todo o lado e em variadíssimas posições ou profissões é a matriz e a riqueza maior da nossa terra.

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