Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2005

SECÇÃO: Opinião

A MINHA TERRA – XIII

Recordando todos os cabeceirenses que tombaram na Guerra Colonial, em especial o meu antigo e saudoso aluno José Alberto Fazenda Machado
Ser português não é para todos. Não é fácil sobreviver a oitocentos anos de alma demolhada no mar, suspirando fados suicidas e a uma História com mais coitos interruptus que alegrias colectivas. Sempre à espera – umas vezes do D. Sebastião, outras de beijar uma gloriosa taça de futebol e mais umas tantas barrigadas de política; e que, ainda um pouco recentemente, teve de receber a herança do Império – os africanos.
Somos um país a preto-e-branco, sem olhos e sem boca, dos vencidos do catolicismo secular, que não sabem já donde mana a luz, um país incapaz de inventar a sua própria história e o seu próprio futuro.
Desde há séculos que nós gostamos de nos humilhar e apoucar. Toda a gente sabe que este país é obtuso, atávico, masoquista, trapalhão, pindérico, preguiçoso, saloio e atrasado. Um lago morto. Uma árvore nua. Uma vela apagada. Sem chave para abrir a porta. Mas ninguém faz caso. Onde estão os amanhãs que cantam e as epifanias da revolução? É uma triste sina.
Os pobres de antigamente não eram gente humilde, mas humilhados, eram príncipes, valentes, corajosos. Os ricos-homens e os filhos-de-algo, alguns filhos da mãe, no fundo, eram uns tímidos, uns tristes, uns mimados, uns medrosos, uns cobardes.
Numa madrugada de domingo, tantos de Outubro, quando o meu irmão, durante a sua permanência em África foi, como furriel enfermeiro, para o Norte de Moçambique, a última camioneta da coluna levava a caixa fechada. Á noite, olhando com alguns companheiros o céu, descobriu, além das estrelas, muitas bruxas de vários feitios e roupagens, e vislumbrou, ao longe, no luzeiro do luar africano, uma mulher nua, negra, esparramada no capim roçado, com os penduricalhos das mamas caídas e com fetiches nos bicos e fetiches também no umbigo. Um frio medular sacudiu os ossos dos combatentes, sobre a matina, os combatentes a jogar a cabra-cega, no mato, com os “turras”, quase invisíveis.
- Não olhem, mais de metade das mulheres que há no mundo andam sem roupa, à moda de Adão e Eva, sem folhas de parra, com tudo ao léu. No tempo do Negus era bem pior… selvagens quase antropófagos, que se recusavam às delícias do progresso, em nome de uma independência que datava desde Salomão e da Rainha do Sabá.
Os soldados da companhia tinham vindo quase da gleba, fugitivos do arado e empurrados para as plagas africanas.
O capelão acreditava pouco naquela guerra e em Deus, salvo seja.
- No Continente não sabem (desta guerra) a missa a metade, porque os jornais, a Emissora Nacional e a têvê estão, censoriamente, proibidos de fazê-lo.
Mas o meu irmão foi também espreitar a última camioneta da coluna que levava a caixa fechada, levantando o oleado: transportava caixões. Isto tudo à socapa. Os caixões da estupidez humana. Como se destinavam aos “heróis” eram caixões baratos. Punha-se a gravata e um blusão aos rapazes, antes tombados e encharcados em sangue, e metiam-nos terra a baixo para falarem da Pátria aos vermes, enquanto no soberbo Terreiro do Paço, cheio que nem um ovo, as “mães de Portugal” davam vivas a Salazar que sorria e esfregava as mãos.
Ao meu irmão gravou-se de tal sorte esta imagem que, às vezes, num sinal vermelho, parecia-lhe que o último automóvel da fila, que procurava descobrir no espelho retrovisor, trazia os tais caixões. E durante toda a sua vida, quando isso acontecia, não tinha bem a certeza se ainda os descortinava.
Nunca levantem a lona de uma camioneta para não darem de caras com o vosso caixão – dizia. E acrescentava: Nesses momentos, algumas lágrimas inesperadas – que não são de tristeza nem de alegria – podem jorrar. Isso é um dom. Essas lágrimas estão lavando a alma. Ditosa a hora em que Cristo chama das lágrimas para o gozo do espírito, porque depois do inverno vem o verão, depois da noite volta o dia e depois da tempestada vem a bonança, sobretudo para quem ama a Deus, e não o mundo, nem as coisas do mundo, no gozo do Criador e da criatura, da eternidade e do tempo, da luz incriada, e da luz participada.
Apesar de tudo, apesar desta merda de mundo, eu gosto de algumas pessoas, poucas, de alguns lugares, de alguns livros, de algumas melodias, não odeio ninguém, não tenho inveja de ninguém, talvez de mim próprio, não por ser bom rapaz mas por não ter vagar. A vida, realmente, preocupa-me e absorve-me.

NOTA – No estado em que está o mundo, em que estão os governos e as suas leis, em que estão muitos aspectos da vida da Igreja, precisamos de assumir a denúncia profética. (…) Precisamos de ter coragem para tocar com o dedo nas feridas. (…) há o perigo, como diz o Evangelho, de cairmos todos no barranco. De facto o perigo de cairmos é enorme. (…) Vamos lançar-nos, com humildade, na denúncia profética ou vamos continuar calados, com medo e sem o fogo do Espírito? O mundo e a Igreja precisam da denúncia profética. Doa a quem doer. Custe o que custar… (Padre Dário Pedroso, SJ, in “Diário do Minho”, 26 de Junho de 2005).


Nota: Por lapso não foi indicada, no final da última crónica, intitulada MARIA HELENA, a sua autoria, Alexandre Vaz.

Por: Alexandre Vaz

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