Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2005

SECÇÃO: Crónica

Os Mortórios

A Cremação
A incineração dos cadáveres, foi a regra ou dominante nalguns períodos pré-históricos ou, em certas alturas, apenas nalgumas regiões. Assim sucedeu nas Idades do Bronze e do Ferro. A cremação, que se circunscreve apenas a algumas regiões nas primeiras épocas da Idade do Bronze, é o rito predominante no último período da mesma idade. Os ritos funerários também variam na Idade do Ferro, predominando a cremação no terceiro ou último período da segunda fase daquela Idade. A época romana deixou sepulturas de inumação e de cremação. No nosso Portugal há cemitérios luso-romanos dum e doutro tipos. Da Idade do Ferro há necrópoles de incineração como as “campas de urnas” de Alpiarça e a necrópole de Alcácer do Sal, as primeiras atribuídas à época céltica (cf. Mendes Correia, “Urnenfelder” de Alpiarça, no Armário de Prehistória Madrilena, Madrid, 1936) e a última admiravelmente explorada por Vergílio Correia, e correspondente à Idade do Ferro, cerca de 300 anos antes de Cristo. Os autores da antiguidade (Diodoro de Sicília e Apiano), descrevendo os funerais de Viriato, o grande chefe lusitano, dizem que o seu cadáver fora queimado numa grande pira. Era o costume da segunda Idade do Ferro.
A destruição do cadáver de qualquer indivíduo por meio do forno crematório ainda não é de uso corrente no nosso país, onde se usa geralmente o processo de enterramento. Nenhuma norma impede, entretanto, que, por disposição de última vontade por parte do falecido ou por desejos de família, se proceda à cremação do seu cadáver desde que essa cremação possa efectivar-se nas necessárias condições, não como por exemplo na Índia, onde se queimam os cadáveres com uma grande e esbraseante fogueira, como aconteceu com o caso da primeira ministra Indira Ghandi.
A Igreja, logo nos primeiros tempos do cristianismo, condenou e proibiu, entre os seus fiéis, a prática da cremação dos cadáveres ou a sua simples utilização para estudo científico. Segundo o cânone nº 1.240, os cristãos que desejarem a incineração dos seus corpos serão privados de sepulturas eclesiásticas. Hoje este cânone antigo está ultrapassado.
O movimento pró-cremação foi iniciado em 1774 pelo abade Scipion Piattoli, adquirindo logo muitos partidários e provocando acesas discussões. Questões religiosas e políticas metidas no assunto foram, e têm sido, o maior obstáculo à sua divulgação. A Igreja Católica, principalmente, fez grande oposição às campanhas crematistas, que geralmente foram usadas como arma contra a própria Igreja.
O primeiro forno crematório existente em Portugal é o do cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, o qual foi inaugurado em 1925. Nos primeiros tempos o número de cadáveres nele incinerados foi insignificante.
Como nota pessoal seja-me permitido dizer o seguinte:

Quando eu morrer desejo que o meu corpo seja incinerado, metade das cinzas colocadas num pequeno vaso hermético e estanque, pendurado na cabeceira da sepultura de minha filha, ao lado do Cristo, e a outra metade seja espalhada pelos meus netos na relva do Pelourinho, em frente à antiga Cadeia das Pereiras.
(continua)

Por: Alexandre Vaz

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