Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2005

SECÇÃO: A nossa gente

JOSÉ ALBERTO LEITE VILELA

O retratista espontâneo que está em todas

O Bispo estava para chegar e a população apinhava-se junto à Igreja de uma localidade do concelho vizinho de Montalegre. Era o dia do Crisma. Muitos adolescentes, de ambos os sexos da paróquia, preparavam-se para receber o Sacramento da Confirmação. De súbito, por entre uma pequena multidão surge o Zéquinha Vilela de máquina fotográfica em riste e, perante a satisfação geral, diz alto e a bom som: “Ouçam lá, tomem atenção, quando o senhor Bispo vos estiver a fazer a cruz na testa, olhem para mim porque eu vou-vos tirar uma foto.”
“Olhe! Nem queira saber, vendi todas as fotografias e ainda me pediram muitas mais cópias. Gostaram do serviço e depois ganhei ali muitos clientes e amigos.”
É esta figura muito popular, não só no concelho de Cabeceiras de Basto, como também noutras terras limítrofes, que hoje trazemos à estampa nesta rubrica.


Celibatário assumido

José Alberto Leite Vilela, tem 70 anos, é celibatário e vive, desde sempre, com o único irmão, mais velho dois anos e também solteirão. A casa que ambos partilham localiza-se em Chacim, Refojos, Cabeceiras de Basto e denomina-se Quinta de Porto Foz que herdaram dos pais e onde trabalham sem a ajuda de ninguém. A actividade de fotógrafo é exercida praticamente aos fins de semana.
Filho de lavradores apenas concluiu a 4ªclasse, dedicando-se, desde muito jovem, à actividade agrícola e ao cultivo dos seus campos dos quais colhe milho, fruta e hortaliças.
“Já tive gado bovino, mas como agora as posses físicas vão escasseando, principalmente por causa de uma artrose que me limita os movimentos das pernas, só tenho ovelhasm galináceos e coelhos. Aqui na minha quinta não falta nada e tudo é trabalhado por mim e pelo meu irmão com a ajuda do tractor que pertence à propriedade”.


Apaixonado pela fotografia

Apaixonado pela fotografia e pela propriedade à qual se afeiçoou ao longo dos anos, considera-se feliz e “só pede a Deus saúde” para poder tratar de si, já que se tivesse uma mulher em casa as coisas seriam diferentes e “até estaria pior”.
“Não sei explicar porque é que não casei. Nunca quiz e nem sequer pensei nisso. Sem ninguém atrás de mim sinto-me mais livre e assim vivo mais à vontade. Eu sei que o casamento é um jogo e, por isso, preferi ficar solteiro.”
O gosto pela fotografia nasceu tinha ele pouco mais de 20 anos e aconteceu num momento de uma grande realização local, que movimentou, na época, centenas de pessoas e dezenas de carros alegóricos. Tratava-se do grande cortejo de oferendas destinado à angariação de fundos para a construção do Hospital Professor Júlio Henriques de Cabeceiras de Basto, que teve lugar em 18 de Julho de 1960.
“Aquele cortejo impressionou-me fortemente. Os carros decorados e coloridos, as pessoas vestidas à lavrador, muita, muita gente na rua. E eu achava que aquilo tudo devia ser recordado em fotografias, devia ser documentado para mostrar, mais tarde, o espectáculo e todo aquele trabalho feito pelas pessoas de todo o concelho. Lembro-me que, na altura, estava no local apenas um fotógrafo. Ora, eu enchi-me de brios e pedi ao único estúdio fotográfico que havia em Cabeceiras – a Foto Silva- para me deixar colaborar com ele. E assim comecei.”


O medo de criar estúdio próprio

Entusiasmado com o assunto, não se deteve.
“Encantava-me o fascínio da fotografia. Aquilo dava-me cá uma certa força e importância que me permitia outros contactos e entrar num outro mundo de pessoas que até aí me estava vedado.Fazia tudo para que as fotos ficassem bem tiradas. E quando algo corria mal eu voltava a repetir, fazendo muitas viagens a pé”.
Deixou mais tarde a colaboração com o estúdio atrás aludido para continuar a trabalhar por conta própria. Ainda pensou em estabelecer-se, mas teve receio de não lograr obter bons resultados.
“Sabe! As rendas e outras despesas assustaram-me e eu não queria abrir uma loja e fechá-la algum tempo depois. Mas, por outro lado, eu acho que não me dava nem conseguia estar dias inteiros fechado em quatro paredes”.
Isso não obstou, porém, a que conquistasse a simpatida de muitos clientes que vão a sua casa ou lhe telefonam a encomendar-lhe os serviços mais variados.
“Ainda agora continuo a ter pedidos para fazer trabalhos de casamentos, baptizados, comunhões e outros eventos, mesmo sabendo que os profissionais do ramo desta região também aparecem para fazerem o seu trabalho. Com o aparecimento do sistema de reportagem de vídeo as coisas mudaram. Há presentemente muitas pessoas a quererem as fotografias e também o filme e isso eu já não faço”.


A vantagem de aparecer em todo o lado

Trabalhando quase sempre sem agenda ou sem compromissos pré-estabelecidos, o Zéquinha Vilela tem a vantagem de aparecer em festejos, iniciativas ou acontecimentos em locais e circunstâncias que os outros profissionais da fotografia não podem ir ou até desconhecem.
“Essa é, de facto, uma vantagem que eu aproveito. Se souber que ali ou acolá há uma festa, uma procissão, um leilão, uma comunhão ou qualquer manifestação popular, lá estou eu acompanhado da minha máquina. Não é por acaso que sou bem recebido e muito bem tratdo, não só nas terras do concelho de Cabeceiras de Basto, mas também em Cerva, Gandarela, Canedo de Basto, Salto, Canedo de Barroso, Coutro de Dornelas, Vila Grande e Covas”.
Na sua actividaden de fotógrafo é, muitas vezes, visto como um espontâneo retratista de ocasião atendendo a que não possui estúdio próprio, nem laboratório de revelação.
“Sim, mas isso não é importante para mim e para o trabalho que produzo. Tenho a colaboração de uma casa da cidade de Braga onde são feitos todos os trabalhos que solicito. Ali são reveladas as fotos de um dia para o outro, fazem-se as molduras, ampliações, reproduções e álbuns. Chego a entregar os serviços mais depressa que muitos outros fotógrafos profissionais”.


O agricultor fotógrafo

Para além do gosto , sublinha que a fotografia é uma espécie de “bichinho” que está dentro de si e que só desaparecerá quando morrer.
“Não haja dúvida que isto é um vício apaixonante e que só quando não puder é que deixarei de tirar fotografias. Mas não deixo de confirmar que vou ganhando algum dinheiro na actividade. Sempre vai dando para viver melhor. Só o rendimento da minha propriedade não seria suficiente. Felizmente que sou um habilidoso nato e sei fazer um pouco de tudo. Em casa faço de trolha, de carpinteiro e de agricultor”.
Muito cioso das suas coisas, poupado e regrado nos gastos, “porque não se sabe o que será o dia de amanhã”, o Zéquinha de Vilela vê o futuro com alguma apreensão.
“É uma coisa aflitiva o que se passa nos dias de hoje. Gasta-se e consome-se de mais. É tudo à balda. Ninguém faz contas à vida. Já não se poupa como antigamente. Mas o pior de tudo é aquilo que se estraga, aquilo que se perde e se deita fora. Eu fico muitas vezes espantado com o desperdício que se nota por aí. Não sei se vamos pagar todos estes exageros”.


O desperdício é uma coisa ruim

Sobre a terra que lhe serviu de berço, de que gosta muito e da qual se orgulha, não hesita em afirmar “Quem como eu conhece esta terra há décadas nota uma grande diferença. O atraso deu lugar ao progresso e à modernidade. Agora vê-se obra feita em todos os sítios, as pessoas vivem melhor e há mais qualidade. Tudo mudou muito e cresceu o movimento. Há mais construção, há estradas para todo o lado, há equipamentos, há melhores escolas e há mais comércio. Cabeceiras de Basto está a ficar uma grande vila e o concelho já é dos melhores das redondezas”.
Aqui fica mais uma história de vida de uma figura conhecida do nosso povo que, aliando a agricultura à fotografia, lá foi vencendo as agruras da vida, mostrando, acima de tudo, uma coragem e uma habilidade dignas de nota.

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