Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

SECÇÃO: Opinião

O Mosteiro de S. Miguel de Refojos

Celebra-se a 29 de setembro, no calendário católico, o dia de S. Miguel, padroeiro da belíssima Igreja barroca e da paróquia que fica com o seu nome. É a grande referência cultural e simbólica do Município de Cabeceiras de Basto, a par da figura granítica e mítica do venerável Basto.
O Mosteiro e a Igreja que lhe é associada, na evolução que sofreram ao longo dos tempos, representaram o núcleo a partir do qual o concelho se edificou. Aliás, é bem claro que para lá das mudanças e das convulsões políticas e sociais, o complexo monástico beneditino manteve sempre a sua relevância, não passando despercebido ou menorizado nas suas diferentes épocas. Desde logo pela sua importância religiosa, enquanto mediação com a realidade sobrenatural, mais tarde pela imponência da sua Igreja Nova, de traço elegante que se impõe a qualquer observador.
Assumiu várias facetas nas diferentes épocas porque passou. Essencialmente lugar de culto e de oração, transformou-se em estabelecimento de ensino, o Externato de S. Miguel, por onde passaram gerações de estudantes cabeceirenses, bem como sede do poder político municipal.
A sua presença é incontornável na nossa história coletiva e embora não fosse uma condição necessária, a atual candidatura do Mosteiro a Património Cultural da Humanidade pode contribuir para o aprofundamento do conhecimento da história do Mosteiro, como diz a voz da tradição, quer sob o ponto de vista das fontes documentais primárias e secundárias, quer no que concerne a estudos sobre as vivências monacais e a sua influência na organização social local, desde os seus momentos fundacionais na Idade Média, inquestionavelmente no séc. XII, até à construção da Igreja Nova no século XVIII, consagrada no coração do período barroco, fazendo da sua estética particular um dos mais belos exemplares desse período estético, na sua inquestionável valia arquitectónica, mas também pelo valor da sua talha dourada, assente na gramática retabular que saiu das mãos do monge beneditino Frei José de Santo António Vilaça, nesse tempo residente em Refojos.
Não se esgota o merecimento do Mosteiro nos elementos referi-dos. O Cálice de prata dourada de D. Gueda Mendes de 1152, à guarda do Museu Nacional Ma-chado de Castro em Coimbra, sobressai como uma peça magnífica de ourivesaria do período românico, a somar a elementos mais tardios mas importantes, como o belíssimo tecto do Salão Nobre da Câmara Municipal, a Sacristia que renasceu com a componente museológica que hoje alberga ou o belo órgão de tubos que ilumina musicalmente a nave da Igreja de S. Miguel de Refojos, resultado do virtuosismo de Francisco Solla, organeiro galego, provavelmente com oficina em Guimarães, que o concebeu e realizou.
Pessoalmente ficaria muito satisfeito se ao Mosteiro fosse atribuída pela Unesco a classificação de Património da Humanidade, mas em boa verdade, e para mim, não seria essencial para aumentar a importância que desde sempre lhe reconheço como lugar de referência simbólica e identitária, proximidade cultivada entre o temor e a admiração pela sua grandeza, mas igualmente na afeição pelas imagens multisseculares que nos interpelam, pelos vastos corredores de passos agora perdidos, pela ribeira que sinuosamente o delimita, pelo som auspicioso ou tumular dos seus sinos que marcam os dias, os meses e os anos até ao final do nosso tempo.

* Colaborador
Domingos Machado

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