Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

SECÇÃO: Recordar é viver

Feira do S. Miguel reacendeu a tradição

Procissão de S. Miguel na Avenida Francisco Sá Carneiro
Procissão de S. Miguel na Avenida Francisco Sá Carneiro
Caros leitores, chegou ao fim o mês de Setembro, o mês em que se fazem as vindimas, se desfolha o mi-lho, se apanha o feijão e é, ou era, a época onde se faziam os acertos das contas, onde saíam ou entravam novos caseiros. É no mês de Setembro que se realiza a Tradicional Feiras do S. Miguel em que, durante onze dias, tudo ganha vida e movimento nesta maravilhosa Vila de Refojos, neste encantador concelho de Cabeceiras de Basto.
Meus amigos, já muito se escreveu e falou acerca da Feira do S. Miguel até à exaustão mas, não resisto a escrever sempre alguma coisa sobre ela pois, ela é a cultura e tradição imaterial da nossa terra. Os mais antigos do que eu, incluindo os meus avós, pais e ti-as, já nos contavam em casa à lareira, o que era viver esses dias na nossa vila. Ficávamos maravilhados a ouvir sonhando, na esperança de poder estriar um vestidinho de chita ou popeline, ir de figura na procissão (nunca me deixaram ir), de andar nas cadeirinhas (quem se lembra de andar nelas?), onde os bailaricos se faziam por baixo, onde os rapazes aproveitavam para abraçar as namora-das. Era habitual nesses bailaricos, debaixo das cadeirinhas, haver uns desaguisados entre os rapazes (mais dos que vinham de fora) geralmente sempre por causa das cachopas. Iam todos para o posto da Guarda Nacional Republicana que já estava preveni-da e habituada a estas barafundas e tira - teimas. Eu era pequena mas ouvia isso tudo! As minhas tias que eram muito alegres e moravam perto, ali na Boavista, levavam-me com elas e eu apreciava aquelas voltas acima e abaixo no Campo do Seco. Apreciava as barracas onde se vendiam brinquedos. Bonecas de plástico enfeitadas com vesti-dos de esponja, que se desmanchava toda, carrinhos feitos totalmente em madeira, como rodas, com campainhas a tocar, enfim, um sem número de coisas que eu e os meus irmãos olhávamos para elas an-siosamente e sem espe-rança de receber alguma coisa.
Presidente da União de Freguesias de Refojos,  Outeiro e Painzela participou no cortejo
Presidente da União de Freguesias de Refojos, Outeiro e Painzela participou no cortejo
Como as festas começavam no dia vinte com a feira cavalar, onde se negociava a compra e venda dos cavalos e burros, muitos dos donos desses animais já vinham no dia dezanove para instalar os seus animais nos sítios costumeiros. Um que conheci bem, o senhor José de Celeirô, vinha sempre à feira montado num cavalo, com os outros a trotar atrás dele em fila quando passava à Raposeira. Um desses sítios que eu me lembre era na conhecidíssima “Pensão Gervásio Fernandes”, no Campo do Seco. A pensão, além de alojar as pessoas na sua hospedaria, também tinha umas cortes para recolher esses animais nos dias dos cavalos. Isto tenho na memória mas, se eu estiver errada, a família, que respeito muito, me corrigirá.
Devo dizer, que as cor-ridas que eu mais apreciava eram sem dúvida alguma a dos jericos. Era gargalhada pegada de toda a multidão. Muitas das vezes os donos tinham quase de levar os burrinhos às costas ou empurrá-los até ao fim, quase sempre fugiam em sentido contrário.
Figurinos da União de Freguesias de Refojos,  Outeiro e Painzela
Figurinos da União de Freguesias de Refojos, Outeiro e Painzela
A feira era muito “aconchegadinha” no recinto do Campo do Seco, onde era colocada a instalação sonora do “Salsinha de Alvite”, quer houvesse cor-rente eléctrica ou não. Durante a feira e, em dias importantes, (não havia artistas todos os dias co-mo nos tempos de agora) o “Salsinha” dos altifalantes, fazia publicidade ao comércio local. Uma contrapartida que os comerciantes faziam ao ajudarem nos festejos. Fora disso o “Salsinha” de Alvite dedicava-se a cortar cabelos indo de por-ta em porta com o estojo das tesouras, escovas, pedra “desinfectante”, lâminas para barbear e sabão para ensaboar. Digo isto porque foi muitas vezes a minha casa, na Raposeira cortar o cabelo aos meus irmãos mais velhos. Os mais no-vos escaparam se não, tinham de levar o corte da “tigela”…
Voltando ao assunto da Feira do S. Miguel, não poderia deixar de repetir mais uma vez, para dizer que, uma feira anual como esta não podia passar sem as barracas populares dos comes e bebes, dos saudosos “Alfredo Fidalgo” e do “Beiço Rachado”. Havia outros mas, sinceramente, não me lembro. A barraca do senhor Alfredo “Fidalgo” era um “lar” durante aqueles dias movimentados. Estou a “vê-lo” de mangas arregaçadas, de faca e cutelo a desmanchar as carnes, a separar os “ossos da suã ” para as mulheres cozinharem com couves e feijão. Naquele tempo, não é como agora, muita fartura de carne e peixe e, só de olhar para aquelas tirinhas de entrecosto, as febrinhas, os pés de porco, as costeletas acompanhadas da broa caseira cozida no forno a lenha e a pinguinha do ver-de tinto a sair da pipa ser-vida em canecas de pó de pedra, os nossos olhos e olfacto ficavam prisioneiros daquele remoinho. A minha mãe, que Deus tem, no dia vinte e oito levava-nos lá para comermos uma febrinha no pão, pequenina, por-que nós éramos muitos.
Carro alegorico 'Vilela com vida' - Riodouro
Carro alegorico 'Vilela com vida' - Riodouro
Depois era o cafezinho de mistura, feito na chocolateira que os adultos tomavam à noite com um golo de aguardente, iluminados por candeia de petróleo. Durante o dia e, se fizesse calor, aí andavam algumas mulheres com o cântaro forrado de cortiça cheio de água fresca da Fonte de S. João, temperada com açúcar amarelo e folhas de laranjeira, e dizem que levava também, um pouco de aguardente para lhe dar aquele sabor a fresco. E to-dos bebiam do mesmo copo…
Estas são lembranças muito vivas na minha memória dos tempos idos. Ao longo dos anos tudo se foi alterando um pouco com a composição geográfica dos locais das festas, o avançar das tecnologias onde tudo começou a ser monitorizado que veio trazer outra perspectiva neste tempo moderno. Começaram a aparecer outros divertimentos, outros desapareceram (as cadeirinhas, por exemplo) onde há de tudo para todos os gostos. Mas, a essência da tradição está lá! Eu falo por mim.
Com o progresso e, com o embelezamento das nossas ruas e das nossas avenidas, a Feira do S. Miguel teve que se estender para vários lados. A Agro Basto, uma iniciativa muito importante principalmente, para o sector agrícola num lado, os feirantes noutros e os divertimentos no Campo do Seco. Na altura, esta decisão não foi muito bem aceite pelos feirantes fixos que se viram “desviados” para longe dos seus locais normais, mas lá continuaram.
Este ano, a organização das Festas Tradicionais do S. Miguel, chegaram à conclusão, conjuntamente com a opinião de alguns munícipes, que realmente, seria melhor fazer a feira com todos os feirantes no Campo do Seco. Uma notícia que foi muito bem recebida e que mereceu um aplauso dos feirantes e da população em geral. Pelos comentários dos comerciantes deu para perceber que ficaram satisfeitos com a maneira como ficaram colocados. Ajudou muito o transito estar fechado nos dias de maior movimento de pessoas que vinham fazer compras. Os camiões dos divertimentos foram na sua maioria colocados noutro local, o que deu mais visibilidade para dentro do recinto. Gostei e pelos comentários que ouvi, todos acharam o mesmo. Gostei dos grupos que ao toque das concertinas mandavam as suas vozes para o alto desafiando os outros a cantar melhor, das desfolhadas ao som dos Cavaquinhos da Raposeira, do cortejo que, este ano, o tema era os “500 anos do Foral”, do fogo preso, dos artistas. Apesar do tempo não estar nas melhores condições nalguns dias, a maior parte do tempo e até ao fim esteve espectacular. Correu tudo muito bem. Parabéns à Câmara Municipal, à organização das Festas, à Basto Vida e a todos quantos participaram na sua realização tornando-a um sucesso habitual onde as pessoas além de visitarem a Feira, aprovei-taram para estar com a família e os amigos.

Quero ir ao S. Miguel
Tenho medo ao calor
Empresta-me o teu chapéu
Antoninho meu amor!

Refrão

Rapazes e raparigas
Toca a rir, toca a bailar
Esta vida são dois dias
Não vale a pena chorar!

Ai olarai, olarai
Ai olarai, olaraia
Ai olarai, olaraia,
Ólarai, larai, lailaia

Quero ir ao S. Miguel
Uma promessa cumprir
Diz-me lá ó Antoninho
O caminho para ir!

Refrão

“Rapazes e raparigas…”
“Ai olarai, olaraia…”

Cantigas populares, autor desconhecido

* Colaboradora
Fernanda Carneiro



















































































































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