Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-07-2014

SECÇÃO: Opinião

30 – Agosto - 1915 – Quando a carbonária barrosã decretou a extinção da feira de S. Miguel

“O Cabeceirense” de 26 de Abril de 1914 publicava um pequeno artigo em que aduzia as boas razões que aconselhavam a anexação da freguesia barrosã de Salto, pertencente à época ao concelho de Montalegre, ao concelho de Cabeceiras de Basto. Afirmava-se que essa era a vontade de muitos dos habitantes de Salto por muitas e variadas razões que não interessa agora discutir. Parece, no entanto, que por trás desta proposta está a mão do cidadão francês Paul Marijon, director das famosas e ricas minas da Borralha, sitas na área daquela freguesia, muito rendosa.
Este artigo desencadeou uma tempestade, aumentada com a resposta, um tanto cínica, de “O Montalegrense”, periódico da vila de Montalegre, onde se afirmava sobre as intenções da edilidade cabeceirense: “Cabeceiras não quer para lá a freguesia de Salto pelos rendimentos que lhe possa dar! Não, senhores! – Cabeceiras quer a freguesia de Salto, única e simplesmente pelos lindos olhos dos seus habitantes”.
Os dois jornais vão-se lançar numa campanha feroz durante um longo tempo. “O Montalegrense” tem a ajuda de “O Crente de Barroso”. Já o outro periódico cabeceirense da época, o “Eco de Cabeceiras”, vai assobiando para o ar, não deixando de enviar umas “indirectas” ao parceiro da terra.
Artigo vai, artigo vem, argumento daqui, argumento dali, uns insultos mútuos, os dois jornais digladiam-se por muito tempo.
Um deputado algarvio, Augusto José Vieira, eleito por Guimarães, prepara um projecto de lei que apresenta à Câmara de Deputados. Esta aprova-o, decidindo a anexação da freguesia de Salto ao concelho de Cabeceiras.
Cai o Carmo e a Trindade. A população de Salto invade a Vila de Montalegre, armada de machados, foices, espingardas e pistolas. As repartições públicas e os cartórios são arrombados. A documentação respeitante a Salto é lançada para a rua e queimada. Aproveita-se para arrombar a cadeia e libertar uns poucos presos que lá estavam.
Não ficaram por aí.
A 30 de Agosto de 1915 é publicado um edital intitulado “O Povo Barrosão quer e determina para valer como lei” em que declarava extinta para todo o sempre a Feira de S. Miguel, que não fosse permitido que alguém se dirigisse ao local onde a feira funcionava nos anos anteriores, se estabelecia uma “linha carbonária do Rabagão” e criava uma Feira em Montalegre, com a duração de três dias, nos finais do mês de Setembro e que, em honra do Santo, seria também chamada de São Miguel.
Aos incumpridores desta legislação seriam aplicadas as penas do Código da Carbonária Barrosã, sendo extremamente gravoso o parágrafo que dizia: “A merenda será sempre, em todos os casos, confiscada”.
Mas o Senado anulou a decisão da Câmara dos Deputados: a anexação não se verificou, as ofensas foram sendo esquecidas, a feira de São Miguel de Cabeceiras não foi extinta, a de vila de Montalegre pouco durou, os barrosões voltaram à nossa feira e já não cantam:

Ó Cabeceiras de Basto,
Terra da conspiração,
Q’rias fazer a Barroso
O que fizeste à Nação!

* Colaborador
F. Vitor Magalhães

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