Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-07-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (192)
As águas da Quinta do Mosteiro

Antes de tudo, e sem qualquer espécie de rodeio, ou meias palavras, o que eu pretendo, com este texto, é convencer, a quem de direi-to, que faça seguir, ribeiro abaixo, todas as águas que antes eram aproveitadas para rega da quinta, cujos espaços foram urbanizados e deixaram de fazer uso daqueles períodos, dias ou horas, dos caudais de água da levada.
No livro “O Mosteiro de São Miguel de Refojos” da autoria de Geral-do José Amadeu Coelho Dias, mais conhecido por Frei Geraldo, vem publicado, a páginas 210, um importantíssimo documento intitulado “Calendário e regulamento das águas do Mosteiro”.
Aquele documento, que data do ano de 1782, é de leitura e interpretação um pouco difíceis, mas deixa entender, razoavelmente, os termos em que eram utilizadas as águas das quatro levadas que ser-viam a quinta, que eu próprio conheci, e até participei nas limpezas anuais e comunitárias de pelo menos uma delas, por sinal a mais extensa e aquela que tinha maior número de regantes. Essa era a chamada, como vem no referido regulamento, “Levada de Riotruta”.
A levada de Riotruta, a que vou chamar a primeira das quatro, tem o seu início no lugar de Riotrutas, do qual, muito naturalmente, terá retirado o nome. Depois, segue pelo interior da quinta de Conselheiros, descrevendo uma grande curva, atravessa o lugar das Pereiras de Baixo e desce até Lamas. Tinha um primeiro ramal que servia a quinta de Santo Antonino, onde chegava atraves-sando um túnel, tipo mina, que rompe por baixo da cumeada que fica entre os lugares das Pereiras e da Cancela. Um segundo ramal, e este era o que servia a quinta do Mosteiro, tinha o seu inicio no caminho, após a saída da quinta de Conselheiros, e depois, tam-bém por um túnel, tipo mina, passava por baixo do monte do Alto do Pinheiro, terminado o túnel, já próximo do cruzamento dos caminhos, agora estradas, do lugar do Pinheiro, passava através de uma cal por cima da Estrada Nacional 205 e caía, parece-me que, para o interior de um tanque de grandes di-mensões, instalado junto à par-te interior do muro, no seu vér-tice sul poente, ali mesmo à entrada do lugar do Pinheiro.
A segunda, aquela que no regulamento vem referida como “a levada que vai para a Ponte de Pé”, inicia-se um pouco abaixo da Ponte de Madanços, sai pela margem esquerda da ribeira, passa pela parte superior dos quintais dos prédios da ala norte da Praça da República, atravessava o olival, chamado Olival do Cabido, e servia outro grande tanque da denominada Casa da Renda, onde chegava através de um sifão localizado junto ao portão que dava acesso ao casario dos caseiros da quinta. Depois continua, devia regar o campo do sêco, e prosseguia, pelo Quinchoso, para os lados do Herdeiro e da Ponte de Pé, de onde lhe terá também sobre-vindo o nome.
A terceira, a mais curta de todas, e que era única e exclu-sivamente propriedade da quin-ta, nos dias que correm, encon-tra-se totalmente desactivada. Essa passava pelos limites dos quintais dos prédios da ala sul da Praça da República, fazia mover o moinho que se encontrava à entrada daquele campo que era designado por lameiro, regava também aquele, o lameiro, e terminava ali mesmo. O lameiro confinava com as casas dos caseiros onde agora está o palanque do Parque do Mosteiro.
A quarta é aquela a que pretendo fazer referências muito especiais. Toda a gente pode observá-la ainda com alguma exuberância. Essa era, e ainda é, a única que tem o seu início, o seu ponto de tomada de água, dentro dos limites da quinta. No citado regulamento, é denominada como aquela “que vai para Aveleyras, Paredes e Calvellos”. Como toda a gente pode observar também, o seu caudal corre agora escondi-do no subsolo da malha urbana que ocupa a área das antigas vessadas, leiras, campos e lameiros da quinta, dirigindo-se lá para as terras livres que, ao tempo, lhe terão dado o nome de “Aveleiras, Paredes e Calvelos”.
Vamos, então, ao ponto. É preciso, de todo, preservar o bem público, o interesse colecti-vo, os recursos da natureza, em particular os rios, as ribeiras, os montes e as florestas.
A ideia não é exclusivamente minha. Há uns meses atrás, nu-ma tarde de quarta-feira, estando eu exactamente a observar o curso da ribeira, o caudal era ainda razoável, as águas corriam transparentes, o que só por si me dispôs bastante bem, encontrei-me com um amigo que, sem que eu tivesse feito qualquer tipo de observação prévia, disparou o seguinte comentário:
- Por enquanto ainda tem alguma graça, agora quando chegarem os meses de Julho e Agosto…, é uma tristeza…, e a água a perder-se lá para os lados da Pertença…
- Pois é, nos dias em que a água pertencia à quinta, deveria haver alguém responsável que tivesse a seu cargo a obrigação de a cortar e fazê-la seguir ribeira abaixo, ao menos para que os peixes e os perrexis não morres-sem à míngua – respondi eu de pronto.
- É isso mesmo. A Câmara, que negociou a urbanização da área, deve ter ficado com tudo aquilo que não acompanhou os bens vendidos. A água, muito naturalmente, não terá sido incluída em qualquer dos lotes que resultaram do plano de pormenor. Você, que costuma escrever sobre essas coisas, tome lá posição sobre o assunto – desafiou-me esse meu amigo.
- Vou pensar no assunto… - respondi assim como quem remata.
Pensando efectivamente no assunto, dei-me ao cuidado de procurar o contacto com alguém que pudesse dar-me alguns esclarecimentos sobre as anda-das e as tornas das águas daquela levada que parte dali, alguns metros acima do antigo lagar de azeite.
Encontrei-me com o Senhor Francisco Teixeira, filho de um dos caseiros da quinta, que ali nascera e vivera até que a quinta deixou de o ser, passando a ser uma área urbanizada.
Melhor do que qualquer outra pessoa, o Senhor Francisco Teixeira sabe, efectivamente, o regime das águas daquela levada. Os dados que ele me forneceu conferem, no essencial, com tudo o que consta do regulamento que vem impresso no livro da autoria de Frei Geraldo.
Eis o regime de tornas que aquele antigo residente na quinta me transmitiu: Nos meses de Verão, a levada pertencia à Quinta do Mosteiro, semanal-mente, no período que decorria entre o por do sol de Domingo até às quinze horas de terça-feira. Nos meses que não eram de Verão, de Outubro a Junho, a água destinava-se, na sua quase totalidade, à lima dos campos da quinta (lima significa rega permanente). Mantinha-se, porém, durante todo aquele período, chamado de Inverno, a obrigação de deixar seguir para extra muros, um pequeno caudal. Era colocado, no último talhadoiro antes do muro, um aparelho de regulação feito em madeira, que deixava passar um determinado fio de água, esse aparelho chamava-se um “gorente”. No regulamento, a que acima se faz alusão, vem referida a passagem de “água que possa arrastar um bugalho”, deve ser daí que vem a figura do “gorente”.
Com o devido respeito, não resisto à tentação de deixar aqui a sugestão, aos responsáveis pelo governo do Município, de que deveriam tomar as devidas medidas no sentido de que a água, que antes era propriedade da quinta, agora passe, nos mesmos períodos de tempo, a ser deitada a baixo e alimente, com maior caudal, durante aqueles períodos, o ribeiro.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador
José da Costa Oliveira

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