Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (15)

«Junto ao ribeiro, na sua margem esquerda, no enfiamento da esquina sul poente do edifício do mosteiro, e voltada para a alameda. A ideia não poderá ter sido melhor, e vinda de quem veio, não há nada mais a pensar, vou colocá-la à consideração do colégio de ir-mãos …, não tenho qualquer espécie de dúvida de que será votada favoravelmen-te…».
O cavalo estava parado no exacto sítio onde sempre parava de todas as vezes que regressava à sede transportando o abade. O secretário, ao lado e um pouco atrás, a-guardava por ordens, e os quatro abades menores também se encontravam quedos um pouco atrás das duas montadas.
- Então, D. Estêvão, é para descermos? – perguntou o secretário assim a modos de quem acaba de ter uma visão.
- É…, é para descer-mos…, meu querido abade. Peço-vos desculpa, mas estava totalmente absorto. Pensava num assunto bem importante, um conselho que tive a subida honra de receber do nosso querido Rei D. Dinis, logo no se-gundo dia em que connosco conviveu…
- Bem importante deverá ter sido esse conselho Senhor Abade D. Estêvão…
- Sim, sim, meu querido abade. Bem importante, es-se conselho. Muito em breve, reunirei todo o concílio para decidir sobre o seu fundamento. Por agora, entremos e preparemo-nos para o descanso que bem falta nos está a fazer.
- Faça-se como o indicais…
Entraram e recolheram-se.

***

Corriam, como já se sabe, os primeiros dias da estação do Verão do ano de 1307. A ribeira ainda levava um significativo caudal, já que a Primavera tinha sido bastante chuvosa.
O Abade D. Estêvão dirigiu-se, uma vez mais, para o sítio que D. Dinis lhe tinha indica-do como sendo o melhor para a colocação, com o máximo de dignidade, da estátua do guerreiro. Olhava para a água que corria e observava as acrobacias de um pequeno cardume que se movimentava num charco, um pouco mais profundo, a uns vinte metros para jusante da saída das engrenagens do moinho.
«Vai ser amanhã que vou colocar à consideração da comunidade a minha pro-posta sobre a mudança da estátua para este local aqui».
Pensava, uma vez mais, o abade. Agora, voltado para norte e mirando a esquina sul poente do edifício do mosteiro.
Assim fez. Convocou, para o dia seguinte, uma reunião em que deveriam estar presentes todos os sessenta e dois elementos da congregação. A reunião iniciou-se às dez horas na sala grande de reuniões e compareceram todos os irmãos, até dois deles, os mais velhinhos e que já só se levantavam para as refeições e algumas das orações de maior importância religiosa. Aqueles dois mais velhinhos foram amparados e mantiveram-se sentados ao lados dos outros dois mais novos e que tinham feito a viagem até Guimarães aquando da partida do rei D. Dinis depois de ter estado ali no mosteiro.
A certo ponto da assembleia, e quando já se encontrava aprovada a decisão quanto à transferência da estátua para aquele sítio que Sua Majestade o Rei D. Dinis tinha sugerido, houve uma voz que se levantou lá do meio de assembleia. Era um daqueles frades mais dinâmicos, ainda no auge da sua idade, deveria ter quarenta anos, ou até menos, chamava-se Remígio, era o frade Remígio que, levantando-se do seu metro e oitenta de altura, ergueu o braço direito e fez sinal de que pretendia usar da pa-lavra:
- Faça favor, irmão Remígio – anuiu o Abade D. Estêvão.
- Com vossa licença e com o maior respeito, gostaria de, aqui perante toda a comunidade, levantar e uma dúvida e, se me for dado esse privilégio, apresentar uma hipótese de solução.
- Está muito bem, irmão Remígio. Então, e para mantermos uma sequência lógica das coisas, qual é a dúvida?
- Não sei se se poderá chamar dúvida, mas, a verdade é que, penso eu, antes de procedermos à mudança da estátua para um sítio mais digno, deveríamos pensar em atribuir-lhe um nome. Em minha muito modesta opinião, parece não haver grandes dúvidas de que se trata da estátua de um nosso antepassado directo, um guerreiro lusitano, mas, deve ter tido um nome…
- Bom, irmão Remígio, a bom falar, não se trata de uma dúvida. Trata-se, isso sim, de uma certeza. O irmão Remígio acha, tem a certeza, de que a estátua deverá ter um nome…
- Vendo as coisas por esse prisma, sim. Na verdade, eu penso que a estátua deverá, ou deveria, ter um nome.
- Concordo inteiramente com a vossa opinião e, pela nossa parte, a questão resolve-se já.
O Abade D. Estêvão levantou-se de imediato e, dirigindo-se à assembleia, colocou logo à votação. Questionou, quem vota contra à proposta de que a estátua do nosso guerreiro lusitano deverá ser baptizada com um nome que a perpetue e lhe dê dignidade? Ninguém levantou o braço. De seguida, a mesma questão sobre quem se abstinha. De igual modo ninguém levantou o braço. Aprovado por unanimidade, concluiu:
- A sua proposta acaba de ser aprovada por unanimidade, irmão Remígio.
Uma longa e sonora salva de palmas selou a votação.

(Continua)
Por: José do Banido


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