Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2014

SECÇÃO: Opinião

O Luto

“Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença por-
que também nunca sabemos o que é a vida.”
António Lobo Antunes
Geralmente, quando se fala de luto associa-se à morte, como um processo para se ultrapassar a perda de alguém significativo. No entanto, é importante alargar esta visão de que o luto está associado apenas à morte, mas também pode resultar de uma perda funcional (como por exemplo, nas doenças crónicas), como um momento de crise que causa grande sofrimento.
Ora, relativamente ao processo de luto perante a morte de alguém significativo, já os escassos registos ancestrais associam a morte à dor e desilusão. O que se mantem ainda nos dias de hoje, ou melhor, permanece a tentativa dos indivíduos compreenderem a morte, atribuindo-lhe um sentido. Neste caso, recorrem a determinados rituais, associados à noção do espírito ou alma – crença sobre a continuidade da existência (ainda que doutra for-ma) após a morte. O mais comum é o funeral, que tem múltiplas funções, tais como: o reconhecimento público da perda, a despedida, a expressão de emoções, promove a coesão do grupo e ajuda as pessoas em luto a lidarem com as suas incertezas sobre a existência da morte.
Por outro lado, no que se refere ao luto pela perda de capacidades funcionais (como por exemplo, a amputação) é uma crise derivada de alterações físicas, emocionais, comportamentais e sociais. Posto isto, existe uma mudança na vida normal das pessoas, causando limitações no desempenho das obrigações pessoais, profissionais e sociais. Isto porque, no exemplo da amputação, a pessoa sofre alterações no relacionamento com o seu corpo, com o meio circundante, o que consequente-mente proporciona a alteração de comportamentos devido às mudanças ao nível significativo e dos projetos pessoais definidos até ao momento. Nestes casos, o processo de luto do doente surge como uma reação normal pela perda de capacidades físicas, perda de independência, perda de autonomia, papéis sociais, projetos de vida e de intimidade.
Em ambas as situações de luto o impacto da perda pode manifestar-se a vários níveis, podendo apresentar os seguintes sinais ou sintomas: fadiga, alterações do sono, dores (cabeça, costas, musculares), alteração do apetite, vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, falta de ar, hipersensibilidade ao barulho, depressão, ansiedade, hipervigilância, raiva, culpa, solidão, confusão, sensação de irritabilidade, pensamento repetitivo e centrado, desesperança em relação ao futuro, falta de concentração e atenção, alucinações, inquietação, evitar os objetos/situações e isolamento social.
Sendo determinante referir que o luto por vezes pode tornar-se pato-lógico, quando existem distorções, exageros e desvios de um processo de luto adequado. O luto complicado só se distingue do luto não complicado pela intensidade ou duração e não pela descrição das características de apresentação.
Deste modo, conclui-se que o luto faz parte do ciclo vital de quase todo o ser humano, podendo ocorrer em qualquer altura do percurso desenvolvimental atingindo crianças, jovens, adultos e idosos. Sendo importante refletir e salientar que o processo de luto pode resultar de uma morte ou de uma perca de funcionalidade, e nesta pode observar-se o processo de luto do doente paralelo ao processo de luto da família. Nesses processos não existem expressões universais de luto, as respostas à perda são individuais, podendo ser influencia-das por fatores culturais.

*Colaboradora

Ana Sofia Matos

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