Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2014

SECÇÃO: Opinião

Os dias de Portugal

As comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, festejadas na cidade da Guarda, ficaram, este ano, marca-das por dois momentos. O primei-ro, o desfalecimento temporário do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. O segundo, a manifestação ruidosa de professores, aparentemente a pedir pela enésima vez a demissão do governo de Passos Coelho.
Relativamente ao desmaio presidencial, nada a dizer. Todos nós somos demasiadamente humanos e estamos sujeitos às contingências corporais do bem-estar e do mal-estar. Quanto ao direito à manifestação, pouco a dizer, pois vivemos num país livre, onde os cidadãos podem expressar democraticamente os seus pontos de vista. Todavia, talvez uma ou outra reflexão seja necessária, a começar pela insistência em vituperar sistematicamente a legitimidade democrática. Bem sabemos que a democracia não é perfeita, até sabemos que por vezes se alcança o poder dizendo e desdizendo con-soante as oportunidades eleitora-is, mas aproveitar todos os dias, to-dos os momentos para exigir, a ca-da passo, a demissão de todo e qualquer governo, minoritário ou maioritário, da esquerda, da direita ou do centro, desde sempre e para sempre, passa para o domínio do folclórico, do litúrgico, em suma, para a banalização embevecida consigo mesma.
No caso, e conhecendo-se a origem dos protestos, creio mesmo que se trata de uma incompatibilidade, uma incompreensão, um ajuste de contas com a própria história recente de Portugal. Com a ideia de que essa evocação está marca-da pela mancha do aproveitamento nacionalista, para alguns mesmo fascista do Salazarismo.
Contudo, seria difícil a Portugal fugir a esta regra comemorativa, além do mais pela duração da sua história e pela dispersão geográfica da sua presença planetária. A 10 de Junho, por entre outros dias festivos, continua a celebrar-se o Dia de Portugal, agora, também, de Camões e das Comunidades, em democracia, sem esquecer que durante a Ditadura Salazarista celebrava-se para relembrar o Império, ou o que dele restava, e referia-se à raça como elemento de diferenciação nacionalista, sem nunca ter entrado na deriva racista que o arianismo nazi representou, com a proibição expressa e a criminalização brutal de casamentos entre arianos e não-arianos.
Esta suspeita, de não compreender a evolução dos tempos e das mentalidades, parece um sentimento exagerado, e, aliás, não percebe que os processos de manipulação são hoje em dia muito mais subtis e eficazes na era da globalização tecnológica.
Mas, entre aquilo que permanece e aquilo que se modifica, temos que reconhecer que de uma forma genérica quase todas as nações evocam o seu passado, a sua imagem, sobretudo aqueles factos e aquelas personagens considerados edificantes e fundamentais para a existência de um determinado povo.Nem sempre pelos melhores motivos, pois, muitas vezes, ao herói de um lado da barricada corres-ponde um criminoso do outro lado.
Neste caso, as coisas são a-quilo que são e encontramos, com mais ou menos pompa, mais ou menos circunstância, tempos especialmente dedicados às singularidades nacionais. A França come-mora a 14 de julho a célebre Toma-da da Bastilha, símbolo do poder monárquico que a revolução francesa liquidou. Nos Estados Unidos da América do Norte celebra-se o 4 de julho, data em que treze colónias americanas do Império Britânico, em 1776, declararam o fim da relação colonial com Sua Majestade. Em Espanha, o dia da Hispanidad, evocado a 12 de outubro, recorda a chegada de Cristovão Colombo às Américas e os exemplos acumular-se-iam de uma forma interminável.
Estamos, portanto, perante uma realidade que contribui, nem sempre da melhor forma, todos reconhecemos, para criar laços de pertença, sobretudo se as mesmas, na nossa perspetiva, tiverem em vista o respeito pela diversidade histórico-cultural, reconhecendo-se as virtudes, com a consciência dos erros e dasfalhas. E não será por aqui que regressarão os fantasmas do passado.

* Colaborador


Domingos Machado

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