Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2014

SECÇÃO: Opinião

1852 – Refojos – Assalto à Casa da Vila

A Casa da Vila encontra-se no lugar de Soutolongal, expandindo-se as suas propriedades pela zona do antigo Campo do Seco. Era a mais importante da Vila no Séc. XIX. O seu proprietário era Paulino Teixeira Botelho de Sousa, deputado, casado com D. Teresa Emília Lobo de Almeida e Sousa, proprietária da Casa e Quinta de Ranhados, também em S. Miguel de Refojos. O Sr. Paulino era deputado por um partido; automaticamente, tinha inimigos nos outros partidos. Ainda hoje é assim.
Já por esse tempo se realizava a Feira de São Miguel no Campo do Seco e, nessa ocasião, as barracas dos feirantes ocupavam uma parte dos terrenos lavradios da quinta da Casa da Vila. Talvez, para dar sinal de propriedade, o Sr. Paulino Botelho iniciou a construção de um muro. Esta decisão não foi bem aceite pela outra facção partidária e daí surgiu uma enorme zaragata que deu eco na imprensa do Porto e de Braga.
Ora, por essa altura, Camilo residia no Porto e escrevia para um jornal que tinha a sua redacção no rés-do-chão do actual Hotel Paris e aproveitou a notícia para a sua novela "Gracejos que Matam", com inúmeros participantes das Terras de Basto, como João Pacheco, morgado do Vale Escuro no Arco, as suas tias que o idolatravam, o abade de Santa Eulália (paróquia que não consigo identificar), as morgadas velha e nova de Atei e o mau da fita, Álvaro de Abreu. É introduzido na novela outra personagem, Manuel Fialho, feitor duma das quintas de Álvaro de Abreu, que vai dar o final desejado à novela que, julgamos nós, junta factos verídicos à imaginação prodigiosa de Camilo.
Damos voz à prosa de Camilo:

“Por aquele tempo, um cavalheiro de Basto, o Sr. Paulino Teixeira Botelho, murava um terreno lavradio que nos anos anteriores fazia parte da Feira de S. Miguel de Refojos. A política de campanário introduzira a sua garra nesta contenda de propriedade. O povo, acirrado pelos adversários políticos do Sr. Paulino Teixeira, ameaçara derrubar o muro e invadir a propriedade a ferro e fogo. O proprietário, forte do seu direito e bravo de seu natural, aceitou a luva, aguerrilhou criados e caseiros, e avisou as autoridades que tomaria sobre si o desempenho dos deveres que incumbiam aos fiscais da segurança pública.
Os amotinados eram, pela maior parte, jornaleiros, soldados com baixa, a ralé ínfima das aldeias, poucos lavradores e alguns caseiros de casas afidalgadas. Entre estes, sobrepujava na investida e na bravura da excitação um Manuel Fialho, que havia sido lacaio de Álvaro de Abreu, e àquele tempo era seu feitor em duas quintas nas margens do Tâmega. Fora ele quem arremetera primeiro ao muro, e aperrara um bacamarte ao peito de um criado da casa agredida.
Rompeu a espingardaria, menos trovejada que o alarido da multidão. As balas zuniam na ramagem dos castanhais. Milhares de pessoas, de envolta com o gado espavorido, despejavam a feira. O povo inerme açodava com o alarido os combatentes. Dos de fora, alguns caíam feridos, outros baqueavam sob os muros derruídos.
O mais pimpão, Manuel Fialho, caíra atravessado por um pelouro do peito às costas. Acudiram a levantá-lo do chão lamacento alguns dos seus sequazes.”

Nas Vascas da morte, o Fialho confessa o crime, feito a mando de seu patrão Álvaro de Abreu.
Um facto verdadeiro para uma história onde também a imaginação de Camilo – que, diga-se, diz ter sido testemunha de alguns dos factos desta novela – terá aproveitado para uns retoques literários.

* Colaborador

F. Vitor Magalhães

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