Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (15)

- Mudando um pouco de assunto, julgo que deveremos trocar algumas impressões quanto aos termos da partida de Sua Majestade de regresso à capital do Reino…
- Sim, sim, com certeza. Penso que estará tudo tratado com os serviços de diligências que asseguram os transportes que servem estas paragens.
- É, está tudo tratado. Como fora planeado desde o início, Sua Majestade partirá depois de amanhã, por volta do meio-dia. Assim, não haverá necessidade de se levantar muito cedo e poderá preparar-se com a máxima calma, uma vez que, como consta do programa, irá pernoitar a Guimarães. A distância é relativamente curta e eu acompanhá-lo-ei até lá. Acompanhálo-ei neste primeiro dia do seu percurso de regresso a Lisboa. Passará, entretanto, dois dias em Gui-marães, a nossa primeira capital do reino.
- Muito bem e muito obrigado, Abade D. Estêvão. Eu sabia que outra coisa não seria de esperar da vossa parte. Hospitalidade, ami-zade, lealdade…
- Muito obrigado, Majestade, sinto-me deveras honrado…
- A verdade tem que ser dita, Abade…
- Muito obrigado, Majestade.

***

A meio da manhã do segundo dia após aquele longo e agradável passeio pelo couto de Abadim e pelas encostas e regatos da serra da Cabreira, foi servida uma refeição de grande substância com o objectivo de preparar o ilustre visitante para aquela primeira parte do percurso que o levaria até Lisboa.
Esta primeira etapa resumir-se-ia a umas doze léguas, um pouco mais ou menos, que é a distância que separa o Mosteiro de S. Miguel de Refojos do largo da Mumadona, na cidade de Guimarães.
A diligência, formada por dois veículos, cada um deles puxado por duas parelhas de robustos cavalos, animais que pesavam, em média, umas sessenta arrobas, partiu da alameda do Mosteiro quando o sol, reparando-se na abóbada celeste, se encontrava a cerca de uns dez metros do seu ponto mais alto, faltaria pouco mais de uma hora para o meio-dia.
Embora o Rei tivesse feito questão em dispensá-lo de tal esforço, o Abade D. Estêvão insistiu em acompanhar Sua Majestade naquele que era o seu primeiro dia da longa viagem que o levava de regresso à capital.
No veículo da frente, tomram lugar o Rei D. Dinis, o seu ajudante de campo, o Abade D. Estêvão e o secretário deste, quatro passageiros, todos da mais alta responsabilidade para o condutor da composição.
No veículo de trás, seguia todo o pessoal de apoio e de segurança, quatro guardas reais e dois abades menores do Mosteiro de S. Miguel de Refojos. Este segundo veículo levava um bom pedaço de carga a mais que o primeiro, já que os quatro guardas afectos à segurança de Sua Majestade eram gente de peso, eram quatro homens que mediam mais de um metro e oitenta de altura e apresentavam mais de oitenta quilos de peso. Falamos de números per capita.
Nada que fizesse espumar os quatro cavalos que atrelavam o veículo, destes, apenas um pesava mais que toda a carga que seguia em cima, pois que, como já se sabe, cada um deles pesava mais de sessenta arrobas, o equivalente a dez homens de noventa quilos cada um.
A comitiva chegou ao centro da cidade de Guimarães, mais propriamente ao largo da Mumadona, mesmo à tardinha, quase ao por do sol. O percurso entre S. Miguel de Refojos e Guimarães tinha subidas bastante acentuadas e, nas descidas, a estrada, para além de ser bastante estreita, tinha muitas e apertadas curvas, pelo que a velocidade nunca poderia ir muito além da légua horária nas subidas e das duas léguas nas descidas, donde, as doze léguas que separavam Refojos de Guimarães sempre somariam um espaço de tempo entre as oito e as nove horas.
Foi exactamente isso que aconteceu. A viagem, que correu sem qualquer tipo de incidente, durante este primeiro dia, demorou oito horas. Os cuidados com Sua Majestade ficaram, a partir daquele momento, a cargo dos responsáveis pelo Castelo de Guimarães.
Entretanto, D. Estêvão e os seus três companheiros pernoitaram ali até ao dia seguinte, regressando, logo pela manhã, a S. Miguel de Refojos na diligência que fazia a carreira normal entre Guimarães e o Arco de Baúlhe, vinda do Porto e com destino a Chaves.
No Arco, esperavam-no dois frades com aqueles dois cavalos que tinham feito a digressão com Sua Majestada pelo interior da Cabreira e agora transportaram o Abade e o seu secretário. Os quatro frades, os dois que vinham já desde Guimarães, e aqueles dois que tinham descido desde Refojos com os animais para a espera, fizeram o percurso a pé. Nada de especial, qualquer indivíduo, de perfeita saúde, fazia aquele percurso em pouco mais que uma hora. A distância não ia muito além de uma simples légua.
Enquanto fazia aquele curto percurso entre o Arco de Baúlhe e o Mosteiro de S. Miguel de Refojos, montado no seu cavalo, que por sinal era o Basto, o secretário montava o Barroso, o abade D. Estêvão espraiou-se em pensamentos e nem deu pelo tempo nem pelo espaço percorrido.
Chegou ao centro da alameda fronteira ao mosteiro a pensar nas palavras que, dias antes, o Rei D. Dinis lhe tinha dirigido acerca do melhor local para colocar a estátua, daquele guerreiro lusitano, que permanecia lá na beira do caminho, que passava pela crista da colina do interior da quinta.

(Continua)

Por: José do Banido

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