Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2014

SECÇÃO: Entrevista

Carla Lousada: Uma mulher à frente dos destinos do Arco de Baúlhe e Vila Nune

Fisioterapeuta, Presidente da União de Freguesias de Arco de Baúlhe e Vila Nune, revela-nos nesta entrevista, um pouco do seu percurso, seja profissional, seja no campo da intervenção cívica e mais recentemente política.
Natural de Arco de Baúlhe, Carla Lousada gostou sempre muito da sua terra e quando desafiada a liderar a lista do Partido Socialista nas Autárquicas de 2013, de imediato se questionou: “porque não servir a minha terra através da política?” E assim foi. Submeteu-se a votos e o povo do Arco de Baúlhe e de Vila Nune escolheram-na para liderar os destinos deste território até 2017.
Com o Ecos de Basto partilha reflexões sobre a política autárquica, os seus anseios e projetos. Reforçar a democraticidade e envolver as pessoas no progresso do Arco de Baúlhe e de Vila Nune são objetivos de Carla Lousada, uma mulher determinada, de sorriso afável e sincera, que nunca deixou de ser quem é.

Ecos de Basto - Qual o seu percurso escolar?
Carla Lousada - Ai muito complicado, nunca gostei nada da escola…
Mas fui-me adaptando às atividades escolares com bastante dificuldade, até porque inventava sempre uma dor de barriga para a professora me mandar embora para casa, mas depois isso deixou de surtir efeito claro… Mas como era uma criança sociavél, lá me adaptei à nova realidade e lá conclui o ensino básico como qualquer outra criança.
Depois foi sempre uma luta entre mim e a escola! Nunca “morri de amores pela escola”. Estudar sempre foi par mim um grande sacrifício, mas lá fui andando sempre a pedir aos meus pais para me deixarem desistir quando concluísse o 9º ano de escolaridade (imagine lá as minhas aspirações!). É claro que nem pensar, tive que me “fazer aos estudos” e as coisas complicaram-se bem mais quando tive que deixar de ouvir o sino de S. Martinho para ir estudar para o Porto… Aí é que foi a minha “desgraça total”… No 1º ano que fui para o Porto (fazer o 12º ano) não me aguentei e tive que regressar no Natal, com muito custo mas, lá convenci os meus pais que não estava preparada psicologicamen-te para aquela realidade e que para o ano seguinte as coisas já seriam diferentes… Eles é claro, como mãe que hoje sou, entendo que queremos o melhor para os nossos filhos, mas quando vemos que estão a sofrer, o coração por vezes vence a razão, e assim foi, vim embora nas férias do Natal, com a promessa de que iria frequentar o 12º ano na Escola Agrícola de Fermil e depois regressaria ao Porto independentemente do 12º ano concluído ou não. E assim foi, de regresso ao Porto onde permaneci cerca de 9 anos, “que me pareceram 90”, mudei de curso 2 vezes, fiz o 1º ano de gestão de empresas e não gostei. Mudei para engenharia química, foi ainda pior nem o 1º ano consegui concluir. Sempre gostei da área da medicina e lá tentei fisioterapia, aí sim dediquei-me. Gostava. Considero que foi a única etapa da minha vida em que gostei de estudar, fui uma boa aluna e fui fazer estágio ERASMUS para o sul de Espanha. Na altura o meu curso era só bacharelato e só mais tarde 2 anos, abriu a licenciatura e eu logo no 1º ano concorri e consegui entrar, sou das primeiras fisioterapeutas licenciadas em Portugal. Hoje, com muito orgulho, dedico o meu percurso escolar (curso) aos meus QUERIDOS PAIS.
E.B. - Lembra-se da sua primeira professora?
C.L. - Sim, claro que sim! Até consigo, ainda hoje, ”sentir” o seu perfume… Foi a D. Fatinha Vilas, uma grande senhora por quem eu nutro o maior carinho e respeito. Uma excelente profissional, já naquela altura com muita experiência conseguia conciliar rigor e benevolência, que hoje como mãe, admito serem dois fatores essenciais para o início do percurso escolar e intelectual da criança… Por isso mesmo, de mim para a muito estimada D. Fatinha Vilas, o meu sincero muito obrigada.

E.B. - A Carla sempre foi uma jovem ativa. Qual o seu envolvimento na sociedade?
C.L. - É verdade, desde nova gostava de participar nas inicia-tiavas que se organizavam aqui na nossa terra. Fiz parte do grupo coral, fui catequista, fiz parte do Núcleo da Cruz Vermelha do Arco de Baúlhe enquanto socorrista, fiz parte do DAB e pertenci à comissão de festas de Nossa Sra. dos Remédios, desde os meus 12/13 anos estive sempre envolvida ativamente na sociedade da nossa terra.
E.B. - Como acha que era vista pelas pessoas no Arco de Baúlhe, meio em que sempre viveu e também em Vila Nune onde tem origens familiares?
C.L. - Ora bem, no Arco é fácil, era uma pessoa como muitas outras, penso que querida por todas ou quase todas, até porque, fui sempre uma pessoa que não gosta de causar problemas a ninguém. Conhecida por várias gerações, até mesmo pelas diversas atividades em que estive envolvida, e claro também como não podia deixar de falar, pelo meu pai que era uma pessoa que teve durante anos um comércio aqui na terra, de quem muito me orgulho e a quem tudo devo.

E.B. - Licenciou-se em fisioterapia. Gosta da sua profissão? O que a motivou a escolher esta área?
C.L. - Sim, sou fisioterapeuta de profissão e mesmo por apção há quase 20 anos. Gosto do que faço… sempre gostei da área da saúde, do contacto direto com as pessoas e a área da reabilitação, cativou-me, nomeadamente, pelo “reaprender” de coisas tão simples na vida como dar os primeiros passos aos 35 anos de idade… com a emoção do momento e com uma lágrima teimando em cair, vi nesse momento qual é o verdadeiro sentido da vida .

E.B. - Empreendedora, cedo se estabeleceu por conta própria. Como surgiu a oportunidade de criar a sua empresa?
C.L. - Uma vez mais, não posso deixar de falar naquele que fez com que hoje seja a mulher que sou, o meu pai.
Com a vontade que sempre tive em regressar às minhas origens e um concelho carente nesta área, desde logo, o meu pai me incentivou e ajudou a criar a minha própria empresa.

E.B. - Na juventude e durante algum tempo, já adulta, foi simpatizante do PSD. O que a levou a ‘aderir’ ao projeto socialista e a fazer parte da Assembleia de Freguesia do Arco de Baúlhe pelo PS, exercendo o cargo de Presidente no mandato de 2009 a 2013?
C.L. - É verdade, cresci no seio de uma família social democrata, onde o meu pai até se identificava mais com o CDS. Como qualquer jovem que hidolatra o seu pai, sempre me fui identificando com este partido de direita, naquela altura a Aliança Democrática.
Com a entrada do Eng. Joaquim Barreto para a Câmara Municipal, e logo nos seus primeiros anos de mandato, em minha casa ouvi muitas vezes as opiniões divergirem, nomeadamente da parte do meu pai, que dizia: este homem merece todo o respeito e apoio, pois tem feito um grande trabalho, e se conseguir fazer a ponte da Barca, honra tem de ser feita e poderá contar sempre com todo o meu apoio.
As pontes foram feitas e cumpriu como sempre nos habituou, com a sua palavra! Depois, sempre a ver o meu concelho a crescer , acreditei no projeto do PS identificando-me cada vez mais com a sua política. Quando em 2009 me foi lançado o desafio para fazer parte da lista do PS, aceitei, porque tal como já disse acreditava no projeto e por-que não fazer parte dele? Ajudar a nossa terra com o meu contributo, como fiz até então em tantas coletividades em que participei.
Levanto hoje a bandeira do PS, e posso dizer-vos claramente que esta mudança tem um nome: Eng. Joaquim Barreto.

E.B - Nas últimas eleições autárquicas realizadas a 29 de Setembro de 2013 candidatou-se pelo PS à União de Freguesias do Arco de Baúlhe e Vila Nune. Foi candidata e ganhou. O que a levou a ‘dar a cara’ pelo PS na recém- constituída União de Freguesias do Arco de Baúlhe e Vila Nune?
C.L. - Mais um desafio, mais uma etapa vencida! Quando me convidaram para este cargo, achei de imediato que só podia ser brincadeira! Quando finalmente apercebi que era a sério, questionei-me se seria capaz? Eu gosto muito da minha terra, mas será que vou conseguir com que as pessoas não fiquem desiludidas comigo?
Não, porque não dar o meu melhor pela minha terra, pela terra que me viu nascer e crescer, Vila Nune, terra dos meus pais, onde ainda tenho raízes fortes como avós e tios. Vou aceitar o desafio e vou ser candidata à União de Freguesias do Arco de Baúlhe e Vila Nune e vou ganhar as eleições em setembro de 2013! E foi com esta determinação que vesti esta camisola e aqui estou eu.

E.B. - Pela primeira vez na história democrática do Arco de Baúlhe uma mulher assume o cargo de Presidente da Junta. Como se sente nestas funções?
C.L. - Ora bem, de facto sou a primeira mulher a liderar a nossa junta, ou melhor, a União de freguesias de Arco de Baúlhe e Vila Nune. A responsabilidade é grande mas nem por isso me sinto menos capaz do que qualquer homem, até porque tenho uma equipa muito eficaz, competente, organizada e unida, logo tudo se torna mais fácil. No que diz respeito às minhas funções procuro exerce-las o melhor que sei e posso.

E.B. - O que gostaria de ver feito e/ou mudar nos próximos 4 anos no Arco de Baúlhe e em Vila Nune?
C.L. - Com as restrições económicas e o aumento das responsabilidades das autarquias locais, nomeadamente das Juntas de Freguesia, não é possível grandes feitos e/ou mudanças, no entanto, ambiciono alguns propósitos.
No que respeita ao Arco de Baúlhe gostava de ver implementado um projeto de requalificação urbanística da Avenida Capitão Elísio de Azevedo e sua envolvente, veia estruturante da segunda maior vila do concelho, cujas intervenções não têm conseguido resolver problemas de fundo, como o estacionamento em via pública, a circulação de pessoas, e os reflexos que reportam ao nível do comércio local e à vivência “urbana”.
Além disso, considero premente para a vila de Arco de Baúlhe a qualificação e, ambiciosamente, a ampliação do atual Jardim Público, capaz de responder às atuais exigências da população de valorização paisagística e embeleza-mento local, favorecendo a qualificação ambiental e social que se pretende de um exímio espaço urbano.
Numa perspetiva menos centralizada e generalizada a outros espaços de Arco de Baúlhe e a Vila Nune gostaria que problemas como o abastecimento público de água durante o período de Verão fossem colmatados a 100%, assim como a cobertura total da rede de drenagem de águas residuais a todo o território, tratam-se de necessidades básicas que nem sempre é fácil a sua total resolução. A erradicação de problemas sociais que vou gradualmente tomando conhecimento, são situações que me assustam que gostaria de ter capacidade de ajudar no contexto das competências assumidas nesta autarquia local.

E.B. - Quais os principais projetos que tem para estas duas terras e para as suas gentes? Quais as suas expetativas?
C.L. - Apesar da situação económica não ser muito favorável anseio um desenvolvimento que dignifique a Nossa Terra. Não me refiro a grandes obras de carácter megalómano mas de intervenções sustentáveis que favoreçam a qualidade de vida dos cidadãos locais e capaz de aprazer os visitantes.
Como projeto primordial pretendo contribuir para dignificar os espaços públicos existentes favorecendo a manutenção, a conservação de património da freguesia e a limpeza das infraestruturas públicas locais. Num sentido mais lato não é mais do qualificar a paisagem! Pode parecer um projeto pouco ambicioso mas num território vasto e com as limitações atuais a ambição não pode ser desmesurada mas deve ser qualificada.
Além deste, refiro outro projeto para cumprimento neste período, relacionado com a dinamização da vertente turística da freguesia divulgando, sob as mais diversas formas, as tradições, os produtos locais, o património natural e construído disponibilizando num espaço físico concreto, a informação sobre todos os pontos de interesse. A existência de grandes potencialidades e aumento da procura das nossas terras para visitantes suscitou essa importância, que a meu ver carece de um conjunto de atributos de salva-guarda, valorização, fomento e divulgação.
A expetativa de todo o projeto é sentir o dever cumprido!

E.B. - A União de Freguesias é constituída por uma equipa que concilia juventude e experiência. Considera que formam uma boa equipa?
C.L. - Sem dúvida, a nossa experiencia ainda é embrionária mas com a força de vencer faz com que sejamos uma equipa coesa, determinada e acima de tudo, lutadora. Tanto eu como o Carlos Teixeira (secretario) e a Valéria Moura (tesoureira) tentamos desempenhar as nossas funções o melhor que podemos, as tarefas estão bem divididas e pode-se dizer que tenho uma excelente equipa. Tanto a Valéria como o Carlos são de facto os meus pilares, não esquecendo também muitas pessoas que desde o primeiro dia estiveram do nosso lado e nos apoiaram, até porque muitas delas foram e continuam a ser autarcas da nossa freguesia e por isso com bastante mais experiência, que sem dúvida nos ajudam. Não esquecendo o senhor Armando Duro, ex-presidente da Junta de Freguesia do Arco de Baúlhe, pessoa com a qual podemos sempre contar.

E.B. - Volvidos cerca de 7 meses após ter tomado posse, que balanço faz da atividade desenvolvida?
C.L. - Não foi um início fácil, tivemos de começar tudo de novo, pois com a agregação das freguesias tudo teve de ser mudado. Gastamos imenso tempo com burocracias difíceis de ultrapassar que ainda hoje não estão de todo resolvidas.

E.B. - Com a eleição para Presi-dente da União de Freguesia o ritmo de vida da Carla certamente que se alterou. Tem a sua empresa, trabalha na Fundação A J Gomes da Cunha e no Centro Hospitalar do Alto Ave em Cabeceiras de Basto. Como concilia atualmente a vida pessoal, profissional e política?
C.L. - Para tudo isso ser possível arrasto comigo a minha “comitiva” de amigos e familiares que me apoiam incondicionalmente.
Tanto a Fundação como o Centro Hospitalar como a Clinica eu já tinha anteriormente, “só” tive que encaixar aqui a política. Tento sempre organizar-me por forma a que os compromissos políticos não colidam com os profissionais marcando sempre reuniões e trabalhos para o final do dia e muitas vezes à noite. Só desta forma é possível conciliar tudo, e mesmo assim pode crer que é muito muito difícil, dou por mim, muitas vezes, desesperada, pois antes de tudo e depois de tudo sou mãe…


Curiosidades:

Nome: Carla Lousada
Idade: 44
Profissão: Fisioterapeuta
Nasceu: Arco de Baúlhe
Filhos: Dois
Ocupação dos tempos livres: Deixei de ter
Principais preocupações: Os meus filhos
Sente-se uma mulher realizada? Quase sempre













































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