Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2014

SECÇÃO: Opinião

A Europa e a Democracia

Ventos de incompreensão varrem a velha Europa. Nada de no-vo, aliás, apenas com a novidade da Europa, pelo menos a da União Europeia, viver há muitos anos numa relativa paz social e sem conflitos graves entre os países que a constituem. E relembra-se esta realidade, sobre-tudo para aqueles, de inconfessados augúrios, pessimismos encadeados e monocordicamente repetidos, que diabolizam a atual crise europeia como a quinta essência da derradeira encarnação do mal, esquecendo-se do que foi o século XX europeu, devastado por duas guerras absolutamente inexplicáveis e de efeitos humanamente devasta-dores.
É óbvio que existem sinais de mal-estar. São milhões as vítimas do desemprego e dos baixos salários, as desigualdades cavam-se entre os poderosos e os desfavorecidos pelas várias sortes e nada parece mudar.
Os resultados eleitorais das últimas eleições para o Parlamento Europeu, se dúvidas houvesse, revelaram, igualmente, o fosso entre as lideranças políticas e os povos europeus, incapazes de perceberem, as primeiras, as preocupações dos cidadãos que desesperam na ausência de respostas, muitas delas, evidentemente, inalcançáveis, mas outras plenamente realizáveis.
É certo que as eleições para o Parlamento Europeu, para o cidadão comum, são de escassa e remota importância. Aliás, as eleições intercalares entre eleições legislativas ou para a formação de governos nacionais, são sempre oportunidades de protesto, onde o conceito de voto útil perde relevância. Os partidos no exercício do poder, ou mesmo do arco da governação, sofrem, quase sempre, efeitos negativos diretos. O caso português ou espanhol, no ato eleitoral de 25 de maio são, a este título, exemplares.
Em Portugal, bem mais grave sob o ponto de vista da saúde da Democracia, são os valores altíssimos da abstenção (66,2%), que somados aos votos brancos (4,41%) e votos nulos (3,06%), atingem os 74,6% de recusa das ofertas políticas e ideológicas em discussão. Por esta razão, e por outras, são no mínimo estranhas e insólitas as manifestações de largo regozijo eleitoral, quando a legitimidade política fica alta-mente diminuída, ferindo de sobremaneira a credibilidade da democracia europeia e das suas formas de participação e representatividade políticas.
Não surpreende, pois, a somar a este fenómeno que mina a imagem dos partidos tradicionais, a dispersão e a difusão eleitorais, a emergência cíclica de fenómenos de pseudovedetismo local ou nacional, escorados em populismos mais ou menos estilizados e, ainda mais preocupante, quando se manifesta nas votações expressivas em correntes radical-mente antidemocráticas e visceralmente xenófobas, sendo o exemplo francês da Frente Nacional absolutamente paradigmático, tratando-se, como se trata, de um país fundacional da União Europeia e essencial para o seu futuro.
Para este estado de coisas, claramente um conjunto vasto de razões. Desde logo históricas, na medida em que a Europa enquanto unidade política é, quanto muito, um processo em construção, mas também sociais e económicas, das quais o desemprego e desequilibrada distribuição da riqueza são uma das faces mais visíveis, bem como as práticas políticas, até ao modo como os órgãos de comunicação social acompanham a atividade política, mormente em períodos eleitorais, genericamente sofrível, que valoriza a gafe, a partir da frase ou do gesto inconsequente, a selfie estupidificada, o like sem conteúdo e ao alcance de um simples e miraculoso clique.
É de tudo isto que a vida contemporânea se faz e não há estatuto partidário, comité político ou comissão de sábios que possa garantir que a realidade social é o reflexo da sua vontade, da sua ignorância ou até da sua vaidade. Fechar os olhos a esta realidade implicará a prazo uma rutura entre a vontade das populações e as suas lideranças, de consequências imprevisíveis e incalculáveis, certamente sem retorno.

* Colaborador
Domingos Machado

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