Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (14)

- Estranho, Majestade! De facto, é estranho, enquanto que a porta é encimada por um arco ogival, a janela é encimada por um arco abatido!
- Dois estilos, D. Estêvão! Dois estilos…
- Sua Majestade é de uma perspicácia extraordinária. Os meus mais sinceros parabéns!
- Tem algum uso este edifício? Uma torre, um pequeno castelo, enfim, uma fortaleza…
-Tem tido, Majestade. Mas, agora não tem. Tem funcionado como prisão do couto, porém, neste momento, não há aqui qualquer cidadão detido.
- Então, podemos visitá-lo. Ao menos para constar do rol de visitantes…
- Sem dúvida, Majestade. Foi exactamente essa a nossa intenção ao propormos uma passagem, mesmo sendo breve, por este local.
Subiram os dois. O carcereiro, que estava cheio de boa vida e residia no rés-do-chão apressou-se a pegar num escadote e a lançá-lo, pela parte de dentro, para subir ao piso de cima e correr os grossos ferrolhos com que eram fechadas, por dentro, tanto a porta como a janela. Ninguém as poderia abrir pela parte de fora, não havia chaves nem manípulos de trincos que servissem para abrir qualquer daqueles acessos a partir do exterior.
Aberta a pesada porta pelo lado de dentro, os dois visitantes entraram, o Rei deu uma volta pelo soalho e parou junto da janela, deitou uma vista de olhos para o lado de fora e dali avistava-se a parte norte do couto, tudo bastante inclinado, alguns socalcos e, lá mais para cima, via-se o início da montanha com mato, tudo muito verde, estava-se no mês de Junho.
O Abade propôs que merendassem no terreiro, em frente da torre, onde havia duas oliveiras, uma nogueira e uma figueira, todas as quatro árvores com razoável porte e todas cobertas de folhas, tanto as de folha persistente como as de folha caduca. Tudo delícias para quem faz viagens na quadra de Primavera/Verão.
A merenda era parente próxima do almoço. Os mimos e a bebida eram exactamente os mesmos. O Abade pediu desculpa ao soberano pela falta de engenho, ao que este retorquiu que estava por demais habituado a este tipo de cardápios e que, quem quisesse melhor, que encomendasse primeiro. Riram-se os dois e os ajudantes participaram da gargalhada.
Dali em diante, aquele grupo de moinhos, que se situavam em plena serra da Cabreira, passou a ser denominado por Moinhos do Rei.
Não houve qualquer decreto real ou local, nem tão-pouco qualquer sugestão por parte das autoridades oficiais. Tudo resultou, muito simplesmente, da atitude espontânea dos habitantes daqueles três lugares serranos do couto de Abadim, dos lugares de Travassô, de Porto de Olho e de Busteliberne. Fora uma iniciativa, totalmente espontânea, das gentes do povo.

***

Terminada a merenda, ali no largo que ficava de frente para a torre, iniciaram de imediato a última parte do percurso que os traria de volta ao mosteiro. O caminho foi exactamente o mesmo que tinham trilhado pela manhã. Em boa verdade, não havia outro. Ou melhor, havia outro caminho que ligava a ponte da Ranha com o centro de Abadim, mas esse era demasiado íngreme, apenas era usado por pessoas a pé. Montadas só por ali transitavam quando era a subir e a carga não tinha peso significativo. Um cavalo, com um rei sobre o dorso, nunca por ali poderia subir e muito menos descer.
A comitiva chegou ao mosteiro mesmo ao cair da noite. Todo o pessoal vinha bastante cansado. O Rei partiria, de regresso com destino a Lisboa, um dia depois. Teria o dia seguinte para descansar e recuperar forças.
As viagens de longo curso eram feitas nas diligências. Sempre que o Rei se deslocava, a diligência era requisitada para transporte de Sua Majestade.
A requisição era feita com a antecedência necessária para que as carruagens fossem devidamente adaptadas com vista a fornecer o máximo de comodidade possível a tão ilustre viajante.
Durante a última parte do percurso entre o centro de Abadim e o Mosteiro de S. Miguel de Refojos, o abade anfitrião teve o cuidado de informar Sua Majestade de que tudo estava devidamente programado. Começou por indagar quanto à fadiga que D. Dinis poderia estar a sentir naquele momento:
- Cansado, Majestade?
- Nem por isso! Mais cansado deverá estar aqui o meu amigo…, como é que se chama aqui o meu mais próximo companheiro de viagem?
- Basto, Majestade…
- Basto Majestade? – O Rei D. Dinis tinha um raro sentido de humor.
- Basto, vírgula, Majestade – Retorquiu, muito pausadamente, o abade, fazendo um espaço entre cada uma das três palavras: Basto…, vírgula…, Majestade…
- Já sei, chama-se Basto este meu amigo da espécie dos equídeos!
- Sabe, Majestade, aqui, por estas terras, os apelidos mais comuns são os Bastos e os Barrosos. Então, estes dois cavalos, que são os mais robustos e mais belos da nossa cavalaria, chamam-se exactamente o Basto e o Barroso. Dois dos apelidos da gente mais nobre destas terras.
- Muito bem, estou elucidado…

(Continua)

Por: José do Banido

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