Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2014

SECÇÃO: Opinião

A Nova Restauração

Entre 1580 e 1640 Portugal passou pela dura prova da perda da sua independência ou, pelo menos, dissolução numa União Ibérica da qual era a parte menor. Claro está que esta é uma forma simplista de ver as coisas, mas que os manuais escolares de outros tempos exploravam até à exaustão, com a aparente necessidade de sublinhar a identidade indissolúvel do território nacional e do destino português que provinha de um passado longínquo. Não há dúvidas, contudo, que a causa próxima dessa catástrofe histórica teve como personagem maior o infortunado D. Sebastião e os seus desmedidos sonhos cavaleirescos que soçobraram nas planuras tórridas de Alcácer-Quibir em 1578, quando pereceu no campo de batalha, com a nata da nobreza portuguesa, mas sobretudo sem descendência real, abrindo, assim, passados dois anos, a porta sucessória a Filipe II de Espanha, filho do Imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, logo, com vastíssimas razões genealógicas e jurídicas para se outorgar o régio direito de aspirar à Coroa Portuguesa e sobre esta terra governar.
Os tempos mudaram, o Sebastianismo, enquanto esperança, esmoreceu, pois nem com nevoeiro nem com sol D. Sebastião ressurgiu e estamos sem saber quais os ventos que favorecerão neste limiar do século XXI a gesta lusíada.
Uma coisa é, todavia, certa: o 1º de Dezembro caiu, sobriamente, enquanto data simbólica da independência nacional, com ou sem maiúsculas, por obra e graça do citadíssimo memorando de entendimento, espécie de passe de mágica que tudo explica e resolve, através da responsabilidade de alguns alquimistas financeiros que claudicaram e claudicam entusiasmados perante o poder da Eurolândia. Mas quando tudo parecia esquecido, tirando a luta continuada e persistente de José Ribeiro e Castro pela memória dos conjurados dezembristas de 1640, eis que Paulo Portas compara, com o rigor histórico que o caracteriza, a aparente saída da Troika, Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a 17 de maio último, a uma nova restauração.
Não restam incertezas sobre aquilo que o nosso país passou, bem como a maior parte da União Europeia, nos últimos anos, com muitos e diversos responsáveis, que dariam uma lista interminável, para lá daquilo que é a dinâmica incontrolável de todas as sociedades e economias. Mas anunciar que se passa do Inferno ao Paraíso num abrir e fechar de olhos, que o Produto Interno Bruto está marcado por uma virtuosa espiral expansiva, mas que tudo, ou quase tudo, pode cair pela ação do Tribunal Constitucional, é admitir que temos uma mão cheia de nada, à espera de uma nova tormenta que se abaterá sobre os suspeitos do costume.
Não deixa por isso de ser ridícula, perdoe-se-me a expressão verrinosa, a comemoração de uma catástrofe que se abateu sobre o país, em abono da verdade pela terceira vez em 30 anos. Podemos soletrar e enumerar os desmandos, as razões e as desrazões, os carrascos e as vítimas, reais e virtuais, a finança e o capital. De pouco ou nada servirá para os que no seu quotidiano são obrigados a reinventar solvências imaginárias para chegarem ao final do mês com sinais de vida e alento para continuarem.
Deve-se, essencialmente, pensar sobre esta realidade que coletivamente nos responsabiliza, remediá-la, evitá-la de uma forma consistente e durável. Fazer isto, é bem mais meritório do que um espumante bebido em campanha eleitoral, numa euforia decrépita e burlesca que alimenta as televisões e os noticiários ou aplaudir uma bravata de comentarista ou político, medianamente comprometido, na sua liturgia semanal.

* Colaborador
Domingos Machado

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