Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (189)
A morte do negrilho

Como se se tratasse de uma pessoa, de um qualquer herói, sinto-me na obrigação de deixar mais um texto dedicado àquele negrilho que, durante quase um século, viveu ali mesmo em frente da Farmácia Barros.
E digo mais um texto porque, em boa verdade, já me referi à sua existência quando ele ainda gozava de boa saúde e a sua sombra tivera sido a delícia de cidadãos cabeceirenses como o Senhor Mário dos Tabacos, o Senhor Abel Carteiro e o Senhor Ernesto do Pinheiro.
Depois, em data bastante mais recente, quando fui surpreendido pela queda de toda a sua folhagem e me comovi muito profundamente. Fez-me lembrar aquelas pessoas que passam por tratamentos de químio e radioterapia e lhes cai completamente o cabelo.
Comovi-me de verdade, e não vai há muito tempo. Isso aconteceu em Julho do ano passado, Julho de 2013, data em que escrevi, aqui neste mesmo jornal, uma crónica alusiva ao seu estado de saúde. Eu era um grande amigo do negrilho.
Sinto uma enorme tristeza pelo facto de, enquanto vivo e de boa saúde, não me ter lembrado de lhe atribuir um nome, um nome assim como se ele fosse uma pessoa. Mas agora é tarde e “Inês é morta”, como costuma repetir o povo.
Como todas as árvores, o nosso negrilho, que era o decano da totalidade do efectivo arbóreo do jardim da Praça da República, e tinha assistido a todo um conjunto de grandes alterações e melhoramentos do recinto, morreu de pé.
Mesmo morto, manteve-se por alguns meses firme no seu posto, a mesma copa, mas agora sem folhas, e a casca começava a descolar-se, primeiro dos ramos mais tenros e agora já ameaçava o tronco, um pó acastanhado já começava a espalhar-se pelo chão.
Como acontece com qualquer ser vivo, faltava aquele último acto, um acto de misericórdia que o levasse e o enterrasse. Para aqueles que conhecem e ainda se lembram da doutrina cristã, enterrar os mortos é a sétima das obras de misericórdia de ordem corporal.
Muitos o sabem, disso não tenho qualquer dúvida, que as obras de misericórdia são catorze, sete corporais e sete espirituais. Estive seriamente tentado a transcrevê-las aqui, mas, pensando um pouco melhor, achei por bem não o fazer, e convidar os meus amigos a que consultem os livros e se certifiquem da veracidade do que acabo de referir.
Voltando ao negrilho, o inevitável aconteceu, há duas ou três semanas atrás, meados de Abril, eu chegava, vindo do Porto, e preparava-me para completar o meu habitual circuito de entrada no burgo. Eu costumo percorrer a avenida que desce desde o Pinheiro e vai até ao lado da Capela de S. Lourenço, na Ponte de Pé, ali, volto à esquerda, atravesso a ponte mais antiga, subo na direcção do Campo do Sêco e, depois, até à Praça da República.
Alguns metros após ter passado as bombas de abastecimento de combustíveis, uma barreira impedia o prosseguimento e indicava que deveria curvar à esquerda e tomar outro rumo. Encontrava-se ali um elemento da polícia municipal que apontava para o desvio e prestava-se a esclarecer quem o solicitasse.
Não tive necessidade de fazer qualquer pergunta, fiquei atento à resposta que o agente da autoridade acabava de dar ao condutor que seguia à minha frente, que me precedia. Afinei o ouvido, escutei e fiquei esclarecido:
“É o abate daquele negrilho que se encontrava ressequido, ali mesmo em frente da Farmácia Barros”.
Não me contive sem que fosse observar os factos. Segui o trajecto que me era indicado, estacionei a meia dúzia de passos, depois de ter curvado, agora para a direita, e entrado na Avenida de Sá Carneiro. Consegui lugar no primeiro espaço que se encontrava disponível em cima do pontilhão sob o qual corre a ribeira de Penoutas.
A pé, dirigi-me para a Praça da República, os trabalhos encontravam-se já na sua fase final, três ou quatro trabalhadores municipais, uma camioneta de carga com báscula e uma retro escavadora.
Os restos do negrilho já estavam todos feitos em pedaços e acondicionados em cima da basculante, os trabalhadores, que já tinham plantado uma árvore da mesma espécie no mesmo local de onde tinham arrancado o canhoto da anterior, varriam e limpavam o arruamento lateral.
Dirigi-me a um daqueles trabalhadores e perguntei:
- Para onde vai o falecido?
- Para já, vai para o depósito de resíduos de origem lenhosa da Ranha.
- Vai ser cremado, muito naturalmente…
- Sim, sim, diz bem…, pelo menos o tronco…, esse deve ser transformado em cavacos e, se calhar, deverá ir para o fogão de uma qualquer escola…
- Pois é, apesar de tudo o fim não deixa de ser de algum modo nobre. Vai servir para aquecer algumas crianças…
- É…
- Muito obrigado, amigo, e permita-me que lhe deixe uma sugestão, esse novo negrilho, que é franzino, sem qualquer dúvida, e me parece bastante frágil, mas que espero cresça e engrosse tal como o seu antecessor, deveria ter um nome.
- Um nome?
- Sim, um nome. Diga aí aos seus superiores que o baptizem com o nome de Mário.
- E Mário, porquê?
- É cá por coisas. Eu próprio passarei a tratá-lo por Mário. É isso mesmo, fica já baptizado por nós os dois. Mário é o nome dele, desse negrilho.
Chame-lhe Mário, disse eu para o trabalhador municipal, e ele, não se fazendo rogado, proferiu, “olá, Mário!”, e eu próprio, agora voltado para o negrilho, repeti, “olá, Mário!”
Eu não conhecia o meu interlocutor, o trabalhador municipal, e julgo que ele também não me conhecia a mim. Despedimo-nos com amizade.

PS: Já que falamos dos negrilhos da Praça da República, aproveito para sugerir aos responsáveis que deveriam mandar plantar o quarto elemento que falta no círculo que se situa mais próximo da igreja e no vértice nascente sul da sua quadratura, mesmo de frente para a antiga Pensão do Fundo.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador




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