Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (13)

- Na verdade, estou deveras surpreendido, pela positiva. Muito bons exemplos e até ensinamentos, que me é dado adquirir e levar, para que os possa transmitir, destas distantes terras daqui do norte do reino.
- Majestade, se desejar passar pelo sono, faça favor.
- Talvez não seja má ideia, meu querido D. Estêvão! Vou, de facto, encostar-me um pouco de encontro a este tronco, desta bétula, que está bem limpo, por sinal.
- É, Majestade, a chuva costuma ser abundante por estas serras. E este ano foi de facto de um Inverno bastante rigoroso, choveu e nevou muito aqui por estes altos.
- Boas terras, de verdade, e agora está aí tudo verdinho, parece mesmo um jardim. É pena que a minha mulher não nos tenha podido acompanhar. Seria um deslumbramento para ela. Mas, como muito bem calculará, Abade D. Estêvão, estas viagens, assim tão longas, não são de aconselhar a uma qualquer senhora, muito menos à Rainha…
- Sim, sim, Majestade. Seria de uma grande falta de bom senso, diria mesmo de alguma crueldade, pensar em convencer a nossa sensibilíssima Rainha a fazer uma deslocação destas.
- Ela lá se vai divertindo a cuidar da distribuição de esmolas pelos pobres…
- Bem-haja! A nossa Rainha é, de facto, uma santa.
Neste ponto da conversa, o Rei já resfolegava, encostado ao tronco daquela bétula, que deveria medir uns dez palmos de diâmetro. As bétulas não atingem uma grossura lá por aí além. Aquela, contudo, já era bastante adulta, deveria ser uma das mais antigas do bosque.
Sua Majestade dormiu cerca de meia hora. Acordou, esfregou os olhos e perguntou pelo pessoal.
A resposta do abade foi que tinham todos os seis ido dar uma volta ali por perto.
- Quem sabe, a ver se apanham algum coelho? – gracejou o nosso D. Estêvão com a intenção de fazer com que o Rei despertasse o mais bem disposto possível.
O Rei, por sua vez, retorquiu:
- Agora vem um pouco fora de tempo, será bem melhor que deixem os animais por aí, gozando da liberdade que o criador lhes legou e a procriarem o mais possível!
- Sim, sim, Majestade. Deixemos que a natureza faça o seu trabalho…

***
Os dois ajudantes e os quatro frades menores chegaram de pronto e a comitiva pôs-se a caminho. Agora sempre a descer, em direcção ao centro do couto de Abadim.
Passaram de novo pelos Marmoirais e entraram no povoado mais pela parte central. O caminho era mais inclinado, mas, como era a descer, todos os santos ajudavam, se bem que os cavalos não se dão lá muito bem a descer em caminhos com elevada inclinação, e os cavaleiros correm o sério risco de serem largados para a frente, mesmo sem que as montadas façam por isso.
Neste particular caso, o cavalo que fora disponibilizado a Sua Majestade, para aquela digressão pelos limites do couto de Abadim, era da mais alta confiança, tinha imenso treino, estava muito habituado a transportar o chefe do mosteiro por todos os recantos destas terras e, exactamente por isso, a descer inclinações bem mais acentuadas do que aquela que ligava o limite norte do povoado de Abadim até ao largo da Torre.
A parte central do couto de Abadim tem a forma aproximada de um rectângulo, quase plana e com um caminho na longitudinal de nascente para poente. Ao tempo, tinha dois núcleos habitacionais, um na extremidade nascente, a aldeia de Santo António, e outro na extremidade poente, a aldeia da Torre.
Era ali, na aldeia da Torre, que se situava o edifício propriamente dito que dava o nome ao povoado. Aquela construção tinha a forma de um quadrado, com dois pisos com pés direitos de cerca de quatro metros cada um, logo, o edifício teria uma altura aproximada de oito metros.
O acesso ao piso superior era feito pelo lado de fora através de um lanço de escadas que se iniciava no vértice norte poente e atingia o andar de cima junto da aresta nascente norte. Tinha um resguardo em balaustrada toda de granito e um patamar na parte superior por onde se acedia ao interior daquele piso, passando por uma porta com mais de dois metros de altura em forma ogival.
A cobertura não se via do exterior, já que todo o perímetro do quadrado era resguardado por grandes blocos de pedra formando as ameias de protecção, mas tudo levava a crer que fosse formada por grossos troncos de carvalho cobertos por colmo, a palha do centeio.
Para o piso térreo, havia apenas uma porta. Esta ficava na vertical da outra que dava para o piso de cima, por baixo do patamar onde terminava aquele grande lanço exterior de escadas.
No alinhamento, pela parte superior da porta do piso de cima, e simetricamente com esta, existia uma janela com a forma de um arco abatido. O Rei reparou logo neste pormenor, dando provas de uma extraordinária perspicácia:
- Curioso, D. Estêvão…
- Então, Majestade?
- Repare na simetria das aberturas do castelo para o exterior…
- Apenas uma porta e uma janela, Majestade…
- Pois é! Uma porta e uma janela! Repare na parte superior de uma e de outra, na arquitectura…

(Continua)

Por: José do Banido

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