Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Informação

Carlos Mendes: mais de 30 anos dedicados à musica

A viola tem sido a sua companhia ao longo de mais de três décadas
A viola tem sido a sua companhia ao longo de mais de três décadas
Funcionário público de profissão, Carlos Mendes tem meio século de vida e mais de 30 anos dedicados à música. Passou por vários grupos musicais locais, alguns dos quais ajudou a fundar. Hoje, além do grupo que dinamiza, destina parte do seu tempo a ensinar crianças e jovens, mas também a animar musicalmente os mais idosos nos diversos Espaços de Convívio e Lazer onde diariamente presta serviços. Homem simples, de sorriso afável, Carlos Mendes, continua a tocar vários instrumentos e a fazer da música a presença constante da sua vida.
Ecos de Basto (E.B.) - Dedicado há muitos anos à música, recorda-se qual o primeiro instrumento que tocou?
Carlos Mendes ensina dezenas de crianças e jovens na Casa da Juventude
Carlos Mendes ensina dezenas de crianças e jovens na Casa da Juventude
Carlos Mendes (C.M.) - O primeiro instrumento com o qual tomei contacto e comecei a explorar foi uma Harmónica de Sopro, porque tinha duas oitavas de “Do” e permitia, por intuição tímbrica, tocar qualquer tema dentro do limite das notas que tinha.
Era um instrumento como um pequeno piano mas ativado pelo sopro, assim conforme a simples flauta em formação escolar…

E.B. - Quando e como começou a ter interesse pela música?
C.M. - Todas as crianças já nas-cem com musicalidades rítmicas que transportam consigo durante a sua infância e juventude. Importa é, durante a formação escolar, da parte de quem orienta, fazer ressaltar e estimular os formandos à introdução da leitura de partituras e à adaptação de a um instrumento ao qual cada criança se sinta atraída…
No meu caso pessoal a guitarra foi o instrumento que me atraiu aos 13 anos, isto porque enquanto escuteiro também me influenciou a prática musical da guitarra nos acampamentos e daí que o contacto com outros jovens na intera-ção de troca de conhecimentos fez com que o interesse fosse cres-cendo cada vez mais, perpetuando-se até agora…

E.B. - Ao longo dos anos tem participado na formação de vários grupos musicais no concelho. Passou pelo Quadrângulo, Banda Sabor e agora pela Banda da Malta. A música faz parte da sua vida. Conseguiria hoje viver sem a música?
C.M. - A essa pergunta é fácil de responder. Não. Não pelos benefícios que “ela” [a música] me possa facultar mas sim pelo simples facto do que “ela” representa para mim: a companhia, a emoção, a expressão, o conforto, a terapia, a amizade, enfim, a vida…
A música acho que é a única linguagem universal que conheço e por isso “ela” contempla-se a si própria, sem esquecer de referir que a música não é algo que aparece do nada, “ela” é a síntese sempre em constante renovação da produção que qualquer compositor encontra dentro de si em relação àquilo que recebeu da vida na absorção de valores e princípios. Portanto, por mais que eu queira fugir ou separar-me “dela” num dia de sol ela é a minha sombra e à noite é a luz que nunca se apaga, mesmo em sonhos…

E.B. - O Carlos vem de uma família numerosa. Algum dos seus irmãos aprendeu a tocar algum instrumento?
C.M. - Bom, eu sou dos mais no-vos, não sei se os meus irmãos e irmãs mais velhos tiveram esse interesse ou se fizeram prática do mesmo, mas acho que não!
Na minha família, o futebol fundamentou-se mais, pois os filhos do “Zé Pote” tinham que seguir as pegadas do pai. Eu embora jogas-se, despertei mais interesse pela música deixando aqui a minha homenagem ao meu tio “Álvaro Larocha” que foi músico da Banda Cabeceirense...

E.B. - Depois de uma passagem pelo Quadrângulo, grupo que ainda está em atividade, como surgiu a ideia de criar a Banda Sabor?
C.M. - Fazendo um historial do meu início enquanto músico de ‘palco’, comecei a tocar no Quadrângulo em 1980. O meu primeiro espetáculo foi no dia 20 de setembro do mesmo ano, na abertura da Agro Basto, no Lugar do Quinchoso que em tempos foi um campo ou armazém de madeiras. Esse foi o ano em que, após a extinção em 1979 do grupo anterior ‘Atalaia’ e se formou o ainda vivo e presente Quadrângulo.
Estive no quadrângulo durante 20 anos e aproveitaria este espaço para registar que o ‘Quadrângulo’ transportou consigo, durante esse tempo, o nome Cabeceiras de Basto. E para terminar este “flash” de pessoas envolvidas, com dedicação e entrega, que suportaram a manutenção desse grupo, destaco os irmãos Vieira (António e Zeca), o Prof. Nuno Boticas (o líder e meu mentor na guitarra e voz), o Aníbal e o Eugénio.
No ano 2000 saí do Quadrângulo e formamos um trio de nome ‘Ensaio’ - Carlos, Aníbal e Rui Carvalho - fazendo casamentos e festas do género na Quinta do Moleiro do Caneiro, como grupo residente embora com saídas para outras Quintas conforme, até hoje…
Respondendo agora sucinta-mente à pergunta, a necessidade da criação da Banda Sabor, é como diz o nome, a necessidade de o renovar, o sentirmos que ainda tínhamos força e vontade de dar um novo sabor a Cabeceiras de Basto, através da criação de uma nova Banda “made in” Cabeceiras de Basto, e assim foi formada. No primeiro ano por músicos da Banda Sabor (Teresa Sousa, Hélder, Nuno e Zé) e por “nós”, a Mónica, o Rui Carvalho e com mais evidência o Aníbal por-que já nos acompanhamos há 35 anos como uma força unida.
Em suma, foi a vontade de voltar ao palco e sentir novamente o coração a saltitar de preocupação com um resultado alegre e compensador de dizer: “ainda estamos cá para dar e vender” até que a vida nos demonstre que há coisa melhor.

E.B. - Sendo a música um hobby para si, consegue conciliá-la bem com a sua profissão?
C.M. - Bom, se deu para conciliar enquanto estudante, jogador de futebol, solteiro, casado e agora já com duas filhas maravilhosas, de 16 e 9 anos, penso que até agora a minha profissão também me facultou positivamente a prática musical porque havendo um ‘espírito vence-dor’ o esforço deixa de ser sacrifício e passa a ser compensação, embora sem esquecer que para ter algo que gostamos de fazer, temos que abdicar de outras e normal-mente a família é que paga. Daí que também elas participam neste sacrifício.

E.B. - Qual foi o trabalho que lhe despertou mais interesse em realizar?
C.M. - Penso que se deve estar a referir aos espetáculos que realizei. Já foram tantos. Mas há um que me marcou mais pelo simples facto da aventura e sair do país. Em finais dos anos 80, penso que em 1989/90, o Quadrângulo deslocou-se a Bordéus, em França, para inaugurar a Casa do Benfica, tocando no sábado à noite e domingo à tarde… Foi uma viagem cheia de peripécias, com muita aventura, preocupação, mas também vontade de conhecer e vencer, desde o sair até ao regressar a Cabeceiras. Em viaturas e por estradas que não conhecíamos. Mas o espetáculo compensou porque convivemos e sentimos, naquela altura, que o público estava connosco e a hospitalidade dos emigrantes ainda mais… passou-se tanta coisa, foi divertido!

E.B. - Além de Cabeceiras, refira outros locais onde se deslocaram para realizarem espetáculos?
C.M. - Desde os anos 80 a 90 no Quadrângulo, e já atualmente na Banda Sabor, o nome de Cabeceiras de Basto sempre foi connosco para toda a parte de Portugal, desde o nordeste transmontano à zona do baixo e alto Minho, parte litoral, zona do Porto, Coimbra, Vilar Formoso, sei lá, por aí…

E.B. - Além de cantar e tocar também compõe. Quando percebeu que tinha jeito para criar as suas próprias músicas?
C.M. - Quando era mais jovem também rascunhei alguma coisa, simplesmente não ia registando porque o plano de Banda em palco era mais comercial. Tínhamos uma sucessão musical de acordo com a época em função do tipo de mercado que tínhamos, que era música de baile, um pouco à mistura. A nossa subjetividade na criação de “ Azedleys” com alguns “covers”, mas impúnhamos o nosso cunho e, por isso, também eramos mais identificados, estou-me a referir aos instrumentos de metais de sopro…
Quanto à pergunta, objetivamente passei a expor as minhas participações na composição, há quatro anos quando comecei a fazer animação musical nos ECL´S (Espaços de Convívio e Lazer) com os idosos do nosso concelho. Como o objetivo era sensibilizá-los e motivá-los a participar nos eventos socioculturais promovidos pela Câmara Municipal nomeada-mente, nos cantares das janeiras, comemorações do 25 de Abril e nas Quadras do S. Martinho, surgiu a necessidade de trabalhar com mais competitividade na canção que cada ECL iria cantar e por vezes fazia adaptações de letras ou caso se fosse a concurso, um original de letra e música.

E.B. - Ao longo dos anos tem dado aulas a muitas crianças e jovens. Há algum que se tenha destacado?
C.M. - Sinceramente acho que sim. Mas se tal destaque atingiu um nível mais alto em algum, fico feliz simplesmente porque participei sempre da melhor maneira enquanto comigo estiveram. Mas que o mérito fique sempre naquele que procura sempre mais…

E.B. - Sabemos que os alunos do Carlos estão sempre muito motivados, qual é o segredo para ensinar crianças e jovens e captar a sua atenção?
C.M. - Não sei. Talvez por ser eu próprio e de uma forma natural abrir o meu livro e partilhar com eles todos “o sumo” que possam aceitar em função dos gestos ou tendências que eles querem explorar, mais propriamente a música Pop/Rock da atualidade, navegando também até aos anos 70/80. Há muitas técnicas de guitarra que renasceram nessa época e numa interação de grupo também eu aprendo com eles pela forma como querem e gostam de alterar a interpretação das canções, isto é, dar-lhes por vezes uma “roupagem” nova, respeitando a melodia quanto à sua identificação…

E.B. - Recentemente abraçou um novo projeto, a Banda da Malta. Como surgiu?
C.M. - A Banda da Malta, constituída por mim, Manuel Carneiro, Vitor, Alex e Hélder, para já foi simplesmente batizada, mas já teve o atrevimento de dar um pequeno passo. Surgiu da necessidade de preencher no nosso concelho uma pequena lacuna na forma de apresentar a música popular, com uma execução onde a musicalidade tem um preenchimento acórdico maior, também porque há “dedos” em palco. Para o fazer, e servindo para enriquecer o ‘menu’ de grupos do concelho, ou talvez para os motivar mais a trabalharem e onde a palavra competitividade possa, de forma figurada, servir de estímulo e não de olhares estranhos entre eles, a Banda da Malta tem como slogan “Sabor a popular”. Talvez se for conveniente possa servir como parte integrante do pacote comercial da Banda Sabor (em estudo).
O nome ‘Malta’ surgiu de uma forma repentina no jantar comemorativo do 25 de Abril, no dia 24 de abril de 2014, no Mercado Municipal, pensando na frase de Zeca Afonso “o que faz falta é animar a malta”. Bom, para isso era preciso uma Banda, e cá estamos nós…!

E.B. - Sendo amador, como encara hoje em dia as saídas profissionais no panorama musical no nosso país?
C.M. - Partindo da pergunta, se é preciso trabalhar muito ou ter a sorte de influências para conseguir por vezes um encaixe em certas festas… isto porque, o tempo comercial de vender posters e videoclips não está muito em prática. Todo o artista investe agora, de outubro a junho, nos programas televisivos dos canais (em competição) RTP, SIC e TVI, que normalmente dão aos domingos, para projetarem a sua imagem e daí serem mais cotados nos valores dos seus espetáculos…

E.B. - Quais são as suas expetativas em termos musicais? Tem mais projetos?
C.M. - As minhas espectativas são trabalhar cada vez mais e melhor para garantir a sustentabilidade da minha Banda (Banda Sabor) e para que, por vezes, em algumas festas de outros concelhos alguém se aproxima e no diga “eu sou de Cabeceiras”. Afinal não estamos sós! Por outro lado, quero manter os meus alunos de guitarra, participar em casamentos, bares e gozar da música popular para que me faça sentir também mais perto das nossas gentes. Quanto a mais projetos, eu diria antes, alterar ou renovar os já existentes.

E.B. - Qual a importância da música na formação dos jovens?
C.M. - Neste ponto gostaria, se me é permitido, de louvar e agradecer à única instituição que sempre acolheu e deu formação de forma gratuita à população jovem, a Banda Cabeceirense. É para mim um orgulho dizer, sem esquecer o seu passado, que a Banda Cabeceirense atualmente, a qualquer localidade que vá dar um espetáculo eleva o nome de Cabeceiras de Basto. A sua representatividade e a qualidade da sua imagem, destaca-se no rigor com que se apresenta em público, na sua farda, no alinhamento da Banda, na execução afinada com uma intensidade de som excelente e mais importante, é a preparação das novas gerações que pretendem investir numa carreira profissional musical…
Aqui deixo um apelo aos pais que é o de motivarem os seus filhos, mas também compensar quem os ajudou. A música tem muita importância na vida dos jovens.

E.B. - Que mensagem deixa aos jovens que querem seguir música como futuro?
C.M. - Agarrarem o sonho e toca a acordar. Mas lembrem-se que é preciso trabalhar muito (todos os dias) para se tocar pouco. O conhecimento não tem limites, há sempre algo mais, quanto mais não seja, a diferença.

E.B.- O Carlos tem duas filhas. Já as ensinou a tocar algum instrumento? Sente que herdaram a sua veia musical?
C.M. - Não sei. A Carolina aprendeu em tempos a iniciação às teclas. Quanto à Francisca, veremos o que possa sair daqui…
Sobre a veia musical, bom, os meus pais nada tiveram a ver com a música, só o meu tio Álvaro Larocha.

E.B. - Até quando, a música?
C.M. - Até quando a música... talvez até à próxima paragem desta realidade… para além-do- além.

























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