Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Informação

As vitórias possíveis

É característica infantil situar-se no mundo a partir do seu centro. Sói dizer-se, do seu umbigo. Tudo parece existir feito propositadamente para aquela pequena criança que desperta para o mundo. Passa a ser doença psicológica se se trata de um humano adulto ou sociopatologia se pensamos numa sociedade. Existem, aliás, vários estudos que indicam que a sociedades nem sempre são capazes de responder eficiente-mente aos desafios com que se defrontam e acabam por desaparecer na história, vítimas da sua incapacidade em lidar com o imprevisível, restando apenas vestígios considerados mais ou menos importantes. De tantos exemplos aplicáveis, cito, de memória, o Império Romano, cujos legionários pisaram terra que hoje é Portugal, ou os povos que habitavam a Ilha de Páscoa, no distante Chile, e que não foram capazes de preservar a natureza que lhes coube em sorte, porque não fizeram as melhores opções.
A questão que se nos coloca é a de saber o modo como agir no nosso quotidiano, como aban-donar o nosso pequeno mundo, a pequena vaidade que entorpece a acuidade crítica e embala, mais uns do que outros, o delicado sabor da bem-aventurança, insen-sível ao que os outros dizem, um pouco como a célebre história da autoria de Hans Christian Ander-sen, intitulada “A Roupa Nova do Rei”, em que um falso alfaiate promete as melhores vestes para cobrir tamanha dignidade. Nada faz, mente por todos os poros, todos olham para o lado e apenas uma criança diz que o “rei vai nu”, caindo, como é costume e de boa tradição, o Carmo e a Trindade.
Como é bom de ver, para tantas pessoas servirá esta parábola, de tão singela e desambiciosa escrita. Mas por incrível que pareça, toda esta escaramuça, bem entendido com as armas da crítica social, começou com o título de um livro, recentemente publicado, que, de uma forma entusiasmada, anuncia na sua capa: “As vitórias impossíveis - da Batalha de Aljubarrota à vitória de Eusébio contra a Coreia do Norte”, de Alexandre Borges.
Não sei se a perplexidade dos leitores e das leitoras corres-ponde à minha. Não sei, nem por enquanto tenho modo de o saber. Reconheço que a Batalha de Aljubarrota, lá para os idos de agosto de 1385, mais propriamente a 14 do mesmo mês, foi apenas um combate que garantiu, talvez um pouco, o país que somos, que estava sob uma ameaça externa, boa ou má consoante os partidos que apoiavam as hostes castelhanas ou as hostes portuguesas lidera-das por D. João I. Também sei que há interesses editoriais e que não se descura o lucro. Por outro lado, compreendo que para milhões de portugueses o jogo de futebol, do Campeonato do Mundo de 1966, onde Portugal fez uma remontada invulgar, ficou na memória, essencialmente a imagem de um jovem que olhava para a baliza adversária como um lince mira a sua presa. Mas não querer ver, neste jogo ou noutro qualquer, apenas um momento de transitória alegria, é olhar para tudo da mesma maneira, sem princípio, meio e fim. Não que as pessoas não possam publicar o que entendam ou dar maior relevância a uma manifestação futebolística do que a uma jornada de luta por direitos cívicos fundamentais. As coisas são o que são. Mas a ausência de crítica, de pensamento discrepante, mais ou menos irónico, pode fazer passar a mensagem de que tudo tem rigorosamente a mesma importância ou que pensamos da mesma maneira. O que não parece ser o caso e ainda bem que assim é.
* Colaborador








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