Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Opinião

A subjetividade da dor

“Todos podemos controlar a dor excepto aquele que a sente.” , Willian Shakespeare
Geralmente, a dor é reconhecida como uma patologia ligada às sequelas do envelhecimento. Contudo, este artigo visa analisar esta problemática do ponto de vista psicológico, ao longo do ciclo vital.
A dor é um motivo clássico de consulta, apresentando-se como o sintoma mais comum nos cuidados de saúde. É evidente que todas as pessoas, de uma forma ou de outra, apresentam queixas de dor, isto porque a dor tem uma função vital, de proteção, sendo desta forma que o organismo anuncia que alguma coisa não está bem, a nível físico ou psicológico.
Nesta análise não é a dor aguda (derivada de uma possível lesão orgânica de curta duração) que se pretende focalizar, mas a dor crónica (que apresenta uma duração persistente, ultrapassando os seis meses). Portanto, a dor pode transformar-se de um sinal ou sintoma numa patologia, em que as lesões podem ser de origem orgânica ou psicossomática. Nesta última não se pode verificar nenhuma etiologia orgânica, ou seja, a dor não pode ser explicada por lesões físicas ou disfunções fisiológicas, focando a presença da dimensão psicológica da dor, estabelecendo-se uma mistura de causas e consequências somáticas e emocionais.
Porém, com isto não se está a afirmar que as pessoas ao expressarem determinada dor a não estejam a sentir, muito pelo contrário, a pessoa sente dor mas não apresenta uma disfunção orgânica. Tal facto pode ser visível em todas as idades, em ambos os géneros, em todas as classes socioeconómicas, nos meios urbanos e rurais. Um exemplo muito comum é quando as crianças vítimas de bullying dizem aos pais que têm dores de barriga, constantemente, antes de ir para a escola. Ou, adultos frustrados com a atividade profissional com frequência apontam dores como desculpa por algum fracasso.
É muito difícil mensurar a dor, pois é uma experiência subjetiva, individual, única e multidimensional. Por isso, é comum afirmar-se que umas pessoas são mais sensíveis à dor que outras, porque está presente uma interação complexa entre sensações, cognições, emoções e comportamentos.
É importante salientar que a dor, independentemente da sua origem, contribui para um problema psicossocial, porque a sua intensidade e interferência podem afetar várias dimensões (física, psicológica, familiar, social, laboral, relacional, entre outras), facilitando a emergência de sintomas psicopatológicos reativos, principalmente ansiedade e depressão.
Conscientemente ou não, as pessoas perante a dor tendem a atribuir-lhe um significado, que pode ser positivo (se obtém um ganho secundário) ou negativo (quando é considerada limitante), que por sua vez irá construir uma perceção de dor, e ambas determinam um comportamento perante a dor, variável de pessoa para pessoa. E, por vezes, a dor assume um valor de identidade, dando um estatuto, um reconhecimento, uma legitimidade para anular as responsabilidades.
Concluindo, a dor como fenómeno complexo e de caráter individual deve ser abordada por uma equipa multidisciplinar, por envolver diferentes dimensões, e cada vez mais ter em consideração os potenciadores desta problemática.

* Colaboradora






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