Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Opinião

A antiga freguesia de São Salvador de Cabeceiras

As Inquirições de D. Afonso III do ano de 1258 referem já a existência do concelho de Cabeceiras de Basto. Já as Inquirições de D. Afonso II de 1220 davam Cabeceiras como fazendo parte do concelho de Celorico, formando os dois o chamado “concelho místico de Basto”, com sede na “Vila de Basto”, nas faldras do monte onde se eleva o castelo de Arnóia. Da descrição do concelho em 1220 ressalva a referência à paróquia de São Salvador de Cabeceiras. Paróquia muito grande pois ocupava a parte noroeste do concelho por onde se espraiam hoje lugares pertencentes às freguesias de S. Nicolau e de Bucos e talvez alguns outros lugares hoje pertencentes a outras circunscrições.
É muito provável que no século XIV esta paróquia de São Salvador de Cabeceiras se tenha cindido em três: S. Nicolau, Santa Marinha e São João Baptista de Bucos. Destes três patronos, não causa qualquer espanto a escolha do padroeiro: São João Baptista é o “Percursor” e Santa Marinha, uma santa portuguesa, natural de Braga, martirizada na Galiza, cuja devoção se espalha pelo país, sendo ainda no nosso concelho padroeira da paróquia de Pedraça. Já São Nicolau, santo de origem nórdica, é de mais difícil compreensão, ainda que em Portugal haja várias paróquias ao mesmo dedicadas.
Curiosamente, Pinho Leal no seu “Portugal Antigo e Moderno”, obra monumental de cartografia, cuja publicação se iniciou em 1865 e terminou 25 anos depois, cartografa duas freguesias com o nome de BASTO (S. Nicolau), coincidentes em alguns pontos e divergentes noutros.
As coincidências são a qualidade do solo, a abundância de gado e caça, a existência do ribeiro de S. Nicolau; as divergências estão na situação: a primeira é considerada sede do concelho (que já não o era à data da elaboração do PAM, e sim o lugar de Pereiras em Refojos), e situada entre as serras de Costa e Tontaim e a segunda entre “montes ásperos e incultos”. Ainda que o apresentante do abade e do reitor seja o mesmo (o arcebispo de Braga), as quantias das rendas são muito diferentes. Mas Pinho Leal confessa: “Não sei desta (2ª) freguesia, pois não a vejo nos mappas modernos. Julgo que está anexa à antecedente”. Também não indica o orago, como faz na 1ª.
Na entrada sobre o concelho, volta a aflorar o tema:
«Julgo que antigamente houve duas freguesias de Cabeceiras de Basto, sendo orago de uma S. Nicolau e de outra Santa Marinha. O que me convence d’isto, é que a freguesia de S. Nicolau era apresentada pelos arcebispos de Braga (como já disse na freguesia de Basto, S. Nicolau) e rendia 360$000 réis e a de Santa Marinha era apresentada por os Pereiras, da Taipa, e depois por D. Gastão José da Câmara Coutinho e seus herdeiros. Diz-se que estes Pereiras e Coutinhos descendiam de D. Guêda, de que adiante se trata. Era abbade e tinha de rendimento 150$00 réis.
Esta freguesia é a que, em 1757, tinha 110 fogos.
E’ mais antiga do que a de S. Nicolau, pois a de Santa Marinha vem descripta no Portugal Sacro e Profano e aquella não.»
Assim infere-se que a 2ª freguesia descrita terá sido a de Santa Marinha, que terá ocupado parte da freguesia de Bucos (talvez a zona do implante da ermida dedicada àquela santa, templo de fundação anterior à nacionalidade, de que não restam vestígios) paróquia que teria sido extinta pelo século XVIII. E anexada a quem?
Curiosamente o “Inventário Colectivo dos Registos Paroquiais” interpreta Pinho Leal de forma diferente, pois dá esta 2ª freguesia de S. Nicolau de Basto (ou seja, a de Santa Marinha) como tendo ficado anexa à de Santa Senhorinha, pelo que, a ser assim, a actual freguesia de Basto (Santa Senhorinha) ocupará hoje terrenos da antiga freguesia de Santa Marinha, esta, por sua vez, separada da mais antiga de Salvador de Cabeceiras.
* Colaborador

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