Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (188)
O Cerdeira

Foi notícia de primeira página do JN de nove de Abril de 1983. O desenvolvimento vinha na página seis em noticiário do “Grande Porto”. Foi um grave acidente de trabalho ocorrido nas obras de renovação das condutas de águas e saneamento, que se realizavam na Rua de Monsanto, da cidade do Porto.
Dois homens tinham perdido ali a vida, no dia anterior, ficando soterrados em virtude de um desabamento de terras que acontecera entre as dez e as onze horas da manhã.
Eles eram Joaquim Gonçalves (Cerdeira), de sessenta e um anos de idade, natural de Refojos, Cabeceiras de Basto, e a residir nuns barracões do empreiteiro situados na Rua de Nau Victória, 1608, e Manuel Ferreira, de cinquenta e sete anos, natural de Vila Real. O Joaquim Gonçalves fora retirado da vala já cadáver, enquanto que o Manuel Ferreira viria a morrer a caminho do Hospital de S. João.
A notícia do JN tem uma pequena incorrecção quanto à idade com que falecera o Cerdeira, ao referir que ele tinha sessenta e um anos de idade. Consultado o seu registo de nascimento, verifica-se que ele, filho de Bernardino Gonçalves e Belmira de Jesus, nascera a vinte e sete de Março de 1925. Logo, quando morreu, contava 58 e não 61 anos. Ele tinha sensivelmente a mesma idade que o seu companheiro de infortúnio.
Eu recordo o Cerdeira dos tempos em que ele era o cantoneiro da nova estrada florestal, naquele lanço que ligava o centro da freguesia de Abadim ao interior da Serra da Cabreira, passando pelos Moinhos do Rei.
Agora, nem tanto, mas, há uma dezena, ou pouco mais, de anos atrás, sempre que descia o lanço da 311 entre o Penedo da Palha e o centro da vila, não havia vez que não recordasse o Cerdeira e fizesse um voto, muito sentido, para que ele se encontrasse em bom descanso. Era o estado calamitoso de todas as bermas e valetas.
Não sei quem é a entidade responsável pelo outro lanço, aquele que serve o município de Fafe, presumo, todavia, que ainda deve encontrar-se sobre a jurisdição daquela que fora a JAE (Junta Autónoma das Estradas), agora parece que é apenas EP (Estradas de Portugal).
Seja lá quem for a entidade, o que eu verifico é que aquele troço, o do município de Fafe, sempre se tem mantido em melhor estado de conservação do que o seu congénere, o do lado de cá da colina que limita com o lugar de Fojos.
Os cantoneiros foram uma classe muito simpática de que eu me lembro muito bem, usavam uma farda de cor cinzenta e um chapéu quase como os dos cow-boys, e eram capitaneados por um cabo. Também conheci um cabo dos cantoneiros que morava na Ponte de Pé.
É certo que pertenceram ao período em que o pavimento da maioria das estradas era em macadame. Com o advento do asfalto, foram sendo substituídos pelo figurino das brigadas. E estas, as brigadas, foram passando para tutelas bem diferentes, empresas de prestação de serviços e que cuidam da respectiva conservação em regime de contrato.
Não sei, muito sincera-mente, se mesmo nos tempos que correm, em que tu-do é asfaltado, não seria bem mais racional continuar com a figura dos cantoneiros, cada um com o seu cantão, onde imperava o brio de cada qual em manter o seu lanço o mais limpo e no melhor estado de conservação possível.
Os tempos são outros e os ventos também. Mas estes, os ventos, nem sempre têm soprado nas melhores direcções.
Voltando ao Cerdeira, que eu continuo a recordar com saudade, e como acima ia a dizer, conheci-o quando ele tinha mais de trinta anos e eu tinha menos de quinze. Eu guardava as vacas do Herculano Teixeira da Loja de Santo António de Abadim, que conduzia pelas encostas e pelas chãs da Serra do Oural.
O Cerdeira morava com os pais, ao cimo da Cachada, e fazia a caminhada, to-dos os dias, ida e volta, desde a Cachada até ao local de trabalho que ora era muito próximo do centro de Abadim, ora era mais nas proximidades dos Moinhos do Rei.
Eu apreciava os instrumentos de trabalho que ele guardava em pequenas grutas que fora construindo, nos taludes, ao longo da berma da estrada. Eram uma pá, uma picareta, uma enxada, um ancinho e um carrinho de mão.
Não foram poucas as vezes que, na sua ausência, eu me aproximei da gruta onde ele guardava aquelas ferramentas, e me diverti conduzindo o carrinho de mão, fazendo desenhos na terra fresca da estrada com a roda, como quem conduzia um daqueles brinquedos de criança, que eram vendidos na feira do S. Miguel e tinham um galo de Barcelos. O Cerdeira sempre tolerou aquelas minhas invasões dos esconderijos e uso abusivo do carrinho de transporte de terra.
A estrada florestal de Abadim era, toda ela, em terra batida. Todas as estradas florestais eram em terra batida.
Como tal, muito sujeita à erosão das águas pluviais, sempre que chovia. Para suster os estragos motiva-dos pelas águas da chuva, o Cerdeira mantinha todo o seu piso transformado nu-ma verdadeira obra de arte.
A arte consistia num rendilhado de sulcos geometricamente desenhados ao longo de todo o perfil rodoviário. Aqueles sulcos (fieiras), por onde corria a água no sentido das valetas, eram a toda a largura da estrada, dirigidos para o lado da inclinação, sempre que a via era em curva, e de meia largura, partindo do centro e dirigidos para cada um dos lados, sempre que a via era em recta.
No tempo a que me reporto, o pavimento da ma-ioria das estradas nacionais era ainda em macadame. A revolução do asfalto surgiu com a era do petróleo barato que teve o seu início no decurso da década de ses-senta do século passado.
O macadame é um tipo de pavimento das estradas que consiste na combinação de várias camadas de cascalho, ou brita, com uma mistura de saibro devidamente com-pactadas pelo peso de um cilindro de grande massa. Esta denominação deriva do nome do técnico que desenvolveu o processo, o engenheiro escocês John Loudon Mac Adam, (Mac Adam que deu macadame), corria o ano de 1820.
Li, há dias, um documento que refere que o primeiro troço de estrada de macada-me, em Portugal, foi inaugurado no ano de 1849. O documento não faz qualquer referência às localidades que tal troço ligava. Eu arrisco que deverá ter sido o troço de estrada real entre Lisboa e o Carregado.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

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