Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (12)

- Majestade, queira saber que há, por ali, um conjunto de lugares altamente produtivos. No interior da serra, e começando pelos mais próximos, são três, quase em linha, para quem se desloca da base para o cimo. São eles Travassô, Porto de Olho e Torrinheiras. Nestes três lugares da serra, a produção é de milho e centeio, e muito pasto para gado. Há por aqui muito gado, das três espécies, bovino, caprino e ovino. Na parte central do couto, em Abadim, a produção é maioritariamente de milho. Quer saber, Majestade, como funcionam aqui os moinhos?
- Sim, sim, faço muito gosto, D. Estêvão.
- E eu farei muito gosto em explicar, a Sua Majestade, como tudo funciona. Porém, teremos tempo para o efeito amanhã durante a viagem até lá ao cimo e mesmo no próprio local junto daquele conjunto comunitário. Amanhã iniciaremos a subida por volta das nove, primeiro até Abadim, cerca de hora e meia. Depois, até Travassô, mais ou menos outro tanto tempo, ao todo serão umas três horas de viagem para cada um dos lados. Eu dar-me-ei ao cuidado de mandar tratar, quero dizer, pensar e preparar os cavalos para a jornada. Levaremos também pessoal de apoio e mantimentos para todo o dia. Concorda com este plano, Majestade?
- Claro que concordo, D. Estêvão, o senhor está na sua terra e aqui é Vossa Excelência quem manda.
- Perdão, Majestade, quem sou eu, se não um simples e humilde servo de Deus!
- Sim, sim, um servo de Deus!


***

No dia seguinte, tal como ficara combinado, a comitiva partiu do mosteiro às nove horas em ponto. Nestas coisas de horários, os frades sempre foram exemplares. Tudo nos lugares certos e às horas certas.
A comitiva era formada por oito pessoas, todas montadas em outros tantos cavalos. À frente seguia o Abade D. Estêvão, que marcava a cadência e indicava o caminho, depois o Rei D. Dinis, a seguir o ajudante de campo do Rei, depois o abade secretário de D. Estêvão, a comitiva fechava com quatro frades menores, todos residentes do mosteiro. Nas montadas dos quatro frades menores seguiam os mantimentos suficientes para o almoço e a merenda. O regresso estava previsto para o fim da tarde, mesmo muito próximo do por do sol.
Quanto ao percurso a seguir havia duas hipóteses possíveis. Porém, o abade do mosteiro entendeu que o melhor seria optar por aquele que fosse menos íngreme e as travessias dos rios fossem menos perigosas, sempre por cima de robustos pontilhões. Assim fez. Partiram do mosteiro em direcção à Ranha. Dali, pela meia encosta até ao Banido, depois pelas Paradelas até à Corredoura. Chegaram ao centro do couto de Abadim. Foi hora e meia com os cavalos folgados a andarem bem.
Chegados ao centro de Abadim, o abade do mosteiro propôs ao Rei que se avançasse até aos moinhos da serra, que era melhor enquanto ainda estava fresco que almoçariam lá, o Rei faria o seu descanso à sombra de uma mata de carvalhos e bétulas, que depois, após a sesta, desceriam de novo ao centro de Abadim e ali tomariam a merenda para, de seguida, iniciar o regresso ao mosteiro pelo mesmo caminho que tinham trilhado pela manhã.
Que sim senhor, concordou o Rei de pronto. E assim foi, agora pela saída da Lomba, depois pelos Marmoirais, fontela da serra do Oural e, finalmente, naquela chã de onde se avista o lugar de Travessô nas faldas do Alto da Varela e o lugar de Porto de Olho na vertente nascente norte daquele mesmo monte, o Alto da Varela. Os moinhos ficavam um pouco para a esquerda e a comitiva derivou para esse lado, a fim de estacionar mesmo junto daquele notável conjunto arquitectónico, que era um grupo de dez moinhos, todos cobertos em lajes de granito e movidos pela água da levada de Víbora.
Acamparam, efectivamente, debaixo da ramagem frondosa de um grande conjunto de cedros, carvalhos e bétulas. Estenderam toalhas de linho, a reluzir de brancura, e os quatro abades menores dispuseram travessas de bons petiscos e jarros daquele vinho, bem tinto, colhido nas videiras da quinta do mosteiro e guardado em pipas nas adegas frescas das divisões mais baixas do casario.
O Rei D. Dinis não deixou de dar largas a um franco contentamento, quase extasiado com a paisagem que os rodeava, uma verdadeira paisagem nórdica.
- Este local é um espectáculo, D. Estêvão!
- Sem dúvida, Majestade. Este é um dos mais belos lugares de toda esta região.
- É…
O Rei ficou sem palavras por alguns instantes. Recomposto, voltou:
- É duma beleza rara este sussurro da água que sai da base de cada um dos moinhos e corre em direcção ao cubo do moinho seguinte.
- É, Majestade…
- Em termos de propriedade, como é que isso se passa, a quem pertencem estes moinhos que, como já me informara ontem, serão uns dez ou mesmo mais?
- Em moldes comunitários. Tudo em moldes comunitários. Nenhum desses moinhos, que aí se vêm, é pertença de um só dono. São todos comunitários, de tantos em tantos dias, cada comparte tem a sua vez. Têm, porém, cadências diferentes, digamos, uns têm a sua vez de cinco em cinco dias, outros um dia por semana. Depende da dimensão da casa de cada comparte. Há aí uns dois ou três que pertencem a não mais que dois compartes, são grandes casas e têm o moinho por sua conta durante três ou quatro dias em cada semana.

(Continua)

Por: José do Banido

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