Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2014

SECÇÃO: Opinião

A Primavera em Abril

A ditadura do Estado Novo, liderada, em grande parte, por António de Oliveira Salazar (1889-1970), prolongou-se por mais de quatro décadas, desde o início dos anos trinta do século passado até 24 de Abril de 1974. Foi uma ditadura duradoura, repressiva e violenta, tutelada por uma figura que marcou o século XX português e que projectava, para o interior e para o exterior do país, uma imagem nacionalista, idealizada, ancorada numa história que cultivava os seus heróis e os seus momentos funda-dores. Hoje, passados que são quarenta anos do seu desaparecimento, é uma realidade para mui-tos já esquecida, retirada para o baú da história, sobretudo pelos mais jovens, por evidentes razões cronológicas, com dificuldades em perceberem um tempo cinzento, monolítico, em que a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa não eram possíveis, em que o país participava numa guerra colonial longínqua e incompreensível, com milhares de vítimas, essencialmente em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, herança de um trajecto iniciado com as ambições políticas e económicas da sociedade e da Monarquia portuguesas de Quatrocentos, no contexto da rivalidade ibérica, mas também de um mundo que se abria a novas rotas comerciais e a novos mercados.
O regime salazarista e os seus epígonos, arregimentados na Primavera Marcelista, foram incapazes de virar essa página, tolhidos pelo peso histórico da sua própria mentalidade, avessa à mudança, numa arrevesada e inconsequente nostalgia do orgulhosamente sós.
Sob o ponto de vista académico, não há certamente um 25 de Abril, mas múltiplos Abris que eclodiram nessa madrugada de todas as possibilidades e esperanças.
Há um golpe militar. Não é a sociedade civil que lidera inicialmente a queda do regime, mas, como em todas as fraturas sociais, em particular nas revoluções, os acontecimentos absorvem e agregam vontades, desejos contidos num processo de múltiplas variá-veis e verosímeis e inverosímeis utopias e libertações.
Existe de facto, neste sentido retrospetivo, uma diferença nítida entre a história vivida e a história escrita e revisitada pelos especialistas. A esta distância é possível escrutinar tensões e tendências, avanços e recuos de quem receava a mudança, de quem esperava, quiçá ingenuamente, os no-vos tempos onde a emancipação e a liberdade eram palavras de ordem na ponta das baionetas metamorfoseadas em cravos.
Todavia, sem a necessidade do crivo científico, experimentamos na emoção e na vida que passaram quarenta anos desde essa madrugada, desde esse acordar para a claridade e a incerteza do dia, mas quarenta anos são quase nada, e, todavia, são quase tudo. Para as novas gerações, falar e recordar o 25 de Abril de 1974 é quase ouvir os sons da arqueologia, cambiável, talvez, por uma qualquer inovação tecnológica de última versão. Talvez sim ou talvez não, porque Abril escreve-se de um modo diferente nas liberdades que se vivem por todos e de todas as idades. Provavelmente Portugal não é hoje o melhor reflexo dessa alvorada, podemos afirmar, em todo o caso, e não é pouco, que hoje somos os autores da nossa própria história, responsáveis pelos nossos sucessos e insucessos. Cada um, com os outros, somente com a fragilidade e a força das convicções. De-vemos isso aos melhores de Abril, àqueles que nada esperavam, a não ser a recusa do fado que os condenava e nos condenava a um atávico e continuado olvido.
É uma gratidão que não se esquece e se renova. Bem sabe-mos que não vivemos no paraíso, aliás, coisa de problemática e deli-cada descoberta e improvável localização neste planeta. O desemprego é uma realidade cruel para centenas de milhar de portugueses e portuguesas, verificam-se óbvias e inaceitáveis iniquidades sociais, com prescrições providenciais e faces pouco ocultas. Gastámos e continuamos a gastar num Banco fraudulento e falido milhões de euros em troca de nada ou de uma quimera transformada em pesadelo coletivo. E por isso mesmo, criticamos, protestamos, reivindicamos, transformamos, com as ideias e a palavras, como no tempo inaugural de Abril.

* Colaborador
Domingos Machado




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