Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2014

SECÇÃO: Recordar é viver

O Lopes de Travassô e o Carvalho de Cucana

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A arte de cantar ao desafio

Desde menina, já lá vão longos anos, que os cantares ao desafio que ouvia a um tio meu já falecido há muitos anos, me impressionavam pelo improviso de quem cantava ao despique com a habilidade de quem respondia e acertava no “alvo”. Sempre me perguntei como era possível sair na hora qualquer assunto, mais ou menos de cariz provocatório e o acompanhante responder na prontidão ao desafio lançado pelo seu interlocutor. Ao longo dos anos fui ouvindo e aprendi a gostar daquele intercâmbio de palavras trocadas e trocadilhos. A minha curiosidade sobre este fenómeno de popularidade que já tem séculos, levou-me a procurar dois cantadores bem conhecidos de todos nós. Falo do Bernardino Teixeira de Carvalho, mais conhecido pelo “Carvalho de Cucana” e o Manuel Lopes, por “Lopes de Travassô”. Ninguém melhor do que eles para nos falar dessa arte que é um dom. Acredito que sim! Então vou começar pelo Carvalho de Cucana.
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Bernardino Teixeira de Carvalho, nasceu em 14/05/1955, no lugar de Cucana, da freguesia de Refojos. É filho do falecido António Carvalho e de Rosa Teixeira. Os pais residiram sempre em Cucana. O seu pai morreu, em virtude de ter sido assassinado, ainda o Cucana era uma criança, no dia 21 de Agosto de 1961, por um vizinho, na vinda da festa da Lameira, numa tasca perto de Passos, chamada a “Loja do Barraquinho”. Era um local onde as pessoas entravam para beber um copito ou meter uma “bucha” à boca. Nesse dia fatídico de Agosto, encontrava-se na tasca um inimigo do pai do Carvalho de Cucana, que teria alguns ajustes de contas ou tira teimas relacionadas com a caça. Certo é que as conversas azedaram e o tal vizinho não esteve com meias medidas. Disparou à queima roupa sobre o pai do Carvalho e, ainda, sobre outra pessoa que vinha a descer as escadas, a qual também foi atingida dentro do estabelecimento, vindo depois a falecer. A sorte dos outros clientes foi terem fugido a tempo, se não também levavam.
Tenho de referir que há muitos anos ouvi falar deste acontecimento trágico e o mesmo me foi confirmado pelo “Cucana”. O seu pai foi um dos melhores cantadores da sua época. O pai vinha duma romaria muito popular e pode dizer-se que “morreu a cantar” passo a expressão.
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Nessa altura tinha o Cucana seis anos. Os pais tiveram sete filhos. Quando se deu este desenlace, tinha morrido um filho já algum tempo e, logo a seguir à morte do pai, morreram duas meninas. Ficaram quatro filhos.
Como o menino “Cucana” era o mais velhinho, teve que se fazer à vida como se costuma dizer. Andou na escola só durante um ano e desde pequeno que andou a trabalhar nas lavouras, a guardar gado, cortar mato, em tudo que os patrões necessitavam. Claro que os patrões por onde andava tinham a obrigação de o mandar à escola pelo menos três horas por dia mas, ninguém se importou.
Disse-me que desde os seus oito a nove anos começou a cantar cantigas ao desafio com os amigos e, assim, se foi falando no artista das cantigas ao desafio, no “Carvalho de Cucana”. Também foi muito constado a tragédia do pai dele que era um cantador bastante conhecido.
Referiu que não é qualquer pessoa que tem jeito para cantar. Para isso “é preciso ter-se um dom e veia poética, um bom tocador de concertina e um adversário nas lides dos desafios das cantigas” - afirmou o Carvalho.
Carvalho de Cucana e Lopes de Travassô em plena actuação
Carvalho de Cucana e Lopes de Travassô em plena actuação
Continuou dizendo que “o sucesso de um bom espectáculo entre dois cantadores ao desafio resulta destas três coisas, senão tudo descamba”.
Foi convidado para cantar em vários países como a França, Suíça, Luxemburgo e cá em Portugal nas Universidades por altura das queimas das fitas.
Casou para Várzea Cova onde aí fixou residência. Trabalhou em Vidago numa pedreira de feldspato, durante vinte e quatro anos. Tem dois filhos, a Rosa e o Fernando, quatro netos de ambos. Sente-se muito feliz com eles.
Contou-me que costuma cantar com o “Lopes de Travassô”, a Celeste da Ponte da Barca, o Domingos da Soalheira, o Fernando Bagulhão. A acompanhar na concertina costuma ser o Albino de Cavez e ainda o Pinto que toca e canta muito bem.
O Carvalho foi reformado por invalidez devido a um grande acidente em Várzea Cova, uma freguesia do concelho de Fafe.
Perguntei-lhe o que achava de cantar com mulheres e com quem já cantou. Disse-me que até se entendem bem na troca de “galhardetes” mas é mais complicado. Elas, as mulheres quando “mandam” as palavras, fazendo com bastante malícia e nós, os homens, ficamos sempre mal porque se respondemos a uma mulher no mesmo “tom” somos logo chamados de malcriados, se não respondemos à letra lá corre mal desde o princípio. Elas ficam sempre por cima e a rirem-se. Cantou com a Adília de Arouca, a Carminda dos Arcos de Valdevez, filha do Delfim dos Arcos, considerado um dos melhores cantadores ao desafio actuais.
Dia 18 de Maio é o dia do cantador ao desafio no concelho de Boticas onde se reúnem muitos profissionais. Certamente que o Carvalho de Cucana lá estará com certeza.
A sua vida como reformado por invalidez que, infelizmente, o deixou com cicatrizes tem como dia a dia cantar, onde vai auferindo alguns rendimentos e trabalhar nos quintais ou entreter-se com os netos quando os tem por perto.
Gostei de conversar com o Carvalho de Cucana. Pessoa simples, simpática e muito educada. Que possa cantar muitos anos especialmente na nossa terra.
Manuel Lopes – O Lopes de Travassô
O Manuel Lopes de Travassô, freguesia de Abadim, nascido há 49 anos é filho da conhecidíssima Benvinda Lopes, a carteira que levava o correio para as pessoas desde a Vila até ao seu lugar e Porto D’ Olho. Senhora amável, generosa e muito franca. Quem passasse à sua porta tinha sempre algo para oferecer. Estive algumas vezes em sua casa e posso confirmar que fui muito bem recebida.
Como atrás referi, o Lopes de Travassô, cantador de desafio e tocador de concertina, é muito conhecido cá por estas terras onde se continuam a fazer as festas tradicionais e também no estrangeiro. Foi emigrante em França cerca de dez anos, dos vinte e três aos trinta e três. Casou por lá com Françoise, uma luso-francesa. Tem três filhos, dois rapazes e uma menina. O Frederico de vinte e cinco anos, o Emanuel de catorze anos e a Silvie de vinte e três anos. Confidenciou que veio para Portugal quando os filhos eram pequenos para não ganharem raízes lá e afinal os mais velhos regressaram para lá outra vez. Só cá ficou o Emanuel de catorze anos. Frequenta a EB e Secundária de Cabeceiras.
O Lopes de Travassô, frequentou a escola primária duma povoação ao lado, em Porto D’Olho e fez lá a quarta classe. Frequentou o ciclo preparatório na Praça da República, no edifício que é hoje a Casa da Cultura. Trabalhou na agricultura na sua aldeia até aos dezassete anos. Desde tenra idade, nos seus nove, dez anos, quando vinha ao S. Miguel nos dias 28 e 29 de Setembro, com o tio Gabriel, irmão da senhora Benvinda, ouvia cantar ao desafio nas barracas dos “comes e bebes”. Ele, como tinha o vício de cantar e associado ao seu dom, também participava. Depois começaram-no também a chamar para participar. Cantou com o Carvalho de Cucana, Fernando Bagulhão e chegou a cantar com o famoso “Celorico”.
Andou bastantes anos a cantar em Portugal antes de ir para França.
Uma das coisas que o fez regressar, além da preocupação dos filhos ficarem por lá, sem quererem regressar, foi também pelo “chamamento” que sentia dentro de si para continuar a cantar ao desafio. Era algo que lhe estava no sangue.
Regressou de vez à sua casa, que tinha feito em Busteliberne, ali junto de Travassô. Dedicou-se às pinturas de interior e exterior de casas, que já era a sua profissão em França, intercalando com as cantigas e a sua concertina.
Perguntei-lhe o que achava a sua esposa desta actividade, ao que respondeu que ela sempre gostou de o ouvir e acompanhar na maior parte das vezes.
Quando canta, tem por tocadores Albino Bastos de Cavez, Hélder Batista de S. Bento, Fernando Correia e o Cardoso, ambos de Fafe.
Cantou com a Celeste, Adília, Irene de Gaia, Carminda dos Arcos, filha do Delfim, Natividade, Sara Cristina, Conceição Passos, Rosa Maria da Ponte da Barca.
Tal como o Cucana me tinha confidenciado, disse-me que é mais complicado cantar com mulheres. Temos de ter cuidado com as respostas que damos às suas “cantigas provocatórias” .
Disse que nunca teve conflitos com ninguém devido aos cantares ao desafio. Chamam-no sempre para cantar na Feira do S. Miguel, Feira da Ladra e em todas as festas que se fazem aqui nas redondezas. Tem cantado nas festas de ano da GNR em Vila Real ou Chaves. Tem agendado para cantar no Canadá, França, Suíça e Luxemburgo.
A par das cantigas ao desafio, exerce a profissão de pintor nas construções, cultiva os seus campos, tem três éguas e um cavalo. Pode-se dizer que leva um vida feliz sem sobressalto. Está a viver em Travassô, com a mãe, a conhecida carteira Benvinda Lopes, para a não deixar sozinha por causa da idade e da sua saúde frágil.
Pela minha parte só me resta agradecer aos dois cantadores que para mim são os mais conhecidos, a gentileza com que aceitaram vir conversar comigo, para me contarem um pouco das suas vivências a cantar ao toque das concertinas.



Aproveito para colocar nesta página umas cantigas que o “Lopes de Travassô” dedicou a mim e ao Ecos de Basto.

Dona Fernanda é rica
E não é por ter dinheiro
É rica de coração
E por ter sangue de Carneiro.

Nascida na Raposeira
Foi ali que foi criada
Jornalista de primeira
Por todos apreciada.

Dona Fernanda e o Lopes
Merecem um elogio
Uma dá vida ao Ecos de Basto
E o outro ao desafio.

Com alegria cheguei
Com a mesma me despeço
Ao Jornal Ecos de Basto
Desejo muito sucesso.

Manuel Lopes





















































































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