Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (187)
BELMIRO DE AZEVEDO É QUE SABE!

Eu estou plenamente de acordo com o líder da Sonae, quando diz que o trabalho não mata e que estar quieto é que provoca obesidade. E ele diz mais: “quem quiser trabalhar na Sonae tem de continuar a estudar, tem de ter disponibilidade e não arranjar desculpas para não estar no trabalho”. Refere ainda: “eu já fiz 50 anos a trabalhar e continuo a levantar-me todos os dias às 5.30 da manhã e chego a casa às 20. Há quem diga que devia ir para casa mais cedo, mas ao final da tarde dedico-me mais a ler coisas e menos a massacrar alguém”.
Estas afirmações surgiram no decurso da cerimónia de entrega do “Prémio Inspiração” que lhe fora atribuído pelo Jornal de Negócios e pela Caixa Geral de Depósitos e que teve lugar no passado dia dez de Março do corrente ano de 2014.
Também estou de acordo com ele, mas custa-me um pouco mais a acreditar que seja exactamente como ele refere, quando diz que os trabalhadores portugueses são quatro vezes menos produtivos do que os alemães, e que, por essa exacta razão, não podem esperar aumentos salariais.
Que os trabalhadores alemães são mais produtivos que os portugueses, disso não tenho qualquer dúvida. Mas, quatro vezes mais…, alto lá! Significaria isso que, enquanto um português, equipado com o mesmo tipo de ferramenta que um seu companheiro alemão, fazia um buraco, uma vala, com a extensão de um metro, aquele, o alemão, faria um buraco, uma vala, com a extensão de quatro metros!
Não! Aí, o patrão da Sonae, deve estar mesmo a exagerar. No tempo em que eu próprio tinha vinte anos de idade, e trabalhava de pá e pica, viesse lá o mais pintado dos alemães, a ver se abriria um buraco de vala quatro vezes superior àquele que eu, equipado com o mesmo tipo de ferramentas, abriria em igual unidade de tempo. Não. Tenho a certeza abso-luta de que isso não aconteceria comigo.
O patrão da Sonae já foi o homem mais rico de Portugal. Agora, e de acordo com os números divulgados pela revista Exame reportados ao ano de 2013, ocupa o quarto posto, antecedido pelo patrão das corticeiras, Américo Amorim, pelo patrão dos supermercados Pingo Doce, Alexandre Soares dos Santos, e pela família Guimarães de Mello (Os Mellos da antiga CUF).
Segundo a publicação daquela revista, a fortuna de Américo Amorim era de 4.503,6 milhões de Euros, enquanto que a de Belmiro de Azevedo se ficava pelos 1.210,7 milhões.
Se usarmos os critérios e a linguagem de Belmiro de Azevedo, podemos concluir, sem margem para qualquer tipo de dúvidas, que Américo Amorim é 3,72 vezes mais produtivo do que Belmiro de Azevedo (dividindo a fortuna de Américo Amorim pela de Belmiro de Azevedo, é exactamente esse o índice que obtemos: 3,72).
É caso para que possamos exclamar, sempre com o devido respeito pelo Senhor Sonae, que este, em termos de produtividade, está para o empresário Américo Amorim, as-sim como o vulgar trabalha-dor português está para o vulgar trabalhador alemão! O empresário Belmiro de Azevedo produz quase quatro vezes menos do que o empresário Américo Amo-rim! E esta?
Sempre tenho ouvido dizer, e parece que até já tem saído nos jornais, que a fábrica da Autoeuropa, localiza-da em Palmela, é das que apresenta maiores índices de produtividade de todo o universo de unidades produtivas do grupo Volkswagen.
Também não ignoro que a organização, não obstante o actual Director Geral ser um cidadão português, é, toda ela, ditada pela super estrutura sedeada na Alemanha.
Quero com isto dizer que a organização é factor preponderante, e nisso os ale-mães dão cartas, não tenhamos dúvidas. Mas, os trabalhadores da Autoeuropa não são, de modo algum, alheios ao sucesso produtivo daquela unidade do grupo Volkswagen.
Têm sido motivo do nosso orgulho, desde a década de sessenta e início da de setenta do século passado, período que marcou o grande fluxo da nossa emigração para a Europa livre e em franco desenvolvimento, incluindo a Alemanha Ocidental (República Federal Alemã), as notícias de que os trabalhadores portugueses eram, e continuam a ser, altamente cumpridores e disciplina-dos.
Os requisitos da força de trabalho que contam para os índices de produtividade são exactamente esses, empenho e disciplina.
Então, se os mesmos trabalhadores são empenhados e disciplinados na Alemanha, por que o não são no seu próprio país, em Portugal? Se são empenhados e disciplinados na empresa Autoeuropa, por que o não são nas em-presas do Grupo Sonae?
A verdade, infelizmente, é que parece mesmo que tais índices de empenho e disciplina não são os mesmos em ambos os casos.
Será que a estrutura organizacional do Grupo Sonae não consegue o mesmo desiderato que a estrutura organizacional do Grupo Volkswagen, em particular a estrutura da unidade local de produção Autoeuropa?
Que poderia dizer o Eng. Belmiro de Azevedo a este respeito, caso lhe fosse colocada esta particular e objectiva questão?
Antes de terminar, e rebuscando pelo resumo biográfico do Engenheiro Belmiro de Azevedo, não quero deixar de referir que o próprio é o mais velho dos oito filhos do casal Manuel de Azevedo, carpinteiro e agricultor, e Adelina Ferreira Mendes, costureira, e nasceu na freguesia de Tuías, concelho do Marco de Canavezes, a 17 de Fevereiro de 1938, conta, actualmente, 76 anos.
Depois da instrução primária, foi para o Porto, ao cuidado de um tio, muito naturalmente para poder ter acesso a algum estudo mais, para além do ensino básico. Frequentou o Liceu Alexandre Herculano e de-pois a Faculdade de Engenharia, onde se licenciou, em Engenharia Química, no ano de 1964.
Como se vê, não nasceu em qualquer espécie de berço dourado. Subiu na vida a pulso, à sua maneira, entenda-se!

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

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