Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e o Basto (11)

- Um guerreiro celta? Qual celta qual quê! Isto é a estátua de um dos nossos mais directos antepassados. Isto é a estátua de um guerreiro lusitano…
- Um guerreiro lusitano, Majestade? Também já me tinha interrogado, a mim próprio, sobre essa possibilidade.
- Este, que o Senhor Abade aqui vê, é um descendente do nosso grande Viriato, que foi assassinado à traição nos montes hermínios, meia distância entre o mar e a fronteira com Castela.
- É, Majestade, fico muito feliz por os meus antecessores a terem preservado e nós termos dado continuidade a esse trabalho. Temos agora, aqui, um autêntico tesouro…
- Um autêntico tesouro... Digo-lhe mais, Senhor Abade… Um monumento, isto é um monumento.
- Se calhar, deveríamos pensar em colocá-la em sítio mais apropriado, talvez de frente para a entrada principal do nosso mosteiro, que me diz Majestade?
- Sim, sim. Será assunto para uma profunda reflexão da vossa comunidade, a decisão quanto ao local mais apropriado para a colocação deste monumento, a estátua de um combatente e descendente do nosso grande Viriato!
Dali, do ponto mais alto daquela pequena colina do interior da quinta, avistava-se toda a área de cultivo, tudo verdejante. Estava-se no mês Junho e toda a comunidade se ocupava no amanho das terras e tratamento da vinha, que era de enforcado.
Desceram pela borda superior daquele campo que ficava ali, mais próximo do mosteiro, e tinha um carreiro, bem trilhado, que ia dar directo ao moinho. Junto do moinho, havia outro pontilhão, este todo em madeira, dois toros de carvalho em paralelo, com uma distância entre si de dois passos e o lastro formado por toros mais finos, ligeiramente alisados, também estes de carvalho, por onde se atravessava a ribeira naquela esquina da quinta que ficava mais a poente. Também por ali passavam carros de bois.
Os dois, o Rei e o Abade, pararam em cima do pontilhão, dali via-se o repuxo da água que saía pelo inferno do moinho. O Rei apreciava sobremaneira esta categoria de imagens.
Na ribeira, onde caía a água que vinha da engrenagem que fazia girar a mó e formava um pequeno charco, viam-se peixes a fazer acrobacias, era um pequeno cardume de escalos.
Voltando-se depois para o grande largo que ficava em frente do mosteiro e se estendia para poente, observou:
- D. Estêvão…
- Majestade…
- Permita-me uma sugestão, aliás, no seguimento da nossa conversa de há bocado, sobre um bom sítio para colocação da estátua do nosso guerreiro lusitano…
- E então, Majestade?
- Meu caro D. Estêvão, ali, coisa de uns trinta metros para a nossa direita, na margem esquerda da ribeira, voltado para a praça e no vértice do alinhamento com a fachada do edifício.
O Rei apontava para o mosteiro que, à data, se confinava àquele espaço que hoje é ocupado pelo corpo que contém os claustros. Não existiam ainda, nem aquele corpo onde agora funciona o colégio, nem a igreja. O espaço onde hoje se encontra a igreja era ainda um território coberto de salgueiros, amieiros e pastagem de terreno inculto para gado. O sítio onde hoje se encontra a igreja era ainda um espaço de pastagem espontânea.
O Abade D. Estêvão acenou que sim e atirou nova proposta:
- Majestade…
- Diga, D. Estêvão…
- Não querendo, de modo nenhum, abusar das vossas forças…, mas…, antes que inicieis a viagem de regresso a Lisboa, permiti-me que vos sugira, ao menos, mais um dia de estadia entre nós para que possamos subir, em conjunto, aquela encosta que Sua Majestade vê acolá, em frente.
O Abade D. Estêvão apontava para a encosta da Ranha, onde não se via mais nada que não fosse uma vegetação rasteira, alguns tojos e queiróses, no meio de imensos pedregulhos, uns de seixo e outros de pedras de amolar.
- Que é que há para aqueles lados, D. Estêvão?
- Parece um pedaço de outro mundo, Majestade! Por detrás daquele cume há um planalto de rara beleza paisagística e uma grande fertilidade em termos agrícolas. Para além de inúmeras nascentes que ali se encontram, todo o planalto é regado com as águas que percorrem uma levada com cerca de duas léguas de extensão e faz mover dois grupos de moinhos. O primeiro grupo, de cerca de dez unidades, situa-se lá na parte mais alta do desnível, a um quarto de légua ou pouco mais ou menos, do ponto de tomada de água, o segundo grupo, que deverá contar outros dez, situa-se à entrada do couto. É o couto de Abadim. A levada foi baptizada com o nome de Levada de Víbora, nome que se deve ao facto de naqueles montes existir uma grande colónia daquela espécie de répteis.
- As víboras são venenosas, D. Estêvão!
- Sim, as víboras são venenosas, Majestade. Contudo, muito raramente é mortal a sua picada. Sempre que sangradas a tempo, as vítimas conseguem sobreviver.
- E os moinhos que, como dizia o Senhor Abade, são cerca de dez lá mais para o cimo da cordilheira, onde se inicia a levada, a umas duas léguas da entrada no centro do couto, e outros tantos, os do segundo grupo, nos limites da povoação, é obra! A que se deve um tão elevado número de unidades de moagem de cereais?



Colaborador*
Por: José do Banido

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