Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Informação

Correio do leitor

Clermont - Ferrand, 27/02/2014
“Barrosão mostra o que vales”

Quero mostrar que também sei escrever. É possível que não me conheçam. Com esta nota fiquem omissos. Mencionem as minhas obras.
Nestas vivências poéticas, que versam de circunstâncias, o mais valoroso para o autor, é o ritmo linguístico, formulários das modas ou elites de poeta. Destas vivências, move-se a arte de ver como um piloto que se depara com as tempestades nas alturas e que tem resposta pronta para cada ocasião. Em qualquer momento e lugar, servem para arrancar um poema épico, lírico, satírico ou burlesco – segundo as circunstâncias.
Da noite para o dia, me radiquei em Clermont – Ferrand, e me impus por diversas vertentes. Este tempo todo, tem que um dia dar frutos. Isto para mim, são sempre dias de inverno e nunca chega a primavera fértil. Sou apenas um marceneiro poético, que durante muitos anos escreveu. Nunca me valorizaram a arte, nem ninguém me bateu as palmas. Apareço em público, sempre descomplexado e resoluto a demonstrar, como se diz no prefácio, o que custa é o primeiro livro. Já cumpri o meu ciclo existencial desde as origens, até às paisagens da Europa. Até regressar ao luso chão das terras de Barroso, onde encontro a terra dos meus pais, a minha e a de minha mulher, Salto é o meu berço, para cumprir o meu profissionalismo, como pastor de ovelhas. Este é o meu roteiro sentimental, arrastei comigo a semente da criatividade poética que me deu à luz antes da terceira idade e, nunca dispensei as tarefas essenciais. Sou um filho da terra, que foi à tropa e voltou à França, com os frutos procriados e suculentos, mas sempre com o pensamento na minha terra.
Para que a memória não se me apague, faço a recolha etnográfica, com este testemunho, com protagonismo, amassado, instruído e formado na vida real. Eu Augusto, sou um exemplo perfeito de como se moldam os verdadeiros amigos da terra e talvez, sirva aos antropólogos e monografos que se fabricam na minha terra, com teorias a mais e saber a menos. Nasci numa freguesia das mais típicas e pitorescas do Baixo Barroso. Pouco mais escrevi do meu cantinho das margens do Rio Vipal, zona de transição entre o Minho e Trás – os – Montes. Na maior parte da minha extensão, encravado entre as serras do Gerês, Cabreira e Barroso. Nasci junto do Rio Vipal, afluente do rio português, que mais barragens tem no seu leito, uma espécie hierofania, onde o profano e o sagrado se conjugam, com uma paisagem geresiana se reflecte, em dias de sol, num ambiente onírico, serviu de leito a populações que nascem e vivem em três dimensões: terra, água e céu, como compensação para os flagelos sociais e políticos. Sou privilegiado por ali ter nascido, soube dar valor à vida, pelas agruras, que me deu esta terra, no cabo do mundo. Pugno e consegui construir família e casa, no meu cantinho, voltando sempre, desde que parti há tantos anos. Mas volto sempre! É aqui que gasto o meu melhor tempo, pela beleza da hospitalidade e bem estar de quem aí nasce, vive e morre. Um tratado antropológico admirável.
Muita gente pensa que ser pastor é vergonhoso e sinónimo de pobreza. Eu penso que é uma honra, opção de ser livre, viver num ambiente natural e saudável, porém é preciso suportar rigorosos invernos. Eu emigrei, porque não tinha onde pendurar o pote e com 14 ovelhas, não podia viver mas, se tivesse terreno para 200 nunca emigraria, porque a “criação “ é uma virtude das mais gratificantes da vida, como ver nascer os anhos e acompanhar o seu crescimento. Ter fartura e riqueza, é ter dignidade e autonomia, mas nem todos pensam assim.
Muitos dos nossos jovens, deixaram de ser pastores porque são todos ricos e, com as suas riquezas viraram a “hippies”. É a moda de andarem sujos, mal penteados, mal vestidos, ser estroina e marginal, viver sem trabalhar e sem prestígios.
Senhora Maria Fernanda Carneiro, mando-lhe uma folha, de um livro meu e muito obrigado, pela boa história, que me mandou do Basto.

Augusto Fernandes

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