Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2014

SECÇÃO: Opinião

O Poder da Força

Um dos mitos da Grécia Antiga que procura explicar a origem das pragas, das tristezas, das maleitas e outras tantas desgraças, atribui a sua autoria a Pandora, uma mulher que não resistiu à curiosidade de abrir uma caixa, de onde, depois de aberta, se apressaram a sair os males que ainda hoje podemos reconhecer no mundo. Apressadamente, depois do erro feito, apenas conseguiu evitar que escapasse a esperança, aliás a última coisa que devemos perder, a acreditar na voz popular.
Mas a história parece que se repete com um incidência que arrasa todo e qualquer otimismo, por mais exagerado que possa parecer. De vez em quando, surgem nos noticiários informações que se dispensavam e que referem factos evitáveis, reveladores de que nada, ou quase nada, se aprende com o passado.
A última cartada, para o nosso desassossego, foi jogada por Vladimir Putin, o homem todo-poderoso da Federação Russa, que, duma penada, decidiu a anexação da Crimeia, depois de um referendo feito à medida, outrora parte integrante da Ucrânia, país soberano, reconhecido pela Comunidade Internacional. É evidente que é uma questão complexa, balizada por direitos históricos, direitos políticos e interesses geoestratégicos internacionais. Por exemplo é na Crimeia que se encontram importantes bases militares russas. Mas nada é suficientemente forte para se dar um passo que parece irreversível no sentido de refazer uma lógica de repartição territorial, com a gravidade acrescida de constituir um grave precedente para outras latitudes ou induzir movimentos independentistas que podem colocar em causa a aparente estabilidade em que vivemos.
É óbvio que ao longo dos séculos se fizeram e refizeram fronteiras, nasceram e caíram Impérios, as nações foram-se modificando ao sabor dos tempos, das vontades e das omissões. No século XX, sobretudo a Europa, sofreu profundas alterações geopolíticas. No rescaldo da 1ª Guerra Mundial, monarquias, outrora flamejantes e orgulhosas do seu passado, declinaram, e passados vinte anos, curtíssima é a memória humana, deu-se a eclosão da 2ª Guerra Mundial (1939/1945), com um inenarrável cortejo de horrores.
E sem agoirar, sabemos como estas coisas começam e não se sabe como terminam. A este propósito bastará recordar o aventureirismo de George Bush no Iraque, com as funestas consequências que ainda hoje subsistem. A arrogância, o orgulho desmedido e a sobranceria fecham portas e erguem barreiras, e se como contestação o uso da força militar é impensável, por outro lado não se pode negar o episódio que hoje se constata, sendo necessária uma resposta que contenha os ímpetos belicistas e anexionistas de Vladimir Putin e dos seus seguidores, certamente através da diplomacia, mas com a certeza de que não se podem colocar os interesses económicos por cima do Direito Internacional. Mais tarde ou mais cedo pagar-se-ia um preço incomportável. E nesta história, ao contrário de outros tempos, não temos, felizmente, uma mulher para culpar.

* Colaborador

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