Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2014

SECÇÃO: Opinião

Bucos na visão de Sant`ana Dionísio

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(continuação)
Sant’Ana Dionísio editou em 1978 o seu “Velho Minho”, a terra onde “mergulha suas primeiras raízes o rústico condado medievo de que havia de emergir o vigoroso roble afonsino”. É a terra onde “a palavra dada por vós é vossa, - não a nossa”. A “Terra de Basto” está bem representada nos 50 capítulos da obra. Ao nosso concelho estão dedicados os capítulos intitulados “Cenóbio protomedievo de Refojos” e “Bucos”. É a este último que nos vamos referir. Assim situa esta “singularíssima aldeia serrana e obscura, da zona austera de transição do Alto Minho para as terras transmontanas do Barroso, que se chama Bucos”.
O caminhante vem da vila (antigo recanto monástico) pela “velha e sinuosa es-trada de Rossas”, para logo defrontar “o serro da Orada, denticulado e mirrado”, de “penedia estrema, só conhecida dos milhafres”.
Ao cair da tarde, deixando a estrada de Rossas, mete-se “pela correteira íngreme e enlameada” e atinge a “pri-meira das três aldeias so-brepostas do mesmo nome: Bucos, Vila Brás e S. Barto-lomeu. Para o autor, esta última aldeia é a “mais típica das três gémeas serranas (…) toda embrulhada na sua modéstia, morena e séria, de terra originária, onde se vive ainda por dizer fora do tempo”.
E continua embevecido:
“Lá está a concreta aldeia serrana, toda embrulhada na sua modéstia, morena e séria, de terra originária, onde se vive ainda por assim dizer fora do tempo.
Sob a neblina fina e crepuscular das alturas, dormitam os cumes. Não se ouve uma voz. Na sua perfeita quietude, como uma alma similar da serra, a aldeia concentra-se, preparando-se para a noite. Ao lado de cada casinhoto, encardido e pobre, quase todos ainda cobertos de colmo, recorta-se o perfil do espigueiro. Aí se guarda o grão para a fornada de cada quinzena. O forno é um só e é de todos. Cada casebre é de um e de todos. Se um adoeceu o vizinho lá está para ver o que há e tratar do que é mais preciso. Todos são vizinhos e todos se tratam por tu. É o tratamento lusitano e bíblico, entre velhos e novos, pobres e remedia-dos.”
Termina assim a sua visita:
“Perante a grandeza da montanha, os lobos que passam no escuro, as estrelas que cintilam no espaço, os discretos moradores de Bucos vivem e morrem como decerto há três mil anos viviam e morriam os moradores dos castros e das citânias, cujos pálidos e tácitos vestígios ainda se encontram hoje, aqui e além, no cimo dos montes.”

Fim
*Colaborador

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