Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (186)

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O Panteão Nacional

Muito se tem falado, nos últimos tempos, sobre o Panteão Nacional. Não fora a morte, ainda que prematura, de Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra, antigo jogador de futebol do Benfica e da Selecção Nacional, e poucos se lembrariam de pensar no que é, para que serve e onde se situa, o Panteão Nacional.
E foram vozes, um tanto ou quanto a despropósito, que despoletaram um tal turbilhão de notícias, de comentários e de críticas, tudo à volta do Panteão Nacional, e por causa da hipotética ida para aquele local de repouso, dos restos mortais do grande futebolista que fora o Eusébio da Silva Ferreira.
Mas, o que é, então, o Panteão Nacional? Desde logo, a sua definição: “Edifício consagrado à memória de pessoas ilustres e onde se depositam os seus restos mortais”.
No nosso país, há dois monumentos com o estatuto de Panteão Nacional, são eles: o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, reconhecido como tal em Agosto de 2003, devido à presença tumular dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I; e a Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, onde se encontram os túmulos de dez ilustres figuras mais recentes, quatro antigos Presidentes da República (Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona), quatro escritores (Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro e Aquilino Ribeiro), um opositor ao Estado Novo (o Marechal Humberto Delgado) e uma fadista (Amália Rodrigues).
O edifício, mais conhecido por igreja de Santa Engrácia, tem, atrás de si, uma longa história, assim como longo fora o período que demorou a sua construção. Porque julgo que terá algum interesse o conhecimento de tais dados históricos, deixarei aqui testemunho, embora muito resumido, de tal percurso.
A igreja de Santa Engrácia, que se situa no limite oriental do bairro lisboeta de Alfama, sobranceira ao rio Tejo, muito próxima da estação de Santa Apolónia, começou a ser construída em 1682, no mesmo local onde já existira uma anterior que tinha sido destruída por um temporal.
O preito que tinha originado a construção, naquele mesmo local, da primitiva igreja, esse manteve-se, que fora a intenção da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, de receber ali o relicário da virgem mártir Engrácia de Saragoça, em 1568.
Desde o início da construção da nova igreja, em 1682, até à sua conclusão, em 1966, passaram-se 284 anos. Daí o ditado popular que lhe sobreveio, de se atribuir, sempre que qualquer obra se prolonga por mais tempo do que aquele que seria razoável, o epiteto de obra de Santa Engrácia!
Quando foi decidida, pelo governo então no poder, na década de sessenta do século XX, a conclusão das obras, essas tiveram como objectivo acelerar o processo de instalação naquele local de repouso das figuras mais ilustres da raça lusíada. Os primeiros inquilinos foram para ali trasladados no ano de 1966, o mesmo ano em que fora inaugurada a nova ponte sobre o Tejo, ao tempo a ponte Salazar.
Ainda um pouco mais de lenda: conta-se que, nuns desacatos que ali tiveram lugar, em 15 de Janeiro de 1630, se vira envolvido um jovem, de seu nome Simão Pires Solis, que era cristão novo. Como era visto com frequência pelas redondezas, foi acusado, pelos populares, de ter sido o autor do roubo do relicário de Santa Engrácia, que se verificou por aqueles dias. Julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, foi condenado à fogueira, no Campo de Santa Clara, sendo queimado vivo no dia 31 de Janeiro de 1631. Antes de morrer, e ao passar pela igreja de Santa Engrácia, terá proferido: “É tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem”. Só mais tarde, bastante tempo mais tarde, se veio a saber a identidade do verdadeiro as-saltante, e então ficou conhecido o motivo pelo qual o pobre Simão não dissera nada de concreto, durante o julgamento, em sua defesa. Ele estava apaixonado por uma jovem fidalga, de seu nome Violante, freira no Convento de Santa Clara, que ficava próximo da igreja de Santa Engrácia, e tinham planeado fugir juntos, naquela noite, uma vez que o seu relacionamento não lhes era permitido.
A maldição, lançada pelo pobre rapaz, loucamente apaixonado, durou mesmo quase três séculos, e só viria a ser sustada, por um decreto do governo do Professor Salazar, com o fim de ali dar lugar para repousarem os restos mortais de pessoas ilustres, que parecia já não terem espaço no Mosteiro dos Jerónimos.
Por mim, dada tal sequência de maldições, deixo desde já público que não pretendo que me levem para aquele local. Espero, isso sim, continuar a passar por lá, muitas vezes, e por muito tempo, mas enquanto “Vivinho de Oliveira”!
Não havendo (se calhar não é possível defini-los com objectividade e clareza), por enquanto, critérios quanto à selecção dos restos mortais daqueles que poderão ter o direito de ali usufruírem do eterno descanso, é lícito que alguns adiantem bitates quanto a tais prerrogativas.
Muito provavelmente, terá sido mesmo isso o que esteve na origem de um conjunto de rumores, digo rumores porque nunca o ouvi, de viva voz, a qualquer um dos visados. Aqueles que se mostraram um tanto ou quanto indispostos, porventura indignados, com um conjunto de sugestões, qual movimento, que se gerou no sentido de aquele ser o local para onde, a breve prazo, deveria ser trasladado o que resta de Eusébio.
Que Eusébio não era um grande letrado, e que gostava de beber uns copos, terão sugerido, em seu desabono, alguns desses ilustres emitentes de opinião.
Por mim, sempre direi que Eusébio, no seu mister, quero dizer, no seu ofício, nunca terá cometido qualquer tipo de deslise que possa comparar-se, nem de perto nem de longe, àquele outro, proferido por um ex chefe do Governo e ex chefe de Estado, quando apregoa que para se resolver o problema da crise que vem assolando a Europa, a solução seria colocar o Banco Central Europeu a emitir moeda sem regra.
Coitado do nosso país, e coitada da Europa! O primeiro porque já se deixou levar, e a segunda se algum dia vier a deixar-se levar por ideias de tão baixo nível, baixo nível no que concerne a medidas de natureza monetária e financeira!
Quanto ao comentário sobre o movimento que preconiza a entrada de Eusébio no Panteão, o que me ocorre é que esses indivíduos, os críticos, parecem sofrer de algum despeito e temerem não lhes poder vir a caber tal sorte.
Para esses, e como agora há ruas, praças e avenidas com nomes de personalidades ainda vivas, e de acordo com necessidades de cada momento, o melhor seria reservarem, desde já, o seu próprio lugar no sítio dos mausoléus.
Como Almeida Garrett (por sinal, um dos que já lá se encontram!), apetece-me gritar: “foge, cão, que te levam pró Panteão! Para onde, se me levam pró canil(ong)?”.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

*Colaborador

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